               AUTO-ESTIMA: Como aprender a gostar de si mesmo
                             Nathaniel Branden


                            Captulo 1  A importncia da auto-estima

        A forma como nos sentimos acerca de ns mesmos  algo que afeta crucialmente todos os aspectos da
nossa experincia, desde a maneira como agimos no trabalho, no amor e no sexo, at o modo como atuamos
como pais, e at aonde provavelmente subiremos na vida. Nossas reaes aos acontecimentos do cotidiano so
determinadas por quem e pelo que pensamos que somos. Os dramas da nossa vida so reflexo das vises mais
ntimas que temos de ns mesmos. Assim, a auto-estima  a chave para o sucesso ou para o fracasso.  tambm
a chave para entendermos a ns mesmos e aos outros.

         Alm de problemas biolgicos, no consigo pensar em uma nica dificuldade psicolgica  da ansiedade
e depresso ao medo da intimidade ou do sucesso, ao abuso de lcool ou drogas, s deficincias na escola ou no
trabalho, ao espancamento de companheiros e filhos, s disfunes sexuais ou  imaturidade emocional, ao
suicdio ou aos crimes violentos  que no esteja relacionada com uma auto-estima negativa. De todos os
julgamentos que fazemos, nenhum  to importante quanto o que fazemos sobre ns mesmos. A auto-estima
positiva  requisito importante para uma vida satisfatria.

        Vamos entender o que  auto-estima. Ela tem dois componentes: o sentimento de competncia pessoal e
o sentimento de valor pessoal. Em outras palavras, a auto-estima  a soma da autoconfiana com o auto-
respeito. Ela reflete o julgamento implcito da nossa capacidade de lidar com os desafios da vida (entender e
dominar os problemas) e o direito de ser feliz (respeitar e defender os prprios interesses e necessidades).

         Ter uma auto-estima elevada  sentir-se confiantemente adequado  vida, isto , competente e
merecedor, no sentido que acabamos de citar. Ter uma auto-estima baixa  sentir-se inadequado  vida, errado,
no sobre este ou aquele assunto, mas ERRADO COMO PESSOA. Ter uma auto-estima mdia  flutuar entre
sentir-se adequado ou inadequado, certo ou errado como pessoa e manifestar essa inconsistncia no
comportamento  s vezes agindo com sabedoria, s vezes como tolo  reforando, portanto, a incerteza.

        A capacidade de desenvolver uma autoconfiana e um auto-respeito saudveis  inerente  nossa
natureza, pois a capacidade de pensar  a fone bsica da nossa competncia, e o fato de que estamos vivos  a
fonte bsica do nosso direito de lutar pela felicidade. Idealmente falando, todos deveriam desfrutar um alto nvel
de auto-estima, vivenciando tanto a autoconfiana intelectual como a forte sensao de que a felicidade 
adequada. Entetanto, infelizmente, uma grande quantidade de pessoas no se sente assim. Muitas sofrem de
sentimentos de inadequao, insegurana, dvida, culpa e medo de uma participao plena na vida  um
sentimento vago de "eu no sou suficiente". Esses sentimentos nem sempre so reconhecidos e confirmados de
imediato, mas eles existem.

        No processo de crescimento e no processo de vivenciar esse crescimento,  muito fcil que nos alenemos
do autoconceito positivo (ou que nunca formemos um). Poderemos nunca chegar a uma viso feliz de ns
mesmos devido a informaes negativas vindas dos outros, ou porque falhamos em nossa prpria honestidade,
integridade, responsabilidade e auto-afirmao, ou porque julgamos nossas prprias aes com uma
compreenso e uma compaixo inadequadas.

        Entretanto, a auto-estima  sempre uma questo de grau. No conheo ningum que seja totalmente
carente de auto-estima positiva, nem que seja incapaz de desenvolver auto-estima.

       Desenvolver a auto-estima  desenvolver a convico de que somos capazes de viver e somos
merecedores da felicidade e, portanto, capazes de enfrentar a vida com mais confiana, boa vontade e otimismo,
que nos ajudam a atingir nossas metas e a sentirmo-nos realizados. Desenvolver a auto-estima  expandir nossa
capacidade de ser feliz.
         Se entendermos isso, poderemos compreender o fato de que para todos  vantajoso cultivar a auto-
estima. No  necessrio que nos odiemos antes de aprender a nos amar mais; no  preciso nos sentir
inferiores para que queiramos nos sentir mais confiantes. No temos de nos sentir miserveis para querer
expandir nossa capacidade de alegria.

        Quanto maior a nossa auto-estima, mais bem equipados estaremos para lidar com as adversidades da
vida; quanto mais flexveis formos, mais resistiremos  presso de sucumbir ao desespero ou  derrota.

        Quanto maior a nossa auto-estima, maior a probabilidade de sermos criativos em nosso trabalho, ou
seja, maior a probabilidade de obtermos sucesso.

         Quanto maior a nossa auto-estima, mais ambiciosos tenderemos a ser, no necessariamente na carreira
ou em assuntos financeiros, mas em termos das experincias que esperamos vivenciar de maneira emocional,
criativa ou espiritual.

       Quanto maior a nossa auto-estima, maiores sero as nossas possibilidades de manter relaes saudveis,
em vez de destrutivas, pois, assim como o amor atrai o amor, a sade atrai a sade, e a vitalidade e a
comunicabilidade atraem mais do que o vazio e o oportunismo.

        Quanto maior a nossa auto-estima, mais inclinados estaremos a tratar os outros com respeito,
benevolncia e boa vontade, pois no os vemos como ameaa, no nos sentimos como "estranhos e
amedrontados num mundo que ns jamais criamos" (citando um poema de A. E. Housman), uma vez que o
auto-respeito  o fundamento do respeito pelos outros.

       Quanto maior a nossa auto-estima, mais alegria teremos pelo simples fato de ser, de despertar pela
manh, de viver dentro dos nossos prprios corpos. So essas as recompensas que a nossa autoconfiana e o
nosso auto-respeito nos oferecem.

       Vamos nos aprofundar mais no significado do conceito de auto-estima.

       Auto-estima, seja qual for o nvel,  uma experincia ntima; reside no cerne do nosso ser.  o que EU
penso e sinto sobre mim mesmo, no o que o outro pensa e sente sobre mim.

        Quando crianas, nossa autoconfiana e nosso auto-respeito podem ser alimentados ou destrudos pelos
adultos  conforme tenhamos sido respeitados, amados, valorizados e encorajados a confiar em ns mesmos.
Mas, em nossos primeiros anos de vida, nossas escolhas e decises so muito importantes para o
desenvolvimento futuro de nossa auto-estima. Estamos longe de ser meros receptculos da viso que as outras
pessoas tm sobre ns. E de qualquer forma, seja qual tenha sido nossa educao, quando adultos o assunto
est em nossas prprias mos.

       Ningum pode respirar por ns, ningum pode pensar por ns, ningum pode nos dar autoconfiana e
amor-prprio.

        Posso ser amado por minha famlia, por meu companheiro ou companheira e por meus amigos e, mesmo
assim, no amar a mim mesmo. Posso ser admirado por meus colegas de trabalho e mesmo assim ver-me como
um intil. Posso projetar uma imagem de segurana e uma postura que iludem virtualmente a todos e ainda
assim tremer secretamente ao sentir minha inadequao.

        Posso preencher todas as expectativas dos outros e, no entanto, falhar em relao s minhas; posso
conquistar todas as honras e apesar disso sentir que no cheguei a nada; posso ser adorado por milhes e
despertar todas as manhs com uma nauseante sensao de fraude e vazio.

       Chegar ao "sucesso" sem conquistar uma auto-estima positiva  ser condenado a sentir-se um impostor
que aguarda intranquilo ser desmascarado.

       Assim como a aclamao dos outros no cria a nossa auto-estima, tambm no o fazem os
conhecimentos, a competncia, as posses materiais, o casamento, a paternidade, a dedicao  caridade, as
conquistas sexuais ou as cirurgias plsticas. Essas coisas PODEM s vezes fazer com que nos sintamos melhor
sobre ns mesmos temporariamente, ou mais confortveis em situaes particulares, mas conforto no  auto-
estima.

        A tragdia  que existem muitas pessoas que procuram a autoconfiana e a auto-estima em todos os
lugares, menos dentro delas mesmas, e, assim, fracassam em sua busca. Veremos que a auto-estima positiva
pode ser entendida como um tipo de CONQUISTA ESPIRITUAL, isto , uma vitria na evoluo da conscincia.
Quando comeamos a entender a auto-estima dessa forma, como uma condio da conscincia, entendemos
quanta tolice h em acreditar que, se pudermos causar uma boa impresso nos outros, teremos uma auto-
avaliao positiva. Pararemos de dizer a ns mesmos: "Se pelo menos eu tivesse mais uma promoo; se pelo
menos me tornasse esposa e me; se pelo menos fosse reconhecido como um bom provedor; se pelo menos
pudesse comprar um carro maior; se pelo menos pudesse escrever mais um livro, comprar mais uma empresa,
ter mais um amante, mais uma recompensa, mais um reconhecimento de minha generosidade  ento,
REALMENTE me sentiria em paz comigo mesmo....". Perceberamos ento que a busca  irracional, que o anseio
ser sempre "por mais um".

        Se ter auto-estima  julgar que sou adequado  vida,  experincia da competncia e do valor, se auto-
estima  a auto-afirmao da conscincia, de uma mente que confia em si, ento ningum pode gerar essa
experincia a no ser eu mesmo.

      Quando avaliamos a verdadeira natureza da auto-estima, vemos que ela no  competitiva ou
comparativa.

        A verdadeira auto-estima no se expressa pela autoglorificao  custa dos outros, ou pelo ideal de se
tornar superior aos outros, ou de diminuir os outros para se elevar. A arrogncia, a jactncia e a superestima de
nossas capacidades so atitudes que refletem uma auto-estima inadequada, e no, como imaginam alguns,
excesso de auto-estima.

        Uma das caractersticas mais significativas da auto-estima saudvel  que ela  o ESTADO DA PESSOA
QUE NO EST EM GUERRA CONSIGO MESMA OU COM OS OUTROS.

        A importncia da auto-estima saudvel est no fato de que ela  o fundamento da nossa capacidade de
reagir ativa e positivamente s oportunidades da vida  no trabalho, no amor e no lazer. A auto-estima saudvel
 tambm o fundamento da serenidade de esprito que torna possvel desfrutar a vida.




                            Captulo 2  O autoconceito como destino
        Nosso AUTOCONCEITO  quem e o que consciente e inconscientemente achamos que somos  nossas
caractersticas fsicas e psicolgicas, nossos pontos positivos e negativos e, acima de tudo, nossa auto-estima. A
auto-estima  o componente AVALIADOR do autoconceito.

       Nosso autoconceito determina nosso destino, isto , a viso mais profunda de ns mesmos influencia
todas as nossas escolhas significativas e todas as nossas decises e, portanto, determina o tipo de vida que
criamos para ns.

       Os exemplos que se seguem sero teis para esclarecer como nosso autoconceito afeta os nossos
sentimentos e o nosso comportamento. Leia as historias, tendo em mente essa perspectiva.

        Jane, 34 anos, era vendedora numa grande loja de departamentos. Embora tivesse um relacionamento
com um homem e o considerasse "agradvel", nunca se casara. No nosso primeiro encontro, explicou que no
tinha queixas especficas de insatisfao de uma maneira geral, apenas um sentimento de que "a vida deve ser
melhor do que isso". E acrescentou: "Eu gostaria de me entender melhor e de aprender a me impor mais".
        Pedi-lhe que fechasse os olhos e entrasse na seguinte fantasia:

         "Imagine que voc est na base de uma montanha, qualquer tipo de montanha que deseje criar. H uma
trilha que leva ao alto, ao pico. Voc comea a subir. Sente o esforo nas pernas, tentando escalar. Existem
rvores e flores nessa encosta da montanha?... Enquanto escala, voc nota algo de interessante. Todas as
dvidas e inseguranas da sua vida cotidiana parecem despencar, como um excesso de bagagem de que voc
no precisa mais. Quanto mais escala, mais livre se sente. Aproximando-se do topo da montanha, voc se sente
quase sem peso. Sua mente est clara. Voc se sente mais forte, mais segura de si, mais do que em qualquer
outro momento de sua vida. Imagine esse estado de esprito e explore-o. Voc gosta dele? E como o seu corpo
se sente quando voc est to autoconfiante e to livre de dvidas e medos?... Agora voc est apenas a uns
poucos passos do pico da montanha. Voc est no pico, olhando o mundo de cima. Como se sente? Qual  a
sensao em relao ao mundo agora? Como  ficar sem as velhas e familiares inseguranas? Aproveite alguns
minutos para examinar esse assunto... e agora volte-se e comece a descer a montanha. Seguindo o caminho de
volta, observe se est trazendo a sua nova fora e liberdade, ou se abandonou esses sentimentos no pico da
montanha. Ser que as velhas cargas retornam na medida em que voc chega embaixo? E se voltar ao ponto de
partida, poderia olhar o mundo sob um novo ngulo? Como se sente? Que mudanas ocorreram? Voc se sente
diferente?".

        Depois de alguns momentos, ela abriu os olhos. "Adorei l em cima. Senti-me eu mesma, embora nunca
tenha sido assim. Eu estava solitria e assustada; ouvi a voz da minha me dizendo: `Esse no  o seu lugar'.
Quando estava descendo a montanha, senti voltar o peso de antes, mas no totalmente. Alguma coisa estava
diferente. E houve um momento l em cima em que... em que eu estava livre. Realmente livre. Sabia que podia
fazer qualquer coisa. Sabia que nada me impedia, a no ser eu mesma. Realmente podia sentir isso, vivenciar,
no como um tipo de teoria, mas como algo real, algo que eu sentia no corpo e percebia com a totalidade da
mente. Quase como um momento de embriaguez, porm essa embriaguez no me cegava para a realidade. Era
mais como ganhar uma nova viso."

        "Mas...", sugeri, "subir mais ainda poderia significar ir contra sua me? Contradizer a viso que ela tem
das coisas?".

        "Acho que... no ser mais sua filha."

        "E, visto assim, parece uma escolha difcil."

        "Posso ostar de mim mesma, ainda que minha me no goste?"

        "Pode?", atalhei.

        "No vejo por que no. E talvez ela aprenda. Talvez ela se adapte a mim, em vez de eu me adaptar a
ela."

       "Voc j pensou no fato de que quase todas as verses de feitos hericos comeam com o heri
deixando o lar e livrando-se da atrao gravitacional da famlia?"

        O objetivo do meu trabalho com Jane era ensinar-lhe maior autoconscincia (conscincia de sentimentos,
desejos, pensamentos e habilidades), auto-aceitao (aprender a no rejeitar sua experincia, ou a parar de ser
sua prpria adversria) e auto-expresso nas aes (auto-afirmao), aspectos que se encontram entre os mais
importantes pilares da auto-estima. Jane utilizou a viso de embarcar numa jornada que a ajudaria a romper os
laos familiares, e isso deu-lhe uma nova perspectiva. Depois de alguns meses de terapia, ela disse que atingira
sua meta, e a terapia foi encerrada.

        Seis meses depois, recebi uma carta muito alegre na qual ela relatava que, uma semana depois de deixar
a terapia, abandonara o emprego para iniciar seu prprio negcio de vendas a varejo, "algo que eu queria fazer
h anos, mas nunca tive coragem", e que sua loja j estava prosperando. "Em nossa famlia acham que as
mulheres no tm cabea para negcios, mas para mim j chega de tanta bobagem. O que lucrei com a terapia 
que, agora, a minha vida me pertence  isso no  bsico para a auto-estima? E se existe algo que realmente
quero, por que no lutar por isso? Agora estou pronta para comear a pensar em relacionamentos."

        Quando Jane me consultou pela primeira vez, no lhe faltava auto-estima. Entretanto, uma certa parte
de sua auto-estima tinha sido investida em falsos valores: na crena de que era necessria a aprovao da sua
me para o seu bem-estar e auto-respeito. Quando aprendeu a recuperar seu investimento, a retomar a vida em
suas prprias mos e a viver segundo seu prprio julgamento, ela aumentou sua auto-estima naturalmente e
abriu as portas s possibilidades que, antes, considerava alm do seu alcance.

       Algum aspecto da histria de Jane relaciona-se com a sua experincia?


        Charles, um banqueiro de grande sucesso, com 50 anos, fez uma consulta porque era muito infeliz em
suas relaes pessoais e por causa de um temor profundamente arraigado, que se mascarava de uma aparncia
calma e autoconfiante. " to fcil enganar as pessoas quanto  minha auto-confiana", disse ele, "porque elas
tambm so inseguras". Divorciado aps quinze anos de casamento, nos ltimos trs ficara com uma mesma
mulher, com quem rompera e reatara algumas vezes. "A verdade  que ela no  muito importante para mim.
Mas ela me adora,  muito apegada a mim, quer estar comigo o tempo todo.  seguro e simples. Brigamos
porque no quero me casar. Eu a humilho, repreendo-a por casos passados. Ela grita que eu tenho medo de um
compromisso. Por que eu haveria de me comprometer com uma mulher que, no fundo, no me interessa? Mas,
ento, por que estou com ela?"

        O que vi quando olhei para o rosto daquele homem de meia-idade, com os cabelos ralos, foi um
garotinho assustado, desnorteado, angustiado e que parecia estar pedindo socorro das profundezas de algum
pesadelo do passado. Eu estava disposto a acreditar que no era assim que seus scios o viam, mas me
perguntava como poderiam deixar de enxergar a verdade. E pensava que essa espcie de invisibilidade s
poderia estar aumentando o seu tormento.

        Filho nico de imigrantes russos empobrecidos, fora criado, segundo contou, sem amor, sem o menor
sinal de calor ou afeio e com uma boa dose de brutalidade fsica. "Mas eu sabia que era esperto e que podia
sobreviver. Sabia que podia ver coisas que as outras pessoas no vem, como ganhar dinheiro, por exemplo. Aos
catorze, j estava realizando meu primeiro negcio de sucesso. Queria dinheiro para poder ser livre. Hoje ganho
muito dinheiro. Operar nos negcios  fcil para mim. No sei por que, mas . Os lances certos simplesmente me
parecem bvios. Em termos de vida pessoal, tentei algumas vezes confiar minhas inseguranas a um de meus
scios. Ele riu de mim, no quis acreditar, no quis nem mesmo ouvir falar no assunto. Vivo em um apartamento
de dois cmodos e no tenho interesse em amenidades. Sinto que no as mereo. Sinto que dificilmente mereo
alguma coisa... Voc sabe do que eu gosto em voc? Voc v o meu medo e a minha dor e acredita, voc no
tem medo disso, no tenta mudar de assunto."

       "E falando nisso", eu disse, "me pergunto como  ser um menino de 5 anos vivendo na sua casa."

         Seus olhos lacrimejaram, e ele contou-me como isso era de fato terrvel. Enquanto falava, a criana que
ele fora emergia cada vez mais claramente em seu rosto.

       O que se via era que Charles, quando criana, apesar de sua feroz vontade de sobreviver, formara um
autoconceito espantosamente negativo, que era responsvel tanto por seu sentimento de no ser merecedor de
nada como por sua escolha de uma mulher pela qual tinha pouca considerao. Quem era ele para ter o amor de
uma mulher admirvel? E, ao mesmo tempo que se permitia ganhar dinheiro, no se permitia desfrut-lo.

       Conclu que a criana  ou, mais precisamente, o eu-criana dentro do adulto  detinha a chave para a
recuperao da auto-estima de Charles. Uma vez que o conceito do eu-criana  importante e aparecer
novamente neste livro, faamos uma pausa para entend-lo.

        Todos ns j fomos criana um dia e, embora possamos no perceber, ainda a trazemos dentro de ns,
como um aspecto de ns mesmos. s vezes mudamos para o estado de conscincia da criana que fomos
outrora e respondemos s situaes de nossas vidas adultas como se, para todas as finalidades prticas, ainda
fssemos aquela criana, com seus valores, suas emoes, suas perspectivas e maneiras caractersticas de
processar a experincia. s vezes essa mudana  desejvel, por exemplo, quando vivenciamos a
espontaneidade e a alegria infantil.  indesejvel, entretanto, quando reativamos as inseguranas dessa criana,
sua dependncia e limitada compreenso do mundo.

        Podemos aprender a reconhecer essa criana, a fazer amizade com ela e a ouvir atentamente o que ela
tem a nos dizer, mesmo que seja doloroso. Com efeito, podemos fazer com que ela se sinta bem-vinda dentro de
ns, permitindo que o eu-criana se integre em nosso eu-adulto. Ou podemos rejeit-la, por medo, dor ou
vergonha, tornando-nos inconscientes de sua existncia. Nesse ltimo caso, o eu-criana, abandonado e no-
integrado, passa a atormentar nossas vidas de maneiras que provavelmente no reconheceremos: tornando
impossvel que tenhamos uma vida amorosa feliz, levando-nos a comportamentos inadequados no trabalho,
negando-nos a liberdade de nos divertir de modo adulto, e assim por diante.

        Quis explorar a hiptese de que os primeiros anos de Charles teriam sido to dolorosos que ele se
anestesiara psicologicamente para poder sobreviver; de que, no processo de amadurecimento, ele teria trancado
o seu eu-criana em uma cmara hermeticamente fechada onde seus gritos mal poderiam ser ouvidos, e de que
a redeno da sua auto-estima no poderia comear at que ele tivesse redimido esse eu-criana. Com seu eu-
criana sentindo-se rejeitado e repudiado pelo eu-adulto, com uma parte dele to impiedosamente condenada
pela outra, no havia maneira de sua auto-estima sobreviver ilesa.

        Nos primeiros estgios da terapia, portanto, concentramo-nos em orientar Charles atravs dos anos de
sua infncia, permitindo-lhe vivenciar em nveis cada vez mais profundos as indignidades, as humilhaes e a
sensao geral de perigo e caos que moldaram suas primeiras impresses da vida. Isso foi obtido principalmente
atravs de um procedimento em que o paciente completa frases, tcnica muito importante em meu mtodo de
terapia. Expliquei a Charles que iria dar-lhe o incio de uma frase, uma frase incompleta, e que ele deveria ficar
repetindo aquele incio e completando a frase com uma concluso diferente a cada vez, sem preocupar-se com o
fato de todas elas serem ou no verdadeiras, ou de uma concluso aparentemente conflitar com a outra. A
seguir esto alguns exemplos de nossas primeiras sesses de terapia.

        Apresentei-lhe este: Se a criana interior pudesse falar, ela diria...  e aqui esto as suas
concluses:

        ... estou com medo.
        ... no entendo.
        ... por que mame est sempre gritando comigo?
        ... por que papai est me batendo?
        ... por que nada faz sentido?
        ... por que ningum brinca comigo?
        ... no sei como conversar com algum.
        ... tenho pesadelos o tempo todo e quando choro papai grita comigo.
        ... por que, quando estou tomando banho, papai entra e faz troa de mim?
        ... por que ningum me protege?

        Ento dei-lhe este: Uma das coisas que eu tinha que fazer para sobreviver era...

        ... ser cauteloso.
        ... no sentir.
        ... me esconder.
        ... ler.
        ... manter os olhos abertos sempre.
        ... estar sempre alerta para o perigo.
        ... no confiar em ningum.
        ... aprender a ser independente.

        Numa sesso posterior: O meu eu-criana precisa de mim para...

        ... ser espontneo.
       ... que eu o oua.
       ... que o faa sentir-se seguro.
       ... que o deixe chorar.
       ... que o abrace.
       ... que no o castigue como papai fazia.
       ... que eu oua a sua dor.
       ... que eu o console.
       ... que eu esteja presente.
       ... que eu no fuja dele.

       Se eu fosse mais benevolente e carinhoso com o meu eu-criana...

       ... deixaria que brincasse mais.
       ... ele se sentiria menos sozinho.
       ... ele no se sentiria abandonado por todos.
       ... eu poderia ser o pai que ele nunca teve.
       ... deixaria que ele tivesse prazer nas coisas.
       ... tornaria o mundo mais justo para com ele.
       ... ele poderia sentir-se seguro.
       ... poderamos ambos nos sentir seguros.
       ... eu poderia cur-lo e curar a mim mesmo.

         Depois que explorei esses temas mais detalhadamente, disse a Charles: "Por favor, feche os olhos e
imagine o pequeno Charles diante de voc. Como ele o est olhando? Qual  a expresso de seus olhos? Eu
gostaria de saber como voc se sentiria nesse momento, se o apanhasse e o colocasse no colo e apenas o
abraasse, deixando os seus braos lhe dizerem que ele est seguro, que voc agora est presente, que ele
afinal pode contar com voc e confiar em voc".

        Queria que Charles vivenciasse seu eu-criana como uma entidade separada, e que retivesse ao mesmo
tempo o conhecimento de que lidava com uma parte rejeitada dele mesmo, a qual, posteriormente, teria de ser
integrada.

        Charles comeou a chorar de mansinho. "Ele parece magoado, zangado, desconfiado. Parece querer
tanto confiar...  uma sensao to boa...", sussurrou.

         "Certo... e agora deixe que ele chore com voc... vocs dois chorando juntos... entendendo realmente as
coisas agora... muito mais do que pode ser posto em palavras... elas no so necessrias... e voc pode sentir
isso..."

        atravs da imaginao e da fantasia dirigida, Charles voltou no tempo para salvar o seu eu-criana, para
amenizar sua dor e dar a essa criana conforto, apoio e estabilidade, coisas que ela nunca conhecera. Ao fazer
isso, Charles comeou a "perdoar" aquela criana, o seu eu-criana  A ENTENDER QUE O PERDO NO ERA
NECESSRIO - , pelo fato de que a criana, tanto quanto ele, no sabia como lidar com a vida, QUE A CRIANA
ESTAVA LUTANDO PELA SOBREVIVNCIA DA NICA MANEIRA QUE SABIA.... e, na medida em que essa
perspectiva foi absorvida e integrada, a auto-estima de Charles comeou a crescer.

         proporo que sua auto-estima ia se tornando mais forte, Charles comeava a parecer mais adulto,
mais masculino. Seu eu-criana acrescentou vida ao seu rosto, em vez de dor. Nas semanas que se seguiram, ele
iniciou novas mudanas em sua vida, inteiramente por iniciativa prpria. Comeou a vestir-se melhor, no se
envergonhando mais do fato de que podia adquirir roupas caras. Mudou-se de seu modesto apartamento para
uma casa atraente. Encerrou o insatisfatrio relacionamento de trs anos e comeou a encontrar-se com
mulheres mais inteligentes, realizadas e independentes. Comeou a projetar mais energia e deciso. Parecia mais
vivo.

        Recuperando e integrando uma parte importante, mas REJEITADA de si mesmo, ele cresceu aos seus
prprios olhos. Modificando sua auto-estima, transformou sua vida.
        Sugiro que voc pare por alguns momentos para explorar os seus sentimentos em relao  criana que
foi um dia e para se perguntar sobre o papel que o seu eu-criana desempenha na sua vida atual.



        Eva, 15 anos, ia mal na escola. Raramente chegava em casa, da escola ou de seus encontros, no horrio
prometido. Seus pais se queixavam das frequentes mentiras. A me, que me confidenciara ter sido bastante
"rebelde" antes do casamento, confessou-me: "Estou aterrorizada. Eva se parece tanto comigo quando eu tinha a
idade dela". O pai de Eva, corretor de valores, segredou-me: "Eu j fui adolescente e sei o que pode acontecer.
Eu mesmo no era um santo, como Eva bem sabe, pois j me ouviu conversando com a me a esse respeito.
Amo Eva e estou preocupado com seu comportamento.

        O irmo mais velho de Eva era um bom aluno e um filho exemplar. Na terapia, Eva admitiu que o via
como o de melhor aparncia e o mais inteligente dos dois. Sabia que era rpida em provocar discusses com ele.
Logo se tornou evidente para mim que o nico jeito que Eva conhecia para chamar a ateno era "ser m". Em
outras palavras, tinha um autoconceito negativo e parecia estar determinada a traduzi-lo numa vida infeliz. A
questo era: como gerar uma mudana em seu autoconceito e em seu comportamento?

       Pedi-lhe para sentar-se diante de um espelho e examinar-se. Ela disse que para ela isso era muito
desagradvel, pois, refletido no espelho, via tudo aquilo de que no gostava em si mesma.

         Sugeri que, se conseguisse passar uma semana inteira sem contar uma nica mentira a ningum, ficaria
surpresa com a mudana que notaria diante do espelho em nossa prxima sesso; seria provavelmente uma
mudana sutil, e ela teria de estar com os olhos muito abertos para perceb-la. Ela achou que aquilo era
bobagem, mas concordou em cumprir a tarefa. Sem que soubesse pedi a seus pais que aceitassem tudo o que
ela dissesse naquela semana e que no contestassem sua sinceridade.

       Na sesso seguinte, ela sentou-se diante do espelho e disse: "Pareo pior". E ento confessou que tinha
contado trs mentiras para a me. Ficou atnita porque os pais no chamaram a sua ateno por isso.
Concordamos em tentar novamente na prxima semana.

        Na outra sesso, ela chegou cedo e anunciou na sala de espera, antes de entrar no consultrio: "No
contei nenhuma mentira a semana inteira!", e correu para olhar-se no espelho. "Hummmmm... ", exclamou
suavemente, depois voltou-se para mim e perguntou: "Est vendo alguma coisa?"

       "Vejo uma garota que optou por ser honesta durante uma semana."

        Porm, ela insistiu: "Pareo diferente?". Sugeri que voltasse ao espelho e decidisse por si mesma.
"Pareo mais feliz", anunciou.

       "Bem,  uma diferena, no ?"

       Ento, sugeri que descobrssemos o que aconteceria se ela chegasse em casa precisamente no horrio
que prometera aos pais.

       Nossa prxima sesso girou parcialmente em torno de seus pais. "Meus pais tiveram uma briga terrvel."

       O fato no me surpreendeu. "Sobre voc?", perguntei.

       "No, sobre o relacionamento deles." Ela sentou-se diante do espelho e disse para o reflexo: "Voc est
vendo o que acontece quando eles no tm voc como motivo para discutir?"

       Fiquei satisfeito com a sua percepo, mas permaneci em silncio.

       "Acho que estou ficando mais bonita", declarou. Era a sua maneira de me dizer que tivera sucesso no
cumprimento da tarefa de manter a palavra.

        Numa sesso subsequente, trabalhamos um pouco com a concluso de sentenas. Aqui esto suas
respostas a Eu gosto muito de mim mesma quando...

        ... no estou tentando ser como todo mundo.
       ... fao o que disse que ia fazer.
       ... no fico matando tempo na aula.
       ... fao minha lio de casa.
       ... digo a verdade.
       ... me divirto com meu pai.
       ... uso a cabea em vez de fingir que sou boba.
       ... fico fora de encrencas.
       ... recuso "puxar fumo".

       Eu gosto menos de mim quando...

       ... me fao de surda.
       ... me comporto como vtima.
       ... tenho ataques para chamar a ateno.
       ... como demais.
       ... ajo impulsivamente.
       ... tento impor minhas opinies s pessoas.
       ... minto.
       ... quebro promessas.

        Durante esse perodo, conduzi diversas sesses paralelas com os pais de Eva, alertando-os para o fato de
que, na medida em que ela mudava e melhorava, poderiam vivenciar mais dificuldades no casamento, pois os
problemas da filha no seriam mais uma distrao. De fato, avisei-lhes que poderiam at sabotar o progresso
dela para evitar a confrontao com os problemas conjugais. Combinamos nos encontrar a intervalos regulares,
na presena de Eva e seu irmo, para monitorar a resposta da famlia s mudanas da garota. Assim, seu desejo
de ateno estava agora sendo atendido, mas de uma maneira benfica para todos os membros da famlia.
Tnhamos relacionado seu senso de valor (mais o senso de ser cativante, mais a prpria viso de seu poder de
atrao)  sua honestidade e integridade.

        Na medida em que Eva aprendia a viver com maior responsabilidade, sua auto-estima aumentava. Ela
gostava mais de si mesma. Seu desejo de ser mais responsvel tornava-se mais forte. Suas notas na escola
melhoraram. Ela se tornava mais seletiva tanto em relao aos amigos como em relao s atividades. Ela e o
irmo ficaram mais amigos. Como um dos resultados de seu tratamento os pais agora viam como os seus
prprios problemas contribuam para as dificuldades da filha. Eles foram procurar aconselhamento matrimonial.

        Eva aprendeu a diferenciar as caractersticas que admirava nos pais das que no gostava. Tornou-se
mais seletiva sobre que caractersticas imitar e passou a rejeitar aquelas que, segundo percebia, faziam com que
os prprios pais se sentissem culpados. Os pais ficaram aliviados quando isso se tornou aparente. Perderam
parte da culpa que vivenciavam como pais e aprenderam a apoiar os esforos da filha para crescer e se tornar
uma pessoa adulta, forte e confivel.

        Ao dar assistncia a Eva para fortalecer sua auto-estima, o passo mais importante foi o primeiro: ela
precisava PARAR DE MENTIR. No apenas mentia aos outros sobre seus atos, como tambm mentia para si
mesma sobre quem era, fingindo uma inadequao que negava seu potencial. Seria necessrio muito mais
trabalho, mas sua vontade de experimentar a verdade era essencial para comear a mudana.

       Existe algum aspecto na psicologia de Eva que possa ter importncia para voc?
        Estou certo de que o leitor entender que, ao contar essas histrias, omiti muita coisa. Este no  um
livro sobre a arte da psicoterapia. As histrias foram simplificadas para manter nitidamente em foco os pontos
principais que so relevantes aos nossos propsitos. Eles foram colocados para ajudar-nos a entender que quem
e o que pensamos ser influenciam a maneira como agimos  para ajudar-nos a compreender o espantoso poder
do autoconceito.

       A nossa preocupao principal  com o que ns, como adultos, podemos fazer para elevar o nvel da
nossa auto-estima, para aprender a nos amar e a confiar mais em ns mesmos e para sentir maior segurana
quanto  nossa eficincia.

        verdade que alguns de ns podem precisar de psicoterapia para resolver plenamente suas dificuldades.
Porm, a maioria PODE fazer muito sem ajuda, desde que esteja disposta a fazer o esforo. A situao 
semelhante  dos exerccios fsicos:  inegavelmente mais fcil pratic-los com um instrutor ou treinador, mas,
com a orientao adequada de um livro, PODEMOS conseguir uma melhoria importante em nossa condio fsica.
Resume-se a uma questo de vontade e determinao.

        Queremos ter sucesso em nossas vidas. Queremos para ns o melhor possvel. Se a auto-estima  a
chave, como podemos ger-la?




                               Captulo 3  Viver conscientemente

       H duas palavras que descrevem bem o que podemos fazer para elevar a nossa auto-estima  para gerar
mais autoconfiana e auto-respeito. So elas: VIVER CONSCIENTEMENTE. O problema com essa expresso  que
ela pode ser demasiado abstrata para algumas pessoas, no se traduzindo automaticamente numa ao menta
e/ou fsica. Se queremos crescer, precisamos saber O QUE FAZER. Precisamos aprender NOVOS
COMPORTAMENTOS. Devemos ento perguntar: se praticarmos o viver mais conscientemente, de que modo
estaremos AGINDO DE MANEIRA DIFERENTE?

       Precisaremos do resto do livro para responder por completo a essa questo; em primeiro lugar, porm,
veremos por que viver conscientemente  o fundamento da autoconfiana e do auto-respeito.

      Nossa mente  o nosso meio bsico de sobrevivncia. TODAS AS CONQUISTAS QUE NOS DISTINGUEM
COMO SERES HUMANOS SO REFLEXO DA NOSSA CAPACIDADE DE PENSAR. A vida bem-sucedida depende do
uso adequado da inteligncia  adequado, quero dizer, s tarefas e metas que estabelecemos para ns mesmos
e aos desafios que enfrentamos. Esse  o fato biolgico central da nossa existncia.

         Contudo, o uso adequado da nossa conscincia no  automtico: antes,  UM ATO DE ESCOLHA. Somos
livres para procurar a expanso ou a contrao da conscincia. Podemos tentar ver mais, ou ver menos.
Podemos querer ou no querer saber. Podemos lutar pela clareza ou pela perplexidade. Podemos viver
consciente, semiconsciente (para a maior parte das finalidades bsicas) ou INCONSCIENTEMENTE. Esse  o
significado bsico do livre-arbtrio.

        Se a nossa vida e o nosso bem-estar dependem do uso adequado da conscincia, a extenso com que
valorizamos a viso em vez da cegueira  o determinante isolado mais importante da nossa autoconfiana e do
nosso auto-respeito. Dificilmente poderemos nos sentir competentes na vida enquanto andarmos em crculos (no
trabalho, no casamento ou com os filhos), num nevoeiro mental auto-induzido. Se trairmos nossos meios bsicos
de sobrevivncia, tentando existir sem pensar, nosso senso de valor sofrer na mesma medida, independente da
aprovao de outras pessoas ou de nossa prpria desaprovao. NS sabemos de nossas prprias falhas, saibam
ou no os outros. AUTO-ESTIMA  A REPUTAO QUE ADQUIRIMOS CONOSCO MESMOS.

        Mil vezes por dia temos de escolher o nvel de conscincia no qual vamos funcionar. Mil vezes por dia
temos de escolher entre pensar e no pensar. Gradualmente, com o passar do tempo, estabelecemos um
conceito do tipo de pessoa que somos, dependendo das escolhas que fazemos, da racionalidade e da integridade
que demonstramos. Essa  a reputao da qual falo.
        Quanto mais inteligentes somos, maior o nosso potencial de conscientizao, mas o princpio de viver
conscientemente continua o mesmo, independente do nvel de inteligncia. Viver conscientemente significa estar
cnscio de tudo o que afeta os nossos atos, propsitos, valores e metas, e comportar-se de acordo com o que
vemos e sabemos.

        Em qualquer situao, viver conscientemente significa gerar um estado mental adequado  tarefa que
devemos executar. Dirigir um carro, fazer amor, escrever uma lista de supermercado, estudar um balano,
meditar  tudo isso requer estados mentais diferentes, tipos diversos de processos mentais. EM QUESTES DE
FUNCIONAMENTO MENTAL, O CONTEXTO DETERMINA A ADEQUAO. Viver conscientemente significa assumir
a responsabilidade pela percepo consciente adequada  ao na qual estamos engajados. Isso, acima de tudo,
 o fundamento da autoconfiana e do auto-respeito.

      A auto-estima, assim, no  funo daquilo com o que nascemos, mas de COMO USAMOS NOSSA
CONSCINCIA  as escolhas que fazemos no que concerne  tomada de conscincia,  honestidade de nosso
relacionamento com a realidade, no nvel da nossa integridade pessoal. Uma pessoa de alto nvel de inteligncia
e de auto-estima no se sente MAIS adequada  vida, ou MAIS merecedora de felicidade, do que uma pessoa de
auto-estima e de inteligncia modestas.

       Viver conscientemente implica respeitar os fatos da realidade  os fatos do nosso mundo interior, bem
como os do mundo exterior  em contraposio a uma atitude que se resume em: "Se eu no optei por ver e
reconhecer isso, isso no existe". Viver conscientemente  viver DE MANEIRA RESPONSVEL EM RELAO 
REALIDADE.

       Isso no significa que temos de gostar do que vemos, mas que reconhecemos o que  e o que no , e
que desejos, temores ou negaes no alteram os fatos.

       Para ilustrar o que quero dizer quando me refiro a "viver conscientemente", apresento os exemplos que
se seguem.


         VIVER CONSCIENTEMENTE  Quando Joo foi contratado para um novo emprego, fez tudo o que podia
para dominar o que era exigido dele e ficou procurando meios de realizar suas tarefas com mais eficincia. Alm
disso, procurou entender o contexto mais amplo em que se enquadrava seu trabalho, para poder ascender
profissionalmente e no ficar indefinidamente no nvel em que comeara. Sua vontade bsica era APRENDER e
da crescer em confiana, produtividade e competncia.

        VIVER INCONSCIENTEMENTE  Quando Gil foi contratado pela mesma empresa que contratara Joo,
imaginou que, se memorizasse a rotina das tarefas que lhe foram designadas e no atrasse atenes negativas,
poderia sentir-se em segurana. Os DESAFIOS no o atraam, pois acarretavam riscos e exigiam que pensasse.
Ele operava no nvel mnimo de ateno necessrio para repetir os movimentos que lhe haviam sido ensinados,
no contribuindo com nada original. Seu olhar raramente se desviava de seu posto de trabalho, a no ser com o
propsito de interagir com os colegas ou sonhar acordado. No sentia curiosidade pelo trabalho. Por que
deveria? O emprego estava ali. Mantinha um pequeno relgio na sua frente para saber exatamente quando eram
cinco da tarde, hora de ir para casa. Quando seu supervisor lhe chamava a ateno pelos erros que cometera,
arranjava uma desculpa e no ntimo ficava furioso. Porm, quando Joo foi promovido e Gil no, este sentiu-se
desconcertado e ressentido.

       Qual destes dois padres de comportamento mais se parece com o seu? E qual o impacto desse
comportamento sobre a sua auto-estima?



        VIVER CONSCIENTEMENTE  Uma mulher chamada Serena, que tinha um bom casamento, certa vez me
disse: "Uma hora depois de me encontrar com o homem com quem casei, poderia ter feito uma palestra a
respeito de como seria difcil conviver com ele. Acho que ele  o homem mais excitante que j conheci, mas
nunca me enganei quanto ao fato de tambm ser um dos homens que mais se preocupa com si prprio. Muitas
vezes parece um professor distrado e passa grande parte do tempo num mundo particular. Eu tinha de saber
que aquele era o seu jeito de ser, seno teria ficado muito aborrecida mais tarde. Ele nunca tentou parecer
diferente do que era. No posso entender as pessoas que se dizem magoadas ou chocadas com o modo de ser
de seus companheiros ou companheiras. A maneira de ser das pessoas  to bvia, basta apenas PRESTAR
ATENO! Nunca fui mais feliz em minha vida do que sou agora, nesse casamento, mas no porque diga a mim
mesma que o meu marido  `perfeito' ou `sem defeitos'. Sabe, acho que  por isso que aprecio tanto a fora e as
virtudes dele. EU QUERO VER TUDO".

        VIVER INCONSCIENTEMENTE  Uma mulher chamada Carolina, que veio fazer psicoterapia, contou na
primeira sesso: "Tenho um azar terrvel com os homens. Quero dizer, quantas mulheres podem afirmar que os
seus ltimos trs amantes batiam nelas? No sei por que essas coisas me acontecem. Por que eu, meu Deus, por
que eu?! No, no posso dizer que me dou ao trabalho de conhecer bem o homem antes... voc sabe. Quero
dizer, parte da excitao  estar no escuro, no ?  sempre um grande choque  mal posso acreditar no que
est acontecendo!  isto , quando eles comeam a me trair. Oh, acho que eu sabia, de uma certa forma... que
eles iam dar problema. Havia sinais. Mas eu QUERIA que fosse tudo bem! Eu QUERIA que cada um deles fosse o
prprio `Sr. Certinho'. Ento, quando ouvia falar da maneira como eles tratavam as outras mulheres, dizia a mim
mesma: `Comigo vai ser diferente'. Fico pensando se as outras mulheres tambm disseram isso a si mesmas...
Mame dizia: `Olhe antes de pular'. Mas d para se divertir desse jeito? Eu s fecho os olhos.... e me atiro. Seja o
que Deus quiser!  essa  a minha filosofia! Mas, se ao menos eu conhecesse um tipo de homem melhor..."

        Sem dvida, as duas mulheres representam tipos extremos de atitudes opostas. Em suas relaes
pessoais qual delas se parece mais com voc?



         VIVER CONSCIENTEMENTE  Quando Rogrio estava crescendo, viu e ouviu muitas coisas que no podia
entender. Ouviu os discursos da me sobre as virtudes da honestidade e depois, muitas vezes, ouviu-a mentir
aos vizinhos. Viu o pai olhar para a me com dio depois de dizer: "Sim, querida, voc est certa, peo
desculpas". Viu que a maior parte dos adultos jamais conta a verdade sobre seus sentimentos, que eles, em
geral, se sentem infelizes e arrasados, todavia isso no evita que faam sermes sobre como obter sucesso na
vida. Eles pareciam se preocupar muito mais com o que os outros pensavam do que com o que estava realmente
certo. Rogrio ficava desalentado, e s vezes assustado, com o que via, mas continuava olhando, tentando
entender. Sabia que no queria ser como os adultos que o cercavam. Muitas vezes sentia falta de ter algum a
quem realmente admirar, porm no fingia que admirava as pessoas que conhecia. Estava impaciente para
crescer, para que pudesse sair e achar um caminho melhor do que o oferecido pelos adultos que o rodeavam.
Contudo, nesse meio tempo, disse a si mesmo que nada era mais importante do que proteger a clareza da sua
prpria viso... e no ceder  desesperana. Esfolado, machucado, alienado dos que o cercavam, ele insistiu e
perseverou  e, ao crescer, descobriu amigos que PODIA estimar e admirar e possibilidades de viver o tipo de
vida que sonhara quando criana, quando nem mesmo conhecia palavras para descrev-lo. Ao atingir a idade
adulta, encontrou as palavras  e a realidade.

        VIVER INCONSCIENTEMENTE  Milton vivia num mundo muito parecido com o de Rogrio, mas bem
cedo na vida tirara uma concluso diferente. Vagamente e sem palavras, decidira: ver demais  perigoso. Ele
queria participar, queria ser amado e isso para ele era mais importante do que tudo o mais. Assim, fingia no
notar quando os adultos estavam mentindo, ou sendo hipcritas, ou cruis, e aprendeu a imitar esse
comportamento, at que chegou o dia em que isso parecia to natural como respirar. Quando j era adolescente,
comeou a se perguntar o que acontecera com a excitao que sentira quando era um menininho, contudo logo
expulsou esses pensamentos de sua mente. Aos vinte, seu pai lhe perguntou: "Voc acha que a vida se resume
em ser feliz?"  porm, Milton j estava to insensvel que sabia que era desnecessrio responder; seu pai estava
apenas declarando o bvio. Tomando um aperitivo com os amigos, j com 30 anos, Milton disse: "Vou contar a
vocs o segredo da vida: faam tudo o que for exigido e no pensem. Assim, no sentiro a dor". Todos o
consideravam um bom companheiro, a no ser seus filhos perplexos, que s viam um vazio quando ele os
encarava. Mas, para os adultos, ele parecia completamente normal, e era isso o que sempre quisera. Ele venderia
a alma se fosse preciso e foi o que acabou fazendo.
       Voc pode relacionar a psicologia de algum desses homens com voc mesmo? E se pode, qual deles se
destacou?



        VIVER CONSCIENTEMENTE  Karen era cientista, uma pesquisadora no campo da bioqumica. Escrevera
diversas teses muito bem aceitas, nas quais desenvolvera uma teoria que estava ganhando muitos adeptos entre
seus colegas. Ento, leu, numa desconhecida publicao australiana, a respeito de algumas descobertas
experimentais que, se constatadas, invalidariam completamente sua teoria. Ela redobrou seus esforos e
descobriu que realmente sua teoria estava errada. Assim, publicou um ensaio anunciando o fato. Quando um
colega mais cnico perguntou-lhe por que ela optara por abalar sua carreira, com base nas indicaes de uma
publicao da qual ningum ouvira falar, ela apenas olhou para ele sem compreender, o que s serviu para
enfurec-lo. "Estou interessada na VERDADE", disse ela. "E o que  a verdade?", perguntou o colega, encolhendo
os ombros.

       VIVER INCONSCIENTEMENTE  Nesse caso, seria compartilhar a mentalidade do colega na histria
mencionada, no importando a profisso.



        VIVER CONSCIENTEMENTE  No meio de uma acalorada discusso com a esposa, Jerry parou de repente
e disse: "Espere um minuto. Acho que estou numa atitude defensiva e no estou realmente ouvindo voc.
Poderamos voltar atrs e tentar de novo? Vejamos se agora entendo o que voc estava falando".

         VIVER INCONSCIENTEMENTE  Durante anos a esposa de Filipe tentara dizer-lhe que estava insatisfeita
com o casamento. A reao dele era demonstrar que estava com um sono incontrolvel. Quando ela tentava
discutir o assunto pela manh, na esperana de que ele estivesse mais desperto, ele respondia agressivamente:
"Por que voc sempre comea com esses assuntos impossveis, quando sabe que estou de sada para o
trabalho?". Se ela perguntava qual seria o horrio alternativo mais adequado, ele respondia: "Agora voc est
tentando me pegar numa armadilha! No aguento presso!". Quando a esposa o alertou de que, a no ser que
eles aprendessem a se comunicar, ela no estaria disposta a passar o resto da vida naquela situao, ele gritou:
"Voc acha que as outras esposas so mais felizes que voc?", e foi embora furioso. Por fim, depois de anos de
no-confrontaes como essa, ele chegou certo dia em casa e descobriu que ela havia partido, deixando um
bilhete em que dizia que no podia aguentar mais. Ele ento gritou para a casa vazia: "Mas o que  isso? Como 
que uma coisa dessas pde acontecer? Como ela pde simplesmente partir, sem me dar a menor
oportunidade?".

        Voc identifica-se com um desses padres de comportamento? Consegue encontrar nessas duas histrias
alguns aspectos de voc mesmo? E voc gosta ou no do que viu?



        VIVER CONSCIENTEMENTE  Sempre que Deise se decidia por uma nova meta, de imediato indagava-se
o que seria necessrio para atingi-la. Quando quis comear o prprio negcio, preparou um elaborado plano de
ao, incluindo uma srie de subestratgias detalhadas que lhe permitiriam ir, passo a passo, rumo ao objetivo
pretendido; e s ento dava prosseguimento a seu interesse. No esperou passivamente que algum lhe
garantisse a realizao de seus sonhos. Se algo no dava certo, perguntava-se: "Onde foi que errei?". Quando
encontrava obstculos, no pensava em termos de culpa, mas de solues. Ela assumia a responsabilidade de
ser a CAUSA dos EFEITOS que desejava. Quando tudo ia bem, ela no se espantava.

        VIVER INCONSCIENTEMENTE  Maria estava insatisfeita na loja de confeces onde trabalhava, e
sonhava possuir uma loja prpria. Porm, quando os amigos lhe perguntavam como pensava conseguir isso, ela
respondia: "Mas no seria maravilhoso?". Quando seu patro a repreendeu por sonhar acordada no meio do
expediente, por ser descuidada e pouco atenciosa com os clientes, disse a si mesma: " difcil me concentrar em
coisas que no so importantes quando estou pensando em minhas prprias ambies". Quando um amigo
sugeriu que seria bom se ela demonstrasse mais iniciativa no trabalho, ela respondeu: "Por que eu deveria me
matar trabalhando para os outros?". Ao ouvir de seu empregador que seus servios no eram mais necessrios,
sentiu-se chocada e trada. Ficou se perguntando por que algumas pessoas conseguiam realizar seus sonhos
enquanto ela no podia faz-lo e pensou: "Talvez eu no seja suficientemente inescrupulosa para ter sucesso nos
negcios". Tinha uma vaga conscincia do dio que crescia em seu corao, mas chamava-o de "indignao pela
injustia do `sistema'".

       Se voc conhecesse duas mulheres assim, com qual teria mais em comum? Qual delas faz com se lembre
mais de voc mesma? Voc pode ver as implicaes para a sua autoconfiana e seu auto-respeito?



         VIVER CONSCIENTEMENTE  Elizabete amava o marido, um construtor; quando soube que ele estava
"dando um jeito" em alguns de seus projetos de construo para reduzir os custos, chegando at  falta de tica,
ficou perturbada. Sabia que os tempos eram difceis para a indstria de construo e que a conconrrncia era
ferrenha. Contudo, sua preocupao com o prprio trabalho impedia que ela percebesse como seu marido estava
preocupado com seu negcio. Quando Elizabete tocou no assunto, ele ficou zangado de incio e colocou-se numa
posio defensiva, mas, quando ela insistiu, seu marido viu que ela demonstrava mais preocupao do que
hostilidade e passou, cada vez mais, a compartilhar com ela as ansiedades e as consideraes que o levavam a
tomar "tais atitudes". Mesmo assim, eles passaram por muitas horas difceis na semana seguinte, s vezes um
deles perdia o controle e recorria aos gritos. Porm, no fim, a razo, o amor e o respeito mtuo venceram; ele
comprometeu-se a corrigir suas recentes infraes e a praticar a integridade que demonstrara no passado. A
esposa reforou-lhe a confiana de que encontraria uma maneira de superar os problemas. Depois de ter
passado com sucesso por mais uma tempestade, o casamento deles fortaleceu-se. "Se voc realmente ama
algum", disse Elizabete, "voc no deixa que o medo a impea de enfrent-lo, quando  isso que a situao
exige".

         VIVER INCONSCIENTEMENTE  Luza no se sentiu  vontade com o provvel novo scio do marido,
quando Paulo o trouxe para jantar em casa. Paulo era dono de diversas oficinas mecnicas, s quais faltava
atualmente uma injeo de capital, que aquele homem se propunha a fornecer em troca de uma participao no
negcio. A conversao  mesa no fez sentido nenhum para Luza, e ela nem tentou entend-la; disse a si
mesma que negcios eram trabalho de homem e que nem tentaria pensar a respeito. Entretanto pareceu-lhe
ouvir, ainda que vagamente, o homem afirmar que, embora NO PAPEL ele fosse majoritrio, DE FATO o negcio
continuaria sendo de Paulo. "Afinal", comentou o homem, "que sei eu sobre oficinas mecnicas?". Ela notou que
Paulo parecia impaciente, distrado e um pouco irritado sempre que ela falava. Disse a si mesma que a principal
obrigao da esposa  manter a paz no lar; portanto, permaneceu obedientemente calada. Este "ausente" do
resto da conversa. No disse nada quando viu Paulo assinar o contrato sem consultar o advogado e decidiu
tambm no pensar nisso; da mesma forma como preferiu no pensar quando o viu demitir um empregado aps
o outro, por ordem do novo scio, e outros, menos experientes, serem contratados sem que Paulo fosse
consultado; da mesma forma como preferiu no pensar e no falar no assunto quando viu os rendimentos de
Paulo diminurem sem que ele pudesse explicar; da mesma forma como preferiu no pensar e no falar no
assunto quando Paulo chegou em casa certo dia e anunciou que estava requerendo concordata. Era como se
cada golpe fosse um sinal para embotar ainda mais a sua conscincia. Nessa altura, ela j chorava muito  de
ato, ambos estavam chorando - , mas no falavam nem pensavam a respeito. "O que h para se pensar", disse
Paulo um dia, em resposta ao seu silncio. "Tive um pouco de azar. Poderia acontecer a qualquer um". Sentados
 mesa do caf, Luza olhou para ele, tentando desesperadamente manter a mente distrada, para no comear a
gritar. No entanto, ela se sentia trada, no tanto pelo marido como pelos prprios pais, que h muito haviam
prometido que, se uma mulher fosse cordata, apoiasse o marido e nunca o desafiasse, seria feliz. Luza no
estava feliz. POR QUE TINHA SIDO ENGANADA PELA VIDA?, perguntava-se com amargura. "Talvez Paulo faa
alguma coisa", disse a si mesma. No constava da sua concepo de vida, nem da de Paulo, que marido e
mulher pudessem pensar juntos e conversar sobre suas vidas.

        Voc pode encontrar aspectos seus em algumas dessas mulheres? Se puder, identifique-os. Voc se
orgulha ou se entristece a respeito do que identifica?
         VIVER CONSCIENTEMENTE  Quando Nestor chegou aos 42 anos de idade, sabia que j atingira as
principais metas que colocara para si mesmo. Tinha um bom casamento, possua uma clnica mdica bem-
sucedida e trs filhos que amava e dos quais se orgulhava. Porm, estava cada vez mais cnscio de uma vaga
insatisfao que vinha de seu ntimo, como se uma parte desconhecida de seu ser estivesse tentando enviar um
sinal atravs da mente consciente. No incio, tudo o que pde identificar foi uma maga sensao de saudade. Ele
no a ps de lado  observou-a. Aos poucos, foi se lembrando de um sonho da juventude, h muito esquecido:
escrever livros. Diminuiu o esquema de trabalho e a vida social, para ter mais tempo de explorar aqueles sonhos
e anseios. No podia dizer, a princpio, se representavam um desejo verdadeiro ou o resduo de uma fantasia de
adolescente, mas sabia que era importante descobrir, pois sua vida e o que fizera dela eram importantes para
ele. Comeou a perceber que desejava apaixonadamente escrever fico e logo estava trabalhando no projeto de
um romance. Dois anos depois, o livro estava terminado; um ano e meio depois, publicado. Obteve um sucesso
razovel. Agora Nestor j sabia que era esse o trabalho que desejava. Seu segundo romance teve mais sucesso,
o terceiro ainda mais. Afastou-se da medicina para escrever em tempo integral. Observando-o, sua esposa via
Nestor ficar cada vez mais jovem e feliz. Seus filhos aprenderam uma lio inestimvel: honre a sua prpria
vontade; honre a sua prpria vida. "Estejam sempre alertas aos seus sinais interiores", disse a eles. "No ajam
de maneira impulsiva, mas PRESTEM ATENO. Muitas vezes, uma parte das suas mentes est anos  frente em
sabedoria".

        VIVER INCONSCIENTEMENTE  Tim estava aborrecido. Era um psiclogo e abria sua clnica com 28, j
tinha 51 anos e perguntava-se como poderia aguentar mais vinte e tantos anos no mesmo trabalho. Ele atendia
tanto individualmente como em grupo e s vezes fazia seminrios para indstrias. No conseguia mais se lembrar
de quando parara de trabalhar por prazer e comeara a trabalhar apenas por dinheiro, porm sabia que o prazer
deixara de ser relevante h muitos anos. Antes oferecia entusiasmo aos seus clientes; agora era uma "sabedoria"
cansada e cnica; sentia-se uma fraude e ficava sempre surpreso porque ningum mais percebia isso. Ocorreu-lhe
vagamente que os clientes que atendia apresentavam exatamente aqueles problemas que estava vivendo. Mas
isso no o motivava a pensar sobre sua situao ou a discuti-la com algum. Seu lazer e fuga favorita era o tnis.
Muitas vezes, quando um cliente falava com ele, sentia-se aborrecido e sonhava com o tnis. Para a famlia, ele
parecia cada vez mais sem vida, afastado e irritadio. Por fim, apaixonou-se por uma cliente trinta anos mais
jovem, e fugiu com ela para um ASHRAM (local de retiro religioso, na ndia) no nordeste, liderado por um guru
indiano que professava o "amor livre" e a "experimentao com drogas"  juntamente com uma absoluta
submisso  vontade dele  como se fosse o caminho para a iluminao espiritual. O guru disse-lhe que pensar
fora a causa de todos os seus problemas, e ele preferiu acreditar que isso era verdade.

      Duas atitudes diferentes perante a vida, a razo e a realidade. Qual delas est mais prxima da sua?
Segundo sua observao, quais so as consequncias para a sua auto-estima?



        Considerando os exemplos citados, observe o tipo de questes envolvidas em viver conscientemente
VERSUS viver inconscientemente:

               Pensar, mesmo quando  difcil, VERSUS no pensar.

               Tomar conscincia, mesmo quando isso  um desafio, VERSUS manter-se inconsciente.

               Clareza, venha ou no facilmente, VERSUS obscuridade e impreciso.

               Respeito pela realidade, seja agradvel ou dolorosa, VERSUS fuga da realidade.

               Respeito pela verdade VERSUS rejeio da verdade.

               Independncia VERSUS dependncia.

               Orientao ativa VERSUS orientao passiva.

               Vontade de assumir os riscos adequados, mesmo perante o medo, VERSUS falta de vontade.
              Honestidade VERSUS desonestidade.

              Viver no presente e ser responsvel por ele VERSUS fugir para a fantasia.

              Autoconfrontao VERSUS auto-evitao.

              Vontade de ver e corrigir enganos VERSUS perseverana no erro.

              Razo VERSUS irraciionalidade.


           Nas histrias anteriores, voc ver todos esses temas implicitamente presentes.


         Um dos assuntos mais importantes relacionados com o viver conscientemente  a independncia
intelectual. Uma pessoa no pode pensar com a mente de outra. Podemos aprender uns com os outros, mas o
verdadeiro conhecimento implica entendimento, no mera repetio ou imitao. Podemos exercitar nossas
mentes ou passar aos outros a responsabilidade do conhecimento e da avaliao e aceitar seus vereditos de uma
maneira mais ou menos crtica.

         claro que s vezes somos influenciados pelos outros de diversas maneiras e no reconhecemos, mas
isso no muda o fato de que existe uma diferena entre a psicologia daqueles que tentam entender as coisas
sozinhos e a daqueles que no tentam. O crucial aqui  a nossa inteno, a nossa meta. Como postura de vida,
voc TEM COMO META pensar sozinho?  essa a sua orientao bsica?

        Falar em "pensar independentemente"  til, porque a redundncia tem valor em termos de nfase.
Muitas vezes aquilo que as pessoas chamam de "pensar"  a mera reciclagem das opinies dos outros, no  de
todo um pensamento verdadeiro. Pensar independentemente  sobre o nosso trabalho, as nossas relaes, os
valores que orientam as nossas vidas   parte do que desejamos dizer com "viver conscientemente".

       A independncia  uma virtude da auto-estima.



        Considerando os exemplos anteriores, voc poderia ter vontade de perguntar: as pessoas que vivem
conscientemente j no tm uma boa auto-estima? E no falta auto-estima s pessoas que vivem
inconscientemente? Ento, como viver conscientemente pode ser o FUNDAMENTO da uma boa auto-estima?

        Encontramos aqui o que chamo de PRINCPIO DA CAUSALIDADE RECPROCA. Quero dizer com isso que
os comportamentos que geram a boa auto-estima so tambm expresso da boa auto-estima, e vice-versa. Viver
conscientemente  tanto a causa como o efeito da autoconfiana e do auto-respeito.

        Quanto mais vivo conscientemente, mais confio em minha mente e respeito o meu valor. Quanto mais
confio em minha mente e respeito o meu valor, mais natural  viver conscientemente. A mesma relao existe
entre todos os comportamentos que apiam a auto-estima.



        Pense sobre as histrias citadas anteriormente. Voc poderia distinguir as reas de sua vida nas quais
voc atua com maior conscincia? E as reas em que atua com menor conscincia? Usando o material deste
captulo como orientao, prepara duas listas.  uma excelente maneira de aprofundar o que significa para voc
a questo de viver conscientemente.

       Agora, digamos que voc identifique trs reas nas quais reconhece que o seu nvel mdio de conscincia
 muito menor do que deveria ser. Reflita sobre o que parece dificultar a manuteno de um alto nvel de
conscincia nessas reas. Ento, para cada uma delas, escreva O dificil de estar plenamente consciente
disto .....  e ento, o mais rpido possvel, sem autocensura e sem "pensar", escreva de seis a dez
concluses. Faa ento o mesmo com O bom de no estar plenamente consciente disto ..... A seguir, Se
estivesse plenamente consciente disto..... Voc provavelmente far algumas descobertas esclarecedoras. S
pelo fato de fazer o exerccio, voc j estar vivendo mais conscientemente.

        Por fim, pense um pouco no amanh  e na prxima semana de sua vida. Considere a questo de como
voc poder aplicar essas idias a suas preocupaes cotidianas. Se, por exemplo, voc optar por ser mais
consciente no trabalho, o que poderia fazer de maneira diferente? Se voc optar por ser mais consciente em um,
ou mais relacionamentos, o que mudaria em seu comportamento? Se voc quiser aumentar a sua autoconfiana
e o seu auto-respeito, COMECE AGORA. Identifique trs novos comportamentos na esfera do trabalho ou dos
relacionamentos  e comprometa-se a fazer a experincia.

       Ento continue trabalhando pelos prximos sete dias e nos outros sete, e expanda mais sua conscincia,
um passo de cada vez. Na rea da evoluo da auto-estima no  sonhando com passos gigantescos que
progredimos, mas comprometendo-nos com a AO de dar pequenos passos, de um modo contnuo, rumo a
uma perspectiva cada vez mais ampla.

       No que no possam ocorrer transformaes e conquistas extraordinrias. Pode ser  mas no para
aqueles que esperam numa passividade vazia. Precisamos agir e comear de onde estamos. Uma pequena
mudana para uma conscincia mais elevada abre as portas para uma outra e mais outra ainda. No importa em
que ponto comeamos, mas o fato de que assumimos a responsabilidade de comear.




                             Captulo 4  Aprender a auto-aceitao

         Se a essncia do viver conscientemente  o respeito pelos fatos e pela realidade, a auto-aceitao  o
teste final. Quando os fatos com os quais temos de defrontar tm algo que ver conosco, viver conscientemente
pode se tornar muito difcil.  nesse ponto que entra o desafio da auto-aceitao.

        A auto-aceitao exige que enfoquemos nossa experincia com uma atitude que torne irrelevantes os
conceitos de aprovao ou de desaprovao: a vontade de ver, de saber, de SER CONSCIENTE.

        Porm, a auto-aceitao no implica uma ausncia de vontade de mudar, melhorar ou evoluir. A verdade
 que ela  uma precondio de mudana. Se aceitamos de fato o que sentimos e o que somos, a qualquer
momento de nossa existncia, podemos nos permitir ser plenamente conscientes da natureza de nossas escolhas
e atos, e nosso desenvolvimento no ser bloqueado.


        Vamos comear com um exemplo simples. Coloque-se de corpo inteiro diante de um espelho e olhe para
seu rosto e o seu corpo. Observe suas sensaes. Provavelmente voc gostar mais de algumas partes do que de
outras. Se voc for como a maioria das pessoas, achar algumas partes embaraosas de olhar por muito tempo,
porque elas o deixam agitado ou lhe desagradam. Talvez voc veja no rosto uma dor que no quer enfrentar. Ou
haja algum aspecto do seu corpo que lhe desagrade tanto que voc mal pode suportar manter os olhos ali
focalizados. Quem sabe veja sinais da idade e no suporte os pensamentos e as emoes que esses sinais
evocam. Assim, o impulso  escapar  fugir da conscincia  rejeitar, negar, repudiar os aspectos do seu ser.

       Continue olhando para a sua imagem no espelho por mais alguns momentos e experimente dizer a si
mesmo: "Sejam quais forem os meus defeitos e as minhas imperfeies, aceito-me sem restries". Continue se
olhando, respire profundamente e repita isso por um ou dois minutos, sem apressar o processo.

       Permita-se vivenciar plenamente o significado das palavras. Voc poder ver-se protestando: "Mas eu
NO GOSTO de certas coisas em meu corpo  como posso aceit-lo sem restries?". Contudo, lembre-se:
"aceitar" no significa necessariamente "gostar"; "aceitar" no significa que no podemos imaginar ou desejar
mudanas e melhoras. Significa vivenciar, sem negao, que um fato  um fato; nesse caso, significa aceitar que
o rosto e o corpo no espelho so o SEU rosto e o SEU corpo, e que eles so aquilo que so. Caso voc persista,
caso se renda  realidade,  conscincia (e  isso, afinal, o significado de "aceitar"), poder notar que comeou a
relaxar um pouco e talvez a sentir-se mais confortvel consigo mesmo e, portanto, mais real.

        Embora voc possa no gostar de tudo o que v quando se olha no espelho, ainda ser capaz de dizer:
"Neste exato momento, este sou eu e no nego o fato. Eu o aceito". Isso  respeito pela realidade.

       Faa esse exerccio durante dois minutos todas as manhs e todas as noites e, em muito pouco tempo,
comear a vivenciar a relao que existe entre auto-aceitao e auto-estima: uma mente que honra o que v,
honra a si mesma.

        E voc far mais uma descoberta importante: no apenas estar numa relao mais harmoniosa consigo
mesmo, no apenas crescer em autoconfiana e auto-respeito como, se h ouver aspectos de sua pessoa que
voc no aprecia e cuja modificao est a seu alcance, estar mais motivado a fazer mudanas, pois agora
aceitou os fatos como eles so. NS NO SOMOS MOTIVADOS A MUDAR AS COISAS CUJA REALIDADE
NEGAMOS.

        Nossa auto-estima no  funo do nosso poder de atrao fsica, como imaginam ingenuamente
algumas pessoas. Porm, nossa boa ou m vontade para ver e aceitar a ns mesmos tem consequncias para a
auto-estima. Nossa atitude em relao  pessoa que vemos no espelho  apenas um exemplo da questo da
auto-aceitao. Vejamos outros.



        Suponha que voc est prestes a falar para um grupo de pessoas e est assustado. Ou que est prestes
a entrar numa festa em que conhece apenas poucas pessoas e sente-se inseguro ou envergonhado. Voc fica
perturbado pela sua ansiedade e tenta combat-la da maneira como o faz a maioria das pessoas: tensionando o
corpo, prendendo a respirao e dizendo a si mesmo: "No fique assustado (ou envergonhado)". Essa estratgia
no funciona. Na verdade, ela piora o seu desconforto.

        Seu corpo est agora enviando ao crebro sinais de alerta, de emergncia, sinais de perigo  aos quais
voc, de maneira tpica, reage "combatendo" ainda mais ferozmente a inquietao com tenso, privao de
oxignio e talvez com raiva e autocondenao. Voc est em guerra com voc mesmo  talvez porque no saiba
o que fazer alm disso. Ningum jamais lhe ensinou, e voc jamais aprendeu, que existe uma alternativa
estratgica muito mais til.  a estratgia da auto-aceitao.

        Nessa estratgia, voc no combate a sensao de angstia, voc a respira, a aceita. Talvez diga a si
mesmo: "Puxa, estou com medo!"; ento respire fundo. Concentre-se na respirao suave e profunda, muito
embora seja difcil de incio e possa continuar assim por algum tempo; voc persevera e observa o seu medo,
torna-se testemunha dele sem identificar-se com ele, sem permitir que ele o defina. "Se estou com medo, estou
com medo  mas no h razo para ficar inconsciente. Vou continuar usando meus olhos. Vou continuar a VER."
Voc poder at optar por "conversar" com o seu medo, convidando-o a contar qual  a pior coisa que poder
acontecer, para que tambm isso possa ser enfrentado e aceito  uma estratgia que tender a tir-lo das
fantasias que o atormentam e lev-lo a uma realidade muito mais agradvel. Voc poder se conscientizar de
quando e como esse medo comeou em voc. Poder considerar com mais profundidade que ele no tem
fundamento, que , de fato, uma reao obsoleta sem importncia para o presente. Aceitando-o completamente,
poder descobrir que foi libertado do passado RUMO AO PRESENTE. O medo poder no desaparecer sempre 
s vezes sim, s vezes apenas diminuir  mas voc estar RELATIVAMENTE mais relaxado e livre para agir.

        Somos sempre mais fortes quando no tentamos lutar contra a realidade. No podemos espantar o medo
gritando com ele, ou gritando com ns mesmos, ou cedendo  autocensura. Porm, se pudermos nos abrir para
a nossa experincia, permanecer conscientes e lembrar que somos maiores do que uma nica emoo,
poderemos, no mnimo, comear a transcender os sentimentos indesejveis e, muitas vezes, dispers-los, uma
vez que a aceitao plena e sincera tende, com o tempo, a dissolver os sentimentos negativos ou indesejveis,
tais como a dor, a raiva, a inveja ou o medo.
        Se uma pessoa est com medo, em geral  intil tentar dizer-lhe que "relaxe". A pessoa no sabe como
traduzir esse conselho em comportamento. Mas, se voc falar de respirar lentamente, ou de qual seria a
sensao de no lutar contra o medo, estar propondo algo "encenvel", isto , algo que a pessoa pode FAZER.
Ela deve pensar em expandir-se para permitir a entrada do medo ou at mesmo em dar-lhe as boas-vindas,
travando amizade com ele  ou pelo menos observ-lo sem identificar-se com ele  e, por fim, fazer uma
projeo do que de pior pode acontecer e ento encarar o fato. Podemos com certeza aprender a dizer: "Estou
sentindo medo e posso aceitar esse fato, mas eu sou MAIS do que o meu medo". Em outras palavras, no
devemos nos IDENTIFICAR com o medo. Pense: "Reconheo meu medo e o aceito... e agora deixe-me ver se
posso lembrar como me sinto quando NO estou com medo". Esse  um recurso muito poderoso para lidar com
o medo (ou com qualquer outro sentimento indesejvel). So atos que voc pode aprender, ensaiar mentalmente
e praticar quando surgirem as situaes de medo.

       A prtica que descrevo  apropriada para quase todos os tipos de medo.  til na cadeira do dentista,
quando voc se prepara para solicitar um aumento, quando tem de enfrentar uma entrevista difcil, quando tem
de dar uma notcia dolorosa a algum, ou quando est se engalfinhando com os temores da rejeio ou do
abandono.

        Quando aprende a aceitar o medo, pra de fazer dele uma catstrofe e ento ele deixa de ser o seu
senhor. Voc no  mais torturado pelas fantasias que podem ter pouca ou nenhuma relao com a realidade.
Voc  livre para ver as pessoas e as situaes como elas so. Voc se sente mais eficiente, sente que tem mais
controle sobre sua vida. A autoconfiana e o auto-respeito aumentam.

         A auto-estima aumenta no decorrer do processo, mesmo quando os temores no so produto de
fantasias irracionais, mas do fato de que a realidade particular com a qual voc tem de conviver  terrvel. Tive
uma boa amiga que, alguns anos atrs, foi vtima de um cncer devastador. Na poca, achei que sua coragem ao
lidar com a doena era extraordinria. Lembro-me do dia em que, visitando-a no hospital, ela me contou sua
histria: os mdicos disseram-lhe que a radioterapia era necessria. Ela ficou aterrorizada com a perspectiva.
Perguntou se podia ir at a sala de radioterapia, s por alguns minutos, durante trs dias, antes de comear o
tratamento. "Eu s quero dar uma olhada na mquina", explicou ela aos mdicos. "Ficar amiga dela. Ento,
estarei pronta. No terei medo." E contou-me: "S fiquei l, olhando para a mquina... aceitei-.. aceitando a
minha situao... e refletindo sobre o fato de que a mquina existia para me AJUDAR. Foi to mais fcil fazer o
tratamento...". Ela acabou morrendo, mas jamais esqueci sua serenidade e dignidade. Ela sabia como se avaliar.
Foi o exemplo mais bonito do princpio de aceitao que j vi.



        Aproveite alguns minutos para contemplar um sentimento ou uma emoo que voc no consegue
encarar com facilidade  insegurana, dor, inveja, raiva, tristeza, humilhao, medo. Depois de isolar o
sentimento veja se pode focaliz-lo melhor, talvez pensando sobre, ou imaginando, o que ele costuma evocar.
Ento, deixe-se invadir por esse sentimento como se estivesse abrindo o corpo para ele. Imagine como seria se
voc no lhe oferecesse resistncia, mas o aceitasse plenamente. Explore essa experincia. Sem pressa.

         Repita para voc mesmo: "Estou sentindo esta sensao (seja qual for) e a aceito plenamente". A
princpio, isso pode ser difcil, voc pode descobrir que est tensionando o corpo em protesto, mas insista;
concentre-se na respirao; pense em dar permisso aos msculos para aliviar a tenso; lembre-se: "Um fato 
um fato; o que , ; se o sentimento existe, ele existe". Continue a contemplar o sentimento. Pense em
PERMITIR que ele exista (em vez de desejar que desaparea). Voc poder achar til (como eu) dizer-se: "Agora
estou explorando o mundo do medo, da dor, da inveja ou da confuso (ou do que for)".

       Ao fazer isso, voc estar explorando o mundo da auto-aceitao.



        Estive, certa vez, no consultrio de um mdico, onde tive de tomar uma srie de injees dolorosas. Em
resposta ao choque e  dor da primeira picada, parei de respirar e contra o corpo inteiro, como se estivesse
tentando deter todo um exrcito. Mas,  claro, tensionar os msculos tornou a penetrao mais difcil e,
portanto, a experincias mais dolorosa. Minha esposa, Devers, que estava no consultrio tomando as mesmas
injees, observou o fato e disse-me: "Quando voc sentir a agulha tocar sua pele, respire, como se estivesse
absorvendo a agulha junto com a respirao. Imagine que voc est dando as boas-vindas  agulha". Percebi,
ento, que isso era exatamente o que eu estava ensinando s pessoas sobre o que fazer com as emoes e,
assim, fiz o que Devers me propunha. A agulha entrou quase sem incmodo. Eu ACEITARA a agulha  E AS
SENSAES RESULTANTES - em vez de trat-la como adversria.

        Essa estratgia,  claro,  muito familiar a atletas e bailarinos, cujo trabalho exige que eles "convivam
com" a dor, em vez de se revoltar contra ela. Os exerccios respiratrios que o Dr. Lamaze ensinou s mulheres
grvidas para controlar e aliviar a dor, a ansiedade e as reaes corporais incorporam precisamente o princpio
que estamos considerando aqui.

        O princpio que devemos lembrar continua sendo o mesmo, seja contra o medo, seja contra o prazer com
que decidimos lutar: NO FIQUE NUMA POSIO ANTAGNICA DIANTE DE SUA PRPRIA EXPERINCIA. Se
voc permitir que a posio antagnica se desenvolva, intensificar os pontos negativos e se privar dos
positivos.



        A seguir, apresentamos quatro exemplos de situaoes nas quais as pessoas optaram entre a auto-
aceitao e a auto-rejeio.

        PRTICA DA AUTO-ACEITAO - Luciano comeou a notar que estava atrado sexualmente pela vizinha.
Considerava-se feliz em seu casamento, e a reao inicial foi se repreender, mas logo decidiu que era melhor
entender a si mesmo do que praticar a autocensura. Permitiu-se vivenciar (interiormente) a atrao sexual.
Prestou ateno nos sentimentos que a vizinha evocava nele e soltou as rdeas da fantasia. Em pouco tempo
conscientizou-se de que no era tanto a vizinha por quem ansiava, mas sim desejava novos estmulos e tambm
no era por estar cansado da esposa, mas porque estava cansado de seu trabalho. Viu que uma nova mulher
oferecia a promessa de, por um momento, sentir-se EFICIENTE, o que no acontecia mais no trabalho. Ele no
se sentiu culpado, encarou sua reao  vizinha apenas como uma fonte de informaes valiosas sobre as
frustraes que tinha dentro de si. Sabia que no iria trair a esposa, contudo se permitiu imaginar como seriam
as relaes com a vizinha. Naquela noite, ao jantar, confessou  esposa: "Hoje  tarde, quando fiquei uma hora
sentado no ptio, tive um caso de oito meses com a vizinha". A serenidade e o humor de sua colocao
indicaram  esposa que ela no tinha nada que temer, e assim ela perguntou: "E como foi?". Luciano segurou a
mo da mulher e disse: "Frustrante. Sem sentido. No era uma soluo. Mas acho que encontrar outro tipo de
trabalho pode ser".

        PRTICA DA AUTO-REJEIO - O que Luciano no sabia era que sua vizinha, Mrcia, tinha sentimentos
erticos a respeito dele e uma vez que via tais sentimentos como pecaminosos, os reprimiu. Foi ficando cada vez
mais tensa com o marido e os filhos. Tinha crises de choro inexplicveis. Quando ocasionalmente cruzava com
Luciano, tinha atitudes alternadas de grosseria e seduo, como uma criana que flerta sem saber bem o que
est fazendo. Mrcia era infeliz no casamento h muito tempo, mas no se permitia enfrentar o assunto, pois o
divrcio significaria humilhao e fracasso. Se ela se tivesse aceitado e examinado seus sentimentos por Luciano
e se tivesse discutido esses sentimentos com o marido, poderia ter obtido uma preciosa compreenso de sua
prpria condio. Porm, quando menina, ensinaram-lhe que desejar outra pessoa mentalmente  to mau
quanto cometer adultrio, e ela no queria ser m; portanto, a nica soluo que conhecia era a inconscincia.
Afinal, depois de anos de sofrimento e incomunicabilidade, o marido divorciou-se dela. Sentindo-se trada,
abandonada e vitimada, Mrcia ponderou: "Por que as pessoas boas sempre tm de sofrer neste mundo?".

       Voc se relaciona com alguma dessas duas histrias?



         PRTICA DA AUTO-ACEITAO - Regina sentiu-se arrasada, quando, logo depois do seu divrcio, os
filhos lhe informaram que preferiam viver com o pai. Ela sabia que tinha sido uma me impaciente, pouco
emptica e descuidada, e que o ex-marido tinha sido melhor do que ela como provedor para as crianas. Isso
no era fcil de admitir, pois era muito doloroso. Depois que as crianas partiram, ela teve muitas oportunidades
de estar s e pensar sobre o passado. "A verdade ", admitiu ela para si mesma afinal, "que eu nunca quis ser
me. Fui porque achei que devia". Passou muitas horas em silncio, meditando sobre as escolhas passadas, no
por autocrtica, mas para chegar ao auto-entendimento. Conseguiu aceitar que era melhor para os filhos ficarem
com o pai. E, ento, lentamente, conseguiu encarar e aceitar algo muito mais difcil, porque violentava tudo o
que lhe tinham ensinado: ela estava FELIZ porque os filhos tinham escolhido viver com o ex-marido. Sentia-se
livre pela primeira vez na vida. Consequentemente, quando estava com os filhos  e optou por v-los com
frequncia  eles encontravam uma me mais feliz e afetiva do que jamais conheceram. Quando amigos e
parentes tentavam faz-la sentir-se culpada por ser uma "me desnaturada", olhava-os tranquila e no tentava
defender-se. Conhecia-se e aceitava quem era, e era isso o que importava. "Arrependo-me dos erros passados",
dizia para si mesma, "mas no acho que a maneira de redimi-los seja cometer outros, repudiando novamente
meus desejos e necessidades!".

       PRTICA DA AUTO-REJEIO - Um dia, quando Joo tinha 62 anos, seu filho Marcos, de 25, tentou falar
com ele sobre a experincia de ter sido seu filho. "Eu tinha tanto medo de voc quando era pequeno", disse
Marcos. "Voc era to violento, nunca sabia quando voc ia me bater". "Joo retrucou, irritado: "No quero falar
desse assunto". Marcos prosseguiu, com pacincia: "Veja bem, pai, sei que voc no gosta de falar nisso. Voc
deve achar que quero repreend-lo e faz-lo sentir-se mal. No  isso. Quero que sejamos amigos. Quero
entender de onde voc veio. Voc deve ter sido muito infeliz".

       Porm, Joo negou-se a ouvir; nunca negara nem admitira seu comportamento passado perante o filho,
como se preferisse deixar os fatos numa espcie de limbo, nem reais nem irreais, envolvidos numa bruma
impenetrvel. Marcos insistiu muito, mas no adiantou. "Por que voc no me ouve?", gritou ele ao pai. "Por que
voc no aceita as coisas como elas so?".

        Um dia o pai respondeu, gritando: "Por que VOC no aceita o fato de que jamais serei o pai que voc
quer?". Os dois olharam um para o outro num silncio estarrecedor, como se, por um momento, tivessem visto
num relance algo sobre eles mesmos, algo que tratariam imediatamente de esquecer. "No  possvel que eu
tenha sido to cruel como ele diz", pensou Joo, batendo a porta da mente contra essa possibilidade. "No 
possvel que eu queira ver sangue", pensou Marcos, batendo a porta da mente contra a possibilidade. Logo
depois, a gritaria continuou.

         Ao considerar a psicologia dessas duas pessoas, voc encontra aspectos de si mesmo? Se a resposta for
positiva, quais as consequncias para a sua auto-estima?



       Vamos agora considerar esta questo: suponha que a sua reao negativa a alguma experincia foi to
esmagadora que voc NO PODE praticar a auto-aceitao. E, no entanto, o sentimento, o pensamento ou a
lembrana  to perturbadora e alvoroante que a aceitao fica fora de questo. Sentimo-nos impotentes por
no nos bloquear e nos contrair. A soluo  no tentar resistir  nossa resistncia. Se no podemos aceitar um
sentimento (ou pensamento, ou lembrana), precisamos ACEITAR NOSSA RESISTNCIA. Em outras palavras,
comear por aceitar onde estamos. Se mantivermos a resistncia em um nvel consciente, ELA COMEAR A SE
DISSIPAR.

        Se pudermos aceitar o fato de que agora, neste momento, nos RECUSAMOS a aceitar que sentimos
inveja, raiva, dor ou ansiedade, por exemplo, ou que nos RECUSAMOS a aceitar que antes fizemos ou
acreditamos nisto ou naquilo; se reconhecermos, vivenciarmos e aceitarmos nossa resistncia, descobriremos um
paradoxo extremamente importante: a resistncia comear a desmoronar. Quando lutamos contra um bloqueio,
ele se torna mais forte; quando o reconhecemos e aceitamos, ele comea a se enfraquecer, PORQUE A
MANUTENO DE SUA EXISTNCIA REQUER OPOSIO.

       s vezes, na terapia, quando uma pessoa tem dificuldade em aceitar algum sentimento, pergunto se ela
quer aceitar o fato de RECUSAR-SE a aceit-lo. Certa vez perguntei isso a um cliente, Vitor, um pastor que tinha
grande dificuldade em assumir ou vivenciar sua raiva, mas que era um homem muito zangado. Minha pergunta o
desorientou: "Se eu aceito que no aceito minha raiva?", perguntou ele. Eu sorri e disse: "Isso mesmo". Ele
trovejou: "Me RECUSO a aceitar minha raiva e me RECUSO a aceitar minha recusa!". Dei risada e perguntei:
"Voc aceita sua recusa de aceitar sua recusa? Ora, precisamos comear de algum ponto. Vamos comear por
a".

       Pedi-lhe que encarasse o grupo e dissesse: "No estou zangado", vrias vezes seguidas. Logo ele estava
dizendo isso de um jeito realmente muito zangado.

       Ento eu o fiz dizer: "Me RECUSO a aceitar minha raiva", coisa que ele bradou com um vigor crescente.

        E ento eu o fiz dizer: "Me RECUSO a aceitar minha recusa de aceitar minha raiva", o que ele se ps a
fazer enfurecido.

        E ento eu o fiz dizer: "Mas estou pronto a aceitar minha recusa de aceitar minha recusa", e ele ficou
repetindo isso at que, afinal, sucumbiu e juntou-se s risadas do grupo.

       "Entendi"  ele deu um sorriso amarelo. "Se voc no pode aceitar a experincia, aceite a resistncia".

       "Certo. E, se voc no pode aceitar a resistncia, aceite a sua resistncia em aceitar a resistncia. O
importante  que eventualmente voc chegar a um ponto que pode aceitar. E ento poder avanar a partir
da".

        A expresso de Vitor iluminou-se. "Quando voc vivencia a resistncia ou a negao de maneira
consciente e a acolhe, por assim dizer, voc gera um tipo de curto-circuito. Uma porta se abre  e voc retoma a
ligao com a experincia".

       " isso mesmo. E ento, voc est zangado?"

       "Estou cheio de raiva".

       "Voc pode aceitar o fato?"

       "No gosto disso."

       "Disso todos ns sabemos. Mas voc pode aceit-lo?"

       "Posso."

       "Por favor, olhe para mim e diga: `Nathaniel, estou realmente zangado'."

       "Nathaniel, estou realmente zangado."

       "Outra vez, por favor."

       "NATHANIEL, ESTOU REALMENTE ZANGADO!!!"

       "Bom. Agora, vamos comear a tentar descobrir com o que voc est zangado."




       Um poderoso instrumento para cultivar a autoconscincia, a auto-aceitao e o crescimento pessoal  o
procedimento de concluso de sentenas. Bastam uma caneta e um caderno.

       No alto de uma pgina em branco, escreva uma das sentenas incompletas, ou o incio de uma sentena,
que apresento a seguir. Escreva-as na ordem em que so fornecidas. Depois de ter escrito o comeo da frase no
alto da pgina, escreva de seis a dez concluses to rpido quanto puder. No se preocupe se a concluso for
literalmente verdadeira, ou se uma concluso conflitar com outra. Nenhuma de suas concluses est gravada na
pedra.  um mero exerccio, uma experincia.

        Voc pode sentir vontade de dizer a si mesmo que no  capaz de fazer isso. Eu asseguro que . Ensinei
este procedimento a milhares de pessoas e algumas delas sempre comeam dizendo "eu no posso" e ento
passam a faz-lo.

       No alto da primeira pgina, escreva: s vezes, quando olho para trs em minha vida, mal posso
acreditar que certa vez eu.....  e agora escreva de seis a dez concluses para esta sentena. V em frente!

       Depois, na pgina seguinte, escreva: No  fcil para mim admitir que.....  e acrescente as
concluses.

       Agora em outra pgina: Para mim no  fcil praticar a auto-aceitao quando.....  e complete.

       Depois:


       Uma das minhas emoes que acho difcil de aceitar .....
       Um dos meus atos que acho difcil de aceitar .....
       Um dos pensamentos que tenho tendncia a afastar da minha mente .....
       Uma das coisas em meu corpo que tenho dificuldade de aceitar .....
       Se eu aceitasse melhor o meu corpo.....
       Se eu aceitasse melhor as coisas que fiz.....
       Se eu aceitasse melhor os meus sentimentos.....
       Se eu fosse mais honesto quanto s minhas vontades e necessidades.....
       O que me assusta na auto-aceitao .....
       Se as outras pessoas vissem que eu me aceito melhor.....
       O bom da auto-aceitao pode ser.....
       Estou me tornando consciente.....
       Estou comeando a me sentir.....
        medida que pro de negar minha experincia.....
       Se eu respirar fundo e me permitir vivenciar a auto-aceitao.....


        Devo adverti-lo de que, se voc apenas ler estas palavras e no fizer realmente os exerccios conforme
descrito, ir privar-se de descobertas que eu no posso colocar  sua disposio de outra forma.



        Acredito que agora ficou claro por que a auto-aceitao  essencial para uma mudana positiva. Se eu
me recuso a aceitar o fato de que muitas vezes vivo inconscientemente, como vou aprender a viver mais
conscientemente? Se me recuso a aceitar o fato de que muitas vezes vivo de forma irresponsvel, como vou
aprender a viver com mais responsabilidade? Se me recuso a aceitar o fato de que muitas vezes vivo de modo
passivo, como vou aprender a viver de maneira mais ativa?

        No posso superar um medo cuja realidade nego. No posso resolver um problema sexual cuja existncia
no admito. No posso curar uma dor que me recuso a reconhecer como minha. No posso modificar traos de
carter que insisto em no ter. No posso me perdoar por um ato que no reconheo ter cometido.

       Aceitar a ns mesmos  aceitar o fato de que as coisas que pensamos, sentimos e fazemos so todas
expresso de nosso ser, NO MOMENTO EM QUE OCORREM.

       Contudo, isso no significa que essas coisas so a palavra final sobre quem somos  a no ser que as
cimentemos com nossas negaes e rejeies.
        Permitam-me compartilhar mais um exemplo pessoal para ilustrar melhor o assunto.

        Alguns anos atrs minha esposa, Patrcia, que eu muito amava, faleceu. Durante muito tempo minha
mente ficou incansavelmente rememorando vrios aspectos do nosso relacionamento. Podia lembrar-me de
incidentes onde fora ou desatencioso ou grosseiro e, s vezes, tentava afastar essas lembranas porque eram
dolorosas demais. No as neguei por completo, nem as aceitei de todo, permitindo que elas e suas implicaes
fossem assimiladas e integradas. Uma parte de mim ficou fragmentada, alienada do resto do meu ser.

         Depois casei-me outra vez e, ao mesmo tempo que me sentia feliz e profundamente enamorado de
minha atual esposa, Devers, notei certos padres de irreflexo e falta de considerao que se repetiam. Comecei
a refletir sobre um fato que ensinava aos outros: se eu no podia aceitar plenamente a realidade de uma parte
de meu comportamento passado era quase inevitvel que, de uma maneira ou de outra, iria repeti-lo. assim,
comecei a despender mais tempo tornando reais para mim mesmo certos atos que cometera no meu casamento
anterior, tais como, deixar de estar presente quando Patrcia precisou de minha compreenso ou ajuda, ou ser
demasiado impaciente, ou ficar excessivamente absorvido no trabalho  a desateno perfeitamente comum que
o amor no nos impede automaticamente de perpetrar. Reviver instncias especficas, rememorar detalhe por
detalhe foi doloroso. Olhar para os meus atos com clareza foi s vezes mais perturbador do que as palavras
podem descrever, pois Patrcia se fora e no havia jeito de fazer as pazes. Todavia, eu sabia que se persistisse 
e,  claro, se conseguisse a mesma nitidez com relao ao meu comportamento no atual casamento com Devers
 duas coisas aconteceriam: eu me sentiria mais integrado e teria menos probabilidade de repetir atos dos quais
poderia me arrepender.

        Convido voc a pensar sobre algum ato do qual se arrependa. Verifique se pode descartar a culpa e ao
mesmo tempo reter a experincia de voc mesmo como autor desse ato. Descubra como  aceitar que, a uma
certa altura de sua vida, voc optou por comet-lo. Como se sente com esse tipo de honestidade? O que est
aprendendo sobre a auto-estima?

      Depois que aceitamos o fato de que os nossos atos so os NOSSOS atos, ainda resta a questo da
AVALIAO - e teremos mais a dizer no prximo captulo sobre o processo de avaliar um comportamento do
qual voc se arrepende (pensar sobre ele e interpretar seu significado) de uma maneira que aumente, em vez de
destruir a auto-estima. Contudo, h algo que preciso dizer agora: os erros que desejamos encarar so os degraus
de uma escada que leva a uma maior auto-estima.



       Tudo o que temos possibilidade de vivenciar, podemos tambm rejeitar na memria, seja imediatamente
ou mais tarde. Tudo o que no se adapta ao nosso autoconceito oficial, ou ao nosso sistema de crenas oficiais,
ou que evoca ansiedade, seja qual for a razo, podemos rejeitar.

        Posso me recusar a aceitar a minha sensualidade; posso me recusar a aceitar a minha espiritualidade.
Posso rejeitar o meu sofrimento; posso rejeitar a minha alegria. Posso reprimir a lembrana dos atos dos quais
me envergonho; posso reprimir a lembrana dos atos dos quais me orgulho. Posso negar minha ignorncia;
posso negar minha inteligncia. Posso recusar-me a aceitar minhas limitaes; posso recusar-me a aceitar
minhas potencialidades. Posso esconder minha fraqueza; posso esconder minha fora. Posso negar o dio que
sinto por mim; posso negar o amor que sinto por mim. Posso fingir que sou mais do que sou; posso fingir que
sou menos do que sou. Posso rejeitar meu corpo; posso rejeitar minha mente.

        O problema da falta de auto-aceitao no est de maneira alguma restrita a "negativas". Podemos ter
medo de nossos pontos positivos tanto quanto de nossas fraquezas. Como, por exemplo, ter medo de nossa
genialidade, de nossa ambio, de nosso arrebatamento, de nossa beleza, assim como de nosso vazio, de nossa
passividade, de nossa depresso ou de nossa feira. Nossos pontos negativos colocam o problema da
inadequao; nossos pontos positivos, o desafio da responsabilidade.

       Nossas foras ou virtudes podem fazer com que nos sintamos solitrios, alienados, desligados do
rebanho, alvo de inveja e hostilidade, e nossa vontade de PERTENCER pode superar todo o desejo de realizar as
nossas mais altas potencialidades.  sabido, por exemplo, que muitas mulheres associam a inteligncia ou a
capacidade de realizao com a perda do amor ou da feminilidade. Pode ser preciso muita coragem para admitir,
mesmo na privacidade de nossas mentes, que "posso fazer coisas que os outros parecem no ser capazes de
fazer". Ou "sou o mais inteligente em minha famlia". Ou "sou especialmente bonito". Ou "exijo mais da vida do
que as pessoas que me cercam". Ou "vejo mais longe e com mais clareza".

        Lembro-me de uma jovem que veio a mim para tratar-se, muitos anos atrs. Lorena tinha 24 anos, o
rosto de um anjo, e xingava como um caminhoneiro. Tinha experimentado todas as drogas de que j ouvi falar e
mais algumas que eu no conhecia. Quando tinha dezoito, dormia no poro da casa de uma fraternidade da
faculdade, onde conseguia casa e comida em troca de servios sexuais. No momento, sustentava-se como
garonete. Ela viu meu livro na casa de algum amigo, e o livro lhe falou de perto; telefonou para o meu
consultrio e marcou uma hora.

        Ela fez tudo o que pde para que eu no gostasse dela, mas eu gostei. Estava convencido de que ela
ocultava uma pessoa extraordinria atrs de um manto de degradao. Lembro-me de uma vez em que, atravs
da hipnose, fiz com que regredisse a um determinado dia no ginsio. Ela comeou a chorar. A professora fazia
perguntas aleatrias a vrios alunos. Ouvi-a sussurrar: "Deus, por favor, se ela me questionar, faa com que eu
no saiba a resposta".

        "Por qu?", perguntei. E ela respondeu: "Porque eles te odeiam. Eles odeiam quando voc sabe demais.
Eles odeiam se voc  esperta demais".

         Porm, ela no era s uma pessoa com uma inteligncia fora do comum. Quando menina, era muito alta
para a idade, fisicamente forte e possua uma coordenao motora excepcional. Podia praticar quase todos os
esportes melhor do que a maioria dos meninos, para raiva e humilhao dos irmos mais velhos, que batiam
nela, a atormentavam e ridicularizavam. Sem melhor olhar para um livro, era uma aluna exemplar. Na
cidadezinha onde vivia no havia ningum como ela, ningum com quem conversar. Sentia-se odiada pela
famlia, ODIADA POR SUAS VIRTUDES, no por suas fraquezas.

         Quando adolescente, partiu para um processo sistemtico de autodestruio  como vingana contra a
famlia e, ao mesmo tempo, como um grito de socorro.

       Um dia, na terapia, depois de termos trabalhado juntos por cerca de seis meses, ela ficou muito zangada
comigo. Quando chegou ao ponto de no poder mais articular suas razes, convidei-a a concluir sentenas.


       O que me incomoda em voc, Nathaniel, .....
       ... que voc acredita em mim!
       ... que voc se recusa a me ver como depravada!
       ... que voc me faz sentir minha dor!
       ... que voc me faz sentir que h esperana!

       Agora, ela j estava meio chorando, meio fungando. Continuou:

       ... que voc me faz acreditar em mim mesma!
       ... que voc me trouxe de volta  vida!
       ... que voc no me v como os outros!
       ... que eu odeio voc!



       Agora, ela j soluava descontroladamente. " to difcil", gritou vrias vezes.

       "O qu?"

       Ela olhou para mim com os olhos assustados / esperanosos de um animal: "Admitir que as coisas que
voc v esto a. Que voc est certo. Que eu sou inteligente. Que eu sou especial. Que EU SOU BOA."

        Mesmo agora, duas dcadas depois, aquele momento permanece comigo como uma das grandes
recompensar por ser um psicoterapeuta: o momento em que se v um ser humano reunir coragem para admitir
e aceitar a sua prpria glria.

         Um ano e meio depois de iniciar a terapia, ela j estava estudando redao criativa na Universidade da
Califrnia. Poucos anos depois, estava ganhando a sua prpria vida como jornalista e estava casada.

         Quando certa vez me encontrei com ela por acaso na rua, um ano depois dela ter deixado a terapia, no
a teria reconhecido se no tivesse se aproximado de mim e me cumprimentado com um "ol" risonho. Estava
bem vestida, segura de si, irresistivelmente alegre, aparentemente intocada pela tragdia. "No sei se voc se
lembra de mim, mas eu me lembro de voc".

       Hesitei um momento: "voc .... Lorena???"

       "Eu mesma".

       "Como  bom ver voc!"

       "Voc sabe quem  voc, Nathaniel?"

       "Quem sou eu??"

        "Voc  o homem que se recusou a me atender como uma vadia e prostituta. Voc me viu como algum
especial, e me fez ver isso. Puxa, houve momentos em que odiei tanto voc! Aceitar quem eu era  quem eu
REALMENTE ERA - foi a coisa mais difcil que tive de fazer em toda a minha vida. As pessoas sempre falam
sobre como  difcil aceitar os prprios defeitos. Algum deveria falar sobre como  difcil aceitar as prprias
virtudes!"

        s vezes o caminho para a auto-estima  solitrio e assustador. No podemos saber antecipadamente o
quanto nossas vidas seriam mais satisfatrias. Porm, quanto mais estamos prontos a vivenciar e aceitar os
diferentes aspectos de quem somos, mais rico se torna o nosso mundo interior, maiores se tornam os nossos
recursos, mais adequados nos sentimos perante os desafios e as oportunidades da vida. E  tambm mais
provvel que encontremos  ou criemos  um estilo de vida que se adapte s nossas necessidades individuais.



        At agora, lidamos com a auto-aceitao como uma aplicao da racionalidade e do realismo, como
respeito por nossa prpria experincia e como recusa de estar em guerra com ns mesmos. Contudo, existe um
outro significado, mais profundo, da auto-aceitao, que precisamos considerar.

       Refiro-me  coragem para admitir que existe um lugar dentro de ns onde  com defeitos ou no 
GOSTAMOS DE NS MESMOS. Muitas pessoas acham que  uma idia difcil de entender.

        A auto-aceitao, em ltima anlise, refere-se a uma atitude de autovalorizao e de compromisso que
deriva fundamentalmente do fato de que estou vivo e consciente, de que EXISTO.  uma experincia mais
profunda do que a auto-estima.  um ato de afirmao pr-moral, pr-racional, uma espcie de egosmo
primitivo que  direito de nascena de qualquer organismo consciente e que, no entanto, qualquer ser humano
tem o poder de combater ou anular.

       Talvez o que se segue ajude a esclarecer a questo.

       s vezes, depois que um cliente da terapia exps at a exausto sua falta de auto-estima e eu quero
lembrar uma outra perspectiva da qual ele parece esquecer-se, mudo para a atividade de completar sentenas e
peo ao cliente que trabalhe com este incio: Se eu quisesse admitir o quanto secretamente gosto de
mim.....

       E ento, depois de alguns protestos do cliente, ouo em geral concluses como as que se seguem:


       ... suponha que os outros no concordem?
       ... eu me sentiria envergonhado.
       ... teria de sentir muitas dores que foram rejeitadas.
       ... voc ficaria surpreso.
       ... muitas pessoas ficariam chocadas.
       ... eu ficaria apavorado.
       ... minha famlia no iria gostar.
       ... eu no teria desculpas para a minha passividade.
       ... eu oderia continuar minha vida.



       E depois, eu poderia sugerir este: O bom de fingir que no gosto de mim  que.....

       ... derroto os outros primeiro.
       ... eu tenho uma desculpa.
       ...ningum espera nada de mim.
       ...as pessoas sentem pena de mim.
       ... eu no tenho de fazer nada.
       ... mais fcil.
       ...  isso que os meus pais esperam de mim.



       Se eu tivesse tido a coragem de admitir que, seja como for, eu gosto de mim.....

       ... eu seria livre.
       ... estaria dizendo a verdade.
       ...teria de me separar da famlia.
       ...respeitaria a mim mesmo.
       ... seria como entrar num outro mundo.
       ... tudo mudaria.
       ... o mundo se abriria para mim.



        Sugiro que voc releia com calma essas concluses. No se apresse. Elas revelam muitas vises
preciosas que podem ter relevncia para voc.

         Uma atitude de auto-aceitao  precisamente o que um psicoterapeuta eficiente tenta despertar na
pessoa, mesmo que ela tenha a mais baixa das auto-estimas. Essa atitude pode inspir-la a enfrentar at o que
mais teme encontrar em seu ntimo, sem cair na auto-averso, repudiando seu valor como pessoa, ou desistindo
de viver. Assim, ela pode estar insatisfeita com a experincia de uma auto-estima inadequada e mesmo assim
aceit-la junto com as dvidas e os sentimentos de culpa: "eu as aceito como parte do modo como vivencio a
mim mesmo neste momento".

        s vezes as pessoas no compreendem o significado da auto-estima, declarando que todos deveriam ter
uma boa auto-estima, no importa o que faam ou deixem de fazer. Isso  totalmente impossvel. Esto
confundindo auto-estima, que necessariamente depende de certas condies, com auto-aceitao, que pode ser
incondicional.
       Eis aqui um exerccio simples de concluso de sentenas que permitir que voc comece a explorar a
questo da auto-aceitao em sua prpria vida.

        Pegue um caderno e, no alto da pgina, escreva: s vezes no gosto de mim quando.....  e ento
escreva de seis a dez concluses, o mais depressa possvel. Mais uma vez, no se preocupe se elas so ou no
literalmente verdadeiras. No se censure, ou voc no aprender nada.

            E ento:



            Uma das coisas de que no gosto em mim .....
            Uma das coisas de que gosto em mim .....
            A coisa de que menos gosto em mim  quando.....
            A coisa de que mais gosto em mim  quando.....
            Minha me me deu uma viso de mim mesmo como.....
            Meu pai me deu uma viso de mim mesmo como.....
            Quando no me sinto amado.....
            Quando me sinto orgulhosos de alguma coisa que ningum entende ou para a qual ningum
liga.....
            Se eu tivesse de admitir o quanto secretamente gosto de mim.....
            O bom quando finjo no gostar de mim mesmo .....
            O que assusta quando admito que, apesar dos defeitos, gosto de mim .....
            Estou comeando a ficar consciente.....
            Se o que eu estou escrevendo for verdade.....
            Se eu quisesse respirar fundo e me permitir vivenciar a alegria de ser.....



        Existe uma boa possibilidade de que, participando plena e conscientemente desse exerccio, voc entre
em contato com aquela parte de voc mesmo que  mais profunda que as dvidas, os medos e as culpas. Assim
espero.

        Entretanto, a descoberta no  sempre recompensada com o prazer. s vezes ela  assustadora. s
vezes voc quer fugir dela, recusar-se a aceit-la, por causa de algum conhecimento intuitivo que diz que aceit-
la por completo , quase irresistivelmente, enfrentar a responsabilidade de viver de forma consciente.

        Mais de um cliente em terapia protestou: "Se eu aceitar o fato de que gosto de mim, terei de me
comportar de forma diferente!". Ou: "Se eu aceitar o fato de que gosto de mim, terei de permanecer demasiado
consciente!".

        Porm, quando voc  incapaz de viver conscientemente (e esse  um dos fatos mais importantes da
psicologia humana), o nvel mais profundo e mais primitivo de seu ser tende, com efeito, a voltar-se contra voc,
gerando dor no nvel da auto-estima.  esse "eu" mais profundo que ofendemos quando negligenciamos a
integridade que uma auto-estima positiva requer. Se no tenho a lealdade de dar apoio a um amigo, esse amigo
sente-se trado por mim. Da mesma forma, se no tenho a lealdade de dar apoio a mim mesmo (o que significa
ter a coragem de saber que gosto de mim e que assumo essa responsabilidade), eu tambm me sentirei trado,
mesmo que no seja capaz de explicar meu sentimento ou de falar de minha experincia.




        Se voc recapitular o material contido neste captulo e os exerccios que fez, ficar certamente
impressionado com o fato de sua auto-aceitao ser melhor em certas reas que em outras. Voc pode aceitar
alguns dos seus atributos fsicos, pensamentos, sentimentos ou atos, enquanto nega ou rejeita outros. Faa uma
lista de seis fatos sobre voc mesmo que tenha dificuldade em aceitar plenamente. Isso pode exigir-lhe um
desafiador nvel de honestidade. Lembre-se de que "aceitar" no significa "gostar". Depois escreva em seu
caderno: O difcil quanto  aceitao de (complete) ..... e escreva de seis a dez concluses. Faa ento o
mesmo com: Se eu tivesse de aceitar (complete) completamente..... E depois: Se os fatos
demonstrassem que a verdade  a verdade, aceitando-a ou no.... E depois: Estou ficando
consciente.....

       Talvez agora esteja mais claro para voc que a auto-aceitao  verdadeiramente um ato herico.

        O que significaria, na prtica, se nos prximos sete dias voc se comprometesse a fazer uma experincia
por dia com novos exemplos de auto-aceitao?




                                 Captulo 5  Libertar-se da culpa

        Nossa meta  possuir um autoconceito forte, positivo em qualquer rea, e conseguir mant-lo,
independentemente da nossa competncia, ou da falta dela, e da aprovao ou desaprovao de qualquer outra
pessoa.

       Ao seguir em direo a essa meta, a maneira como voc pensa a respeito de seu comportamento (os
padres pelos quais voc o julga e o contexto no qual o v)  de vital importncia, em especial nos momentos
em que voc sente uma tendncia  autocondenao. A culpa, obviamente, subverte a auto-estima positiva.

       Avaliar o seu comportamento implica certas perguntas, como: segundo que padres voc julga o
comportamento  os seus ou os de outrem?

         Voc procura entender POR QUE agiu como agiu? Voc considera as circunstncias, o contexto, as
alternativas que percebeu no momento?

       Voc avalia o seu comportamento da mesma forma que avaliaria o de outra pessoa?

        Quando pensa em seu comportamento, voc identifica as reas ou circunstncias especficas em que ele
ocorre, ou generaliza sempre e diz "sou ignorante" quando, de fato, pode ser ignorante a respeito de um
determinado assunto e bastante informado sobre muitos outros, ou diz "sou fraco" quando, de fato, pode faltar-
lhe coragem ou fora numa rea em particular e no em outras?

       Se voc se arrepende dos seus atos, tenta aprender com eles para que, no futuro, no repita os mesmos
erros? Ou apenas sofre com o passado e continua passivamente preso a padres de comportamento que
reconhece como inadequados?

       A resposta a todas essas perguntas ter implicaes profundas para a sua auto-estima.



       Sentimo-nos culpados quando:
        Ao contemplar algo que fizemos ou deixamos de fazer, vivenciamos uma diminuio do nosso senso
          de valor pessoal.
        Sentimo-nos impelidos a racionalizar ou a justificar o nosso comportamento.
        Sentimo-nos defensivos ou combativos quando algum menciona o comportamento.
        Achamos dolorosamente difcil lembrar ou examinar o comportamento.



        Pense em algo que voc fez, ou que deixou de fazer, pelo qual se censura  algo bastante significativo
para ter atingido sua auto-estima. E ento pergunte-se: segundo QUE padres estou julgando? Os meus ou os
de outra pessoa? Se os padres no forem realmente seus, indague-se: em que DE FATO acredito quanto a este
assunto? Se voc  um ser humano pensante e, honesta e conscientemente, no pode ver nada de errado no seu
comportamento, poder encontrar coragem para parar de se condenar exatamente nesse ponto. Ou, no mnimo,
poder comear a ganhar uma nova perspectiva na avaliao do seu comportamento.

         "Eu costumava me censurar", disse Lcia em uma das nossas ltimas sesses de terapia, "porque
nunca quis que minha me morasse comigo, quero dizer, comigo, meu marido e nossos filhos. Ensinaram-me
que o dever para com os pais vem antes de tudo e que o egosmo  um pecado, mas uma das coisas que ganhei
com a terapia foi aprender a prestar ateno no que REALMENTE penso, no no que s vezes digo a mim
mesma que penso. E a verdade  que aquilo que me ensinaram no tem sentido para mim, particularmente
perante o fato de que minha me sempre deixou claro que no gostava de mim de forma especial. E eu tambm
no gostava dela de forma especial; nunca nos demos bem. O tema de toda a sua vida era `sina e runa'. Quando
eu me sentia muito contente, ela dizia que havia algo de errado comigo. Eu via que, se eu deixasse minha me
morar conosco, seria o inferno para mim e minha famlia. E ento eu disse no. Agora, minhas irms e irmos
no falam mais comigo. Vejo a vida de forma diferente do resto da famlia. E  a minha vida, no a deles. Fao o
que me parece racional e aceito as consequncias".

          No estou sugerindo que todos os valores sejam subjetivos e que a moral se reflita apenas no que um
indivduo pensa ou sente como sendo "moral". Desenvolvi o meu prprio conceito de tica racional e objetiva 
uma tica de auto-interesse racional e esclarecido. Mas as pessoas ficam muitas vezes intimidadas com os
valores e as preferncias dos outros,  custa de suas prprias necessidades, percepes e auto-estima.

          Mais ainda, no estou falando de problemas de psicopatas ou de pessoas s quais parecem faltar
reaes normais de culpa; se estivesse falando disso, teria de abordar muitos assuntos que no tenho a inteno
de tratar neste livro.

           Na prtica da terapia, grande parte da assim chamada culpa que encontramos est relacionada com a
desaprovao ou a condenao de pessoas importantes, tais como pais e companheiros; nem sempre 
aconselhvel aceitar declaraes de culpa (nossas ou de outros) pelas aparncias. Muitas vezes, quando algum
declara: "Sinto-me culpado a respeito disso ou daquilo", o que ele ou ela de fato quer dizer, mas raramente
reconhece, : "Tenho medo de que mame ou papai (ou qualquer outra pessoa importante) saibam o que fiz. Eu
seria criticado, repudiado, condenado". Muitas vezes a pessoa de fato no v seu ato como algo de errado e, no
caso, o que sente no  literalmente culpa. Portanto, a soluo para essa categoria de "culpa"  OUVIR A
AUTNTICA VOZ DO SER, respeitar o seu prprio julgamento acima das crenas dos outros, com as quais voc
no compartilha de verdade (embora possa fingir faz-lo).

        Lembro-me de clientes em terapia que afirmavam sentir-se culpados com a masturbao porque, quando
jovens, seus pais lhes ensinaram que isso era pecado. s vezes um terapeuta "resolve" esse problema
substituindo a autoridade dos pais do cliente pela sua prpria e assegurando que a masturbao  uma atividade
perfeitamente aceitvel. Contudo, isso  assumir que a "culpa"  causada por uma concepo errnea da
moralidade da masturbao. Minha tendncia  ver esse fato como o "problema da cortina de fumaa". O
problema mais profundo  a dependncia e o medo da auto-afirmao; mais especificamente, o medo de
desafiar os valores de outras pessoas importantes. Portanto, trabalho primeiro para modificar a definio do
problema, assim: "EU no acho que a masturbao seja pecado, mas tenho medo da desaprovao dos meus
pais". Reformulando o problema dessa maneira, nos afastamos da culpa e da auto-condenao; damos ao
problema uma definio mais til e acurada. E o desafio passou a ser: "ESTOU PRONTO A ASSUMIR E A AGIR DE
ACORDO COM MINHAS PRPRIAS PERCEPES E CONVICES?". Essa disposio  um dos significados de
"honrar o prprio ser". Quando a pessoa aceita esse desafio, a auto-estima aumenta.

        Algumas declaraes de culpa so uma cortina de fumaa contra ressentimentos negados ou rejeitados.
Assim: "No consegui fazer jus s expectativas de uma outra pessoa ou aos seus padres. Tenho medo de
admitir que estou intimidado com essas expectativas e padres. Estou com medo de reconhecer como estou
zangado com o que esperam de mim. Ento, em vez disso, digo a mim mesmo e aos outros que me sinto
culpado por no ter conseguido fazer o que  certo e no preciso ter medo de transmitir meu ressentimento e
colocar em perigo minha relao com os outros".
        Se voc se reconheceu nessa descrio, a soluo para a sua "culpa"  ser honesto com voc mesmo e
com os outros a respeito do seu ressentimento. PRIMEIRO,  claro, voc precisa ser honesto com voc mesmo.
Assuma a sua raiva. Admita o seu ressentimento contra os padres e as expectativas que no so realmente
seus. E observe a "culpa" comear a desaparecer, embora voc possa ainda precisar lutar por maior autonomia.

        "Se eu no estivesse me sentindo culpado...", disse Edivaldo num exerccio de concluso de sentenas
que visava explorar exatamente esse assunto, "eu me sentiria... agitado". "Se eu no estivesse me sentindo
culpado... exigiria saber com que direito minha famlia espera que eu sustente o vagabundo do meu irmo." "Se
eu no estivesse me sentindo culpado... exigiria saber por que esperam que eu resolva os problemas dos outros."
"Se eu no estivesse me sentindo culpado... diria a eles que estou cheio de ser responsvel por um comilo que
no quer ser responsvel por si mesmo." "Se eu no estivesse me sentindo culpado... Eu NO estou me
sentindo culpado, ESTOU SENTINDO RAIVA." E depois, "Se eu quisesse ser honesto com a minha raiva...
admitiria como sou diferente do resto da famlia." "Se eu quisesse ser honesto com a minha raiva... me sentiria
mais limpo e mais livre."

         "Se o que estou sentindo no  realmente culpa...", disse Eunice, uma mulher infeliz no casamento e que
estava fazendo terapia, "teria de lidar com o meu RESSENTIMENTO em relao s exigncias do meu marido de
que eu viva s para ele; teria de ENCARAR esse ressentimento". "Se o que estou sentindo no  realmente
culpa... admitiria que ADORO ter voltado a trabalhar." "Se o que estou sentindo no  realmente culpa... eu
gritaria como estou cansada de ficar contendo minha energia s para que o meu marido no se sinta ameaado."

        Mais uma vez, a necessidade de mudana  vista na definio do problema. Ressentimentos, medo e
auto-assero no-resolvidos so os problemas que temos de solucionar, no a culpa. A suposta culpa 
meramente um meio de se proteger contra esse desafio mais profundo.

        Na medida em que voc comea a se tornar mais honesto quanto aos seus sentimentos, desiste da
necessidade de sentir esse tipo de pseudoculpa. E ento est mais livre para pensar com clareza sobre os valores
e as expectativas que talvez precise questionar ou repudiar.

       Essa no  uma tarefa fcil, de maneira alguma. Se fosse, as pessoas no se esconderiam atrs da
pseudoculpa. Mas, se voc quiser fazer o esforo, se voc conseguir a coraem para sustentar a batalha pela
independncia (e voc pode), o benefcio para a sua autoconfiana e o seu auto-respeito ser quase imediato.




        Suponhamos, porm, que os padres SEJAM realmente seus e que, num determinado assunto, voc os
traiu ou deixou de cumpri-los. Voc solapou o seu senso de integridade.

        Quando samos da infncia e desenvolvemos nossos prprios valores e padres, a manuteno da
integridade pessoal assume uma importncia maior para a nossa auto-avaliao. INTEGRIDADE significa
integrao de convices, padres, crenas e comportamentos. Quando nosso comportamento  coerente com
nossos valores declarados, temos integridade.

       Eis aqui um exerccio para facilitar a sua investigao do assunto. Escreva estes incios de sentena num
caderno e de seis a dez concluses para cada uma:


       Sinto-me mais ntegro quando...
       s vezes diminuo minha integridade quando...
       Gosto mais de mim quando...
       Gosto menos de mim quando...
       Quando no obedeo a meus padres, digo a mim mesmo...
       Para mim, seria mais fcil viver de acordo com meus padres se...
         Lembre-se: se voc ficar bloqueado, INVENTE. No diga a voc mesmo que no consegue. Voc pode.
O nico problema  saber se voc optou ou no. Depois de ter feito o exerccio, reflita por alguns minutos sobre
as suas concluses. Que sentimentos foram despertados? De que voc se conscientizou? O que aprendeu? A esta
altura, seria til fazer algumas anotaes a respeito do que voc descobriu sobre si mesmo.




        Quando o nosso comportamento conflita com o nosso julgamento do que  apropriado, tendemos a
perder a dignidade aos nossos prprios olhos. Tendemos a nos respeitar menos. Mas, se apenas nos punirmos e
nos difamarmos para depois no pensar mais no assunto, deterioraremos nossa auto-estima E AUMENTAREMOS
A PROBABILIDADE DE TER MENOS INTEGRIDADE NO FUTURO. Um mau autoconceito  uma profecia que se
cumpre por si: leva ao mau comportamento. No podemos melhorar dizendo a ns mesmos que somos
imprestveis. Nossos atos so um reflexo de quem e do que achamos que somos. Portanto, precisamos aprender
uma resposta alternativa para as nossas falhas, capaz de ser mais til  nossa auto-estima e ao nosso
comportamento futuro.

        Em vez de nos deixarmos cair na autodifamao, podemos aprender a perguntar: quais foram as
circunstncias? Por que minhas escolhas ou decises parecem desejveis ou necessrias no contexto? O que eu
estava tentando conseguir? De que maneira eu estava tentando cuidar de mim mesmo?

       No podemos entender os atos de um ser humano at que entendamos por que eles fazem sentido para
a pessoa envolvida. Precisamos conhecer o CONTEXTO PESSOAL no qual os atos ocorreram; precisamos
conhecer o modelo de realidade, o modelo de estar-no-mundo, que est por trs do comportamento.

        Por exemplo: suponha que sou uma mulher que escolheu ficar tempo demais com um marido alcolatra
e violento, com um homem que  perigoso tanto para mim como para meus filhos. Sei que deveria abandon-lo,
mas tenho medo. Vejo a vida como algo assustador, minha situao como precria e meus recursos e opes
como extremamente limitados. Considerando minha insegurana bsica, meu modelo pessoal de estar-no-
mundo, estou TENTANDO SOBREVIVER, o que no constitui crime. Poderia desejar ter mais coragem e confiana
e no sofrer por causa de tantas ansiedades, contudo no posso me condenar por tentar viver. S posso
aprender que existem modos melhores de viver e de modificar minha viso de mim mesma e do mundo.

        Este  o fato importante: se pudermos olhar para o nosso contexto pessoal com benevolncia e vontade
de entender (sem negar o erro do nosso comportamento); se pudermos ser para ns mesmos um bom amigo
que realmente quer saber de onde vnhamos quando nos comportamos daquela maneira  ento poderemos nos
curar; poderemos sentir remorso ou arrependimento, mas no autocondenao. E a consequncia mais provvel
ser a determinao de melhorar no futuro.

       Esse, afinal,  o padro que encorajamos na terapia. Uma mulher confessa uma infidelidade conjugal;
um homem admite ter cometido um estupro; um empregado reconhece ter cometido um desfalque na empresa;
um adolescente conta que machucou de propsito a irmzinha menor; um cientista admite ter alterado dados;
um pai, ou uma me, assume ter sido cruelmente displicente com as necessidades de um filho; um professor
reconhece ter ficado com o crdito pelo trabalho de um aluno; uma secretria admite ter alegado estar doente
para encontrar-se com o amante; um colunista confessa ter maliciosamente inventado fofocas. Alguns desses
atos podem ser menores, outros calamitosos em suas consequncias. Mas, quando nossos clientes em terapia
falam deles e transmitem um sentimento de culpa, o que fazemos para cur-los?

        Em geral dizemos algo como: "Vejo que voc se sente infeliz e se condena pelo que fez. Vamos tentar
entender por que voc fez isso. Quais so os sentimentos e as consideraes que o levaram a esse
comportamento? Podemos explorar isso?" (NO o cobrimos de censuras, e NO dizemos: "O que voc fez
estava certo. No h por que sentir-se mal com isso").

        Voc precisa lembrar que, quando age, em algum nvel est sempre lutando para satisfazer suas
necessidades (como acontece com todos os organismos vivos). Nossos atos relacionam-se sempre com os nossos
esforos para sobreviver, ou para proteger o "eu", para manter o equilbrio, para evitar o medo e a dor, para nos
nutrir ou para crescer. Mesmo que o caminho escolhido esteja errado, mesmo que OBJETIVAMENTE estejamos
engajados em autodestruio, SUBJETIVAMENTE, em algum nvel, estamos tentando cuidar de ns mesmos,
como no caso do suicida, que procura escapar de uma dor intolervel.

       Entretanto, ao procurar entender as razes do comportamento indesejvel, no existe a implicao de
que as pessoas envolvidas "no podiam evit-lo". Nem a compreenso, nem a compaixo resultam em negao
de responsabilidade.

        De fato, quando um cliente comete uma iniquidade pela qual se sente responsvel, chamo a sua ateno
para a questo dos atos que ele, ou ela, deve realizar para permitir-se a auto-absolvio. Examinemos esse
ponto, pois  importante.

        A auto-absolvio pode requerer mais do que a compreenso e a compaixo j citadas. Levando em
conta o fato de que s vezes existem circunstncias especiais que requerem consideraes especiais, existem, de
modo geral, alguns passos razoavelmente especficos que podemos dar para nos livrar da culpa.

      O primeiro  assumir (tornar real para ns, em vez de negar ou ignorar) o fato de que fomos ns que
cometemos aquele ato em particular.

       O segundo, se alguma pessoa foi prejudicada por nosso ato,  reconhecer explicitamente para aquela
pessoa (ou pessoas) o mal que fizemos e transmitir nosso conhecimento das consequncias de nosso
comportamento, assumindo que isso seja possvel.

        O terceiro  fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para corrigir ou minimizar o mal que causamos
(por exemplo, devolver o dinheiro roubado, retratar-se de uma mentira, e assim por diante).

       Por fim, precisamos assumir um compromisso firme de nos comportar de modo diferente no futuro, pois,
SEM UMA MUDANA DE COMPORTAMENTO, RECRIAREMOS CONTINUAMENTE A AUTODESCONFIANA.

         claro, h tambm o passo com o qual comecei  a disposio de analisar as razes por que cometemos
o ato, em primeiro lugar. Se nos evadirmos disso, no nos livraremos da culpa, e, muito provavelmente,
repetiremos o padro inadequado de comportamento.

       Na verdade, alguns crimes so to hediondos que a auto-absolvio do tipo que descrevo aqui , quase
certamente, irreal ou impossvel. Como exemplos, poderamos citar os atos de um torturador num campo de
concentrao e de um genocida. Mas, at onde sei, essas pessoas no procuram a psicoterapia nem lem livros
sobre auto-estima.

       Para quem essa discusso interessa, existe uma prova esmagadora de que, se pudermos aprender a nos
entender e a nos perdoar, nosso comportamento tender a melhorar. Entretanto, se continuarmos insistindo na
autocondenao, nosso comportamento (bem como nossa auto-estima) tender a piorar.




        Aqui est um exerccio que o ajudar a aplicar esse princpio. Anote, de forma clara e especfica, algum
ato pelo qual voc se censura. Explique POR QUE considera errado esse ato. Ento feche os olhos e imagine que
no foi voc, mas um amigo querido, que o cometeu. Imagine-se entrevistando esse amigo, encorajando-o a
falar, ajudando-o a falar que modelo de estar-no-mundo estava em funcionamento, orientando-o para a
perspectiva e os sentimentos que esto por trs do comportamento. E, ento, imagine-se dando-se esse mesmo
tratamento. Como isso o faz sentir-se? De que se conscientizou? Anote a experincia no caderno.

       Agora considere o seguinte: se voc acha apropriado e desejvel oferecer essa benevolente perspectiva a
algum de quem gosta, est disposto a oferec-la a si mesmo?

        claro, se voc no est disposto a oferec-la a si mesmo,  provvel que tambm no a oferea a mais
ningum. Quando somos irracionalmente rgidos ao julgar nosso prprio comportamento, em geral, nno somos
menos rgidos ao julgar o dos outros. Reciprocamente, a autocomplacncia, desde que seja responsvel e no
apenas auto-indulgente, em geral resulta em benevolncia para com os outros. A benevolncia, dirigida a si
mesmo e aos outros,  tanto uma expresso como um fator alimentador da auto-estima.




        Jairo consultou-me sobre uma srie de problemas pessoais, inclusive um profundo sentimento de culpa
por ter abandonado a esposa e o filho depois de poucos anos de casamento, quando o filho tinha menos de dois
anos. Isso fora h quinze anos, e, mesmo tendo se divorciado e casado outra vez, sentia-se profundamento
perturbado com o mal que causara, particularmente ao filho. "Como vou me perdoar?", perguntou-me. "Como
vou me redimir?"

        Fiz com que ele passasse pelo processo que acabei de descrever, durante o qual se imaginou
aconselhando um amigo que cometera a mesma falta que ele. Comeou a se ligar com o terror que sentira anos
atrs, com o sentimento que experimentara, vendo-se esmagado por responsabilidades que estavam alm de
suas foras, pela conscincia de que no amava a esposa e de que simplesmente sucumbira  sua presso para
casar-se, por causa de uma necessidade exagerada de ser visto como "um bom rapaz", e assim por diante. Ele
no abriu mo da convico de que poderia ter se comportado de modo mais honrado e responsvel na poca,
mas comeou a conscientizar-se de seu "eu" mais jovem e, pelo menos, a perceber que no tinha sido motivado
pela crueldade ou pelo capricho e, no universo tal como o percebia, no notara as alternativas que agora
apareciam diante dele. Decidiu ver o filho e a ex-mulher, reconhecer seu erro e o conhecimento da dor que
causara, aceitar o direito que eles tinham de jogar sobre ele todo o tipo de raiva que quisessem e descobrir se
havia algo que pudesse fazer para ajud-los agora. Perdoou-se e reconheceu o direito deles de no perdo-lo, se
assim preferissem. Estava livre para ver a dor da ex-mulher e do filho com uma clareza e uma compaixo que
no lhe foram possveis enquanto se preocupara com a autocensura; ao perceber isso, foi capaz de partir para a
atitude adequada. A esposa nunca se casara novamente, e ele era incapaz de penetrar sua muralha de
amargura, porm, com o filho conseguiu estabelecer um relacionamento profundamente satisfatrio para ambos,
depois de um longo e difcil perodo de suspeitas, lgrimas e raiva por parte do filho.

         "A culpa e a compaixo no se misturam muito bem", disse Jairo. "Enquanto pensava sobre como eu era
imprestvel, uma outra parte de mim mesmo estava sempre na defensiva, se autoprotegendo. Quando parei de
fazer isso, pude, pela primeira vez, ver o lado deles em termos reais. Agora, seja o que for que eu puder fazer
por eles, estou disposto e feliz em faz-lo. e o que no posso, aceito e fico em paz com o assunto."

        Um dos piores erros queu podemos cometer  dizer a ns mesmos que o sentimento de culpa representa
necessariamente algum tipo de virtude. A rigidez intransigente com ns mesmos no  motivo de orgulho. Ela
nos deixa passivos e impotentes. No inspira mudanas, paralisa. SOFRER  talvez a mais simples das atividades
humanas; SER FELIZ  talvez a mais difcil. E a felicidade requer no a rendio  culpa, mas a emancipao da
culpa.




       Consideremos agora uma outra maneira de ferir a nossa auto-estima, avaliando inadequadamente o
nosso comportamento.

       s vezes prejudicamos nossa auto-estima, generalizando a respeito de nossa "natureza essencial", com
base nos atos que praticamos em situaes especficas.

        Por exemplo, Martins contou-me: "Sou um desajustado social. No sei conversar com as pessoas. No sei
o que dizer". Quando lhe perguntei: "Voc NUNCA sabe o que dizer?", ele respondeu: "Bem... no; quando
estou com pessoas que se interessam por arte ou literatura tenho muito o que dizer". Parece que ele no tinha
nenhum interesse particular em esportes e sentia-se inadequado quando homens e mulheres no escritrio
discutiam o ltimo jogo de futebol ou de vlei. "Voc SE IMPORTA com futebol ou vlei?", perguntei. E ele
respondeu: "Nem um puco". Continuei: "Voc acha que DEVERIA se preocupar com isso?". Ele pensou um
instante, depois riu e disse: "No, claro que no!". Observei: "Quando voc se intitula `desajustado social', parece
que quer dizer que no consegue conversar sobre um assunto que no lhe interessa e que voc no tem vontade
de conhecer melhor. Para mim, isso no sugere uma deficincia inata. Sugere que voc poderia ser mais feliz se
encontrasse alguns amigos que compartilhassem do seu interesse por arte e literatura. Quanto aos seus
companheiros de escritrio, se voc se permitisse ter interesses diferentes dos deles e permitisse que eles
tivessem interesses diferentes dos seus, imagino que poderia sentir-se mais relaxado na companhia deles e
poderia at mesmo descobrir que vocs so membros da mesma espcie". Como um aparte a essa histria, o
trabalho posterior com Martins revelou que TANTO ELE COMO seus companheiros de trabalho tinham uma
tendncia a movimentar-se em universos desnecessariamente restritos, do ponto de vista da conversa, e que
existiam entre eles muitos rumos potenciais de conversao, apesar dos interesses diferentes.

        "Sou um covarde", desabafou Clber. Parecia que tinha medo de falar em pblico. "Qual  a diferena",
perguntei eu, "entre dizer `sou um covarde' e dizer `sinto ansiedade ante a perspectiva de falar em pblico?'".
Clber respondeu: "Sua colocao, de uma certa forma, reduz o tamanho do problema". Observei que conhecia
muitas pessoas autoconfiantes em certas situaes e muito menos em outras, e que se ele quisesse aprender a
ter confiana para falar em pblico, acreditava que ele poderia faz-lo facilmente, mas que universalizar o
problema chamando-o de "covardia" s poderia levar ao prejuzo de sua auto-estima.

         "Sou terrivelmente preguioso", disse Eduardo, que trabalhava como mecnico de manuteno numa
empresa fabricante de aparelhos de ar-condicionado, e que era muitas vezes repreendido pelo chefe por sonhar
acordado nas horas de servio. Contudo, soube que ele, depois do trabalho, durante o dia, dedicava-se a um
romance de suspense, que ficava escrevendo at altas horas da madrugada, e que era a maior paixo de sua
vida. Sempre fizera tudo, menos o que mais queria fazer e, consequentemente, vivia em constante frustrao e
insatisfao, mas no era "preguioso". Xingar-se no o levou mais perto de uma soluo, apenas deteriorou seu
auto-respeito. "Suponhamos que eu diga", sugeri, "que voc ache muito difcil manter-se conscienciosamente
disciplinado num trabalho que o aborrece, em vez de achar que  preguioso. Isso, agora,  de fato um
problema, se voc no consegue ganhar a vida como escritor. Mas no  esse o problema que voc vem
atribuindo a si mesmo; voc no  preguioso quando fica escrevendo at s 3h da manh e depois comparece
meio tonto ao trabalho. A dificuldade real j  bastante dura. Por que torn-la pior com a autocondenao?".




        Reflitamos agora sobre como voc pode aplicar esse princpio a si mesmo. Pense em alguma
caracterstica negativa que voc se atribui. Imagine ento trs situaes na vida nas quais voc NO a
demonstra. Veja depois se pode pensar em quaisquer situaes nas quais voc manifestou o comportamento
OPOSTO (como no caso de Eduardo, que passava a maior parte do tempo escrevendo). Realize esse exerccio 
de preferncia fazendo anotaes  com todos os traos negativos de carter que voc tende a se atribuir.

        Isso lhe dar oportunidade de abrir mo das ofensas e agresses  sua auto-estima e, mais ainda, de
acertar nas CIRCUNSTNCIAS em que voc se comporta de uma forma que no admira. Tente ento identificar
as razes por que essas situaes parecem causar esse comportamento.

        O prximo passo  e novamente o caderno ser til   projetar trs reaes alternativas que voc
poder ter perante aquelas circunstncias. Experimente essas reaes na sua imaginao. Veja de qual voc
gosta mais e qual lhe serve melhor. Pratique, imaginando-se nesse novo e mais desejvel comportamento. Veja
voc mesmo desempenhando com sucesso o seu novo papel e depois saia e ponha em prtica o que j ensaiou.
J foi bem estabelecido que esse  um sistema comprovado de incrementar a sua eficcia no mundo. Se voc
perseverar, mesmo depois dos contratempos e das "recadas" iniciais, descobrir que subestimou radicalmente o
seu poder de mudar (como todos tendem a fazer).

       Uma das caracteristicas das pessoas que esto razoavelmente livres de culpa  que elas nunca agem de
maneira a se arrepender ou a se sentir mal, ou mesmo (por algum tempo) se repreender, mas, alm de assumir
os comportamentos corretivos j descritos, procuram APRENDER com os seus erros. Elas refletem sobre eles.
Ponderam a respeito deles. Procuram os padres de comportamento que esto por trs deles para evit-los.
        Muitas vezes, em algum lugar da nossa psique, podemos "saber" o que precisamos aprender com nossos
erros, porm, no "sabemos" como tornar nosso conhecimento plenamente consciente. Aqui, a concluso de
sentenas pode ser de enorme ajuda, pois  basicamente uma ferramenta para ter acesso quilo que est dentro
de ns, alm da conscincia comum.




         Pense em algum ato que voc praticou (ou deixou de praticar) pelo qual voc se censura, e anote este
incio de sentena: Se eu quisesse encarar plenamente o que fiz (ou deixei de fazer)... e depois escreva
de seis a dez concluses, to rpido quanto possvel, sem deixar que a autocrtica e a autocensura interfiram.
Deixe que as concluses fluam (faam ou no sentido a princpio). Passe ento para:


       Quando fiz o que fiz, disse a mim mesmo...
       Uma das coisas que posso aprender da experincia ...
       Se eu antes quisesse ver o que vejo agora...
       Uma das maneiras de evitar esse erro no futuro ...
       Se eu continuasse to consciente quanto estou agora...
       Gostaria mais de mim se...
       Quando ajo contra algo que entendo perfeitamente bem...
       Estou ficando consciente...
       Na medida em que tenho mais vontade de entender o que estou escrevendo...
       Na medida em que imagino como me sentiria se me comportasse mais adequadamente no
futuro...
       Na medida em que esse assunto vai ficando mais claro para mim...




        No h maneira de aprender como esse processo pode ser curativo e integrador, a no ser participando
de maneira ativa. Aventuro-me a imaginar que alguns leitores resistiro a passar por ele, precisamente porque,
num nvel subconsciente, SABEM que ele tem o poder de ativar o crescimento e a mudana e se essas pessoas
estiverem apegadas a seus erros e a sua culpa, a mudana no  basicamente o que elas procuram, no importa
o que afirmam em contrrio.

        Por que uma pessoa deveria estar apegada  culpa? Bem, para comear, a culpa nos bloqueia em nossa
passividade, sem necessidade de gerar novos comportamentos: "Sou culpado, sou uma decepo e sempre fui
assim  esta  a vida". Isso pode ser traduzido por: "No espere nada de mim".

        Outra razo  que a infelicidade  familiar; no  agradvel, mas  familiar. Quem sabe o que teremos de
enfrentar na vida, se no tivermos a nossa depresso e a nossa autocensura para nos proteger e isolar? Quem
sabe que desafios seremos obrigados a encarar? A misria pode oferecer o seu prprio tio de aconchego,
enquanto a felicidade, ao seu jeito,  muito mais exigente, em termos de conscincia, energia, disciplina,
dedicao e integridade.

        E existem tambm as pessoas que, quando jovens, so encorajadas por pais insensveis ou pouco
cuidadosos a acreditar que foram ms ou inadequadas e que, mesmo como adultos, sentiram-se impelidas a dar
"razo" aos pais  protegendo assim o relacionamento pais-filhos   custa de sua prpria realizao e auto-
estima. Esse processo pode continuar at muito tempo depois que nossos pais morreram. O drama  INTERNO.

       Portanto,  preciso coragem para trabalhar em nossa libertao da culpa.  preciso honestidade,
perseverana e um compromisso com a independncia  e viver consciente, autntica, responsvel e ativamente.
Mas pode ser feito.
         Esse desafio nos coloca diante no apenas de nossas fraquezas reais ou imaginrias, mas tambm de
nossos pontos positivos  se e quando estivermos inclinados a nos defender ou recriminar a respeito.

          Quando condenamos nossos pensamentos, sentimentos ou atos, estamos, de maneira implcita,
protegendo nossa auto-estima, mesmo que o efeito seja diametralmente oposto ao que pretendamos. Como
estamos lutando, em algum nvel, para nos cuidar e nos proteger, nossa atitude deve ser, pelo menos
superficialmente, plausvel. Estamos, afinal, condenando aquilo que consideramos falhas e fraquezas. Contudo, e
a rejeio ou o repdio dos PONTOS POSITIVOS - ou mesmo das VIRTUDES - que esto dentro de ns?

          J vimos um exemplo disso, na discusso da auto-aceitao, quando notamos que as pessoas podem
rejeitar sentimentos de auto-estima ou orgulho, devido ao medo da responsabilidade que esses sentimentos
exigem, de uma alienao social imaginria ou da desaprovao alheia. Eis aqui mais alguns exemplos. Alguns
leitores acharo difcil acreditar que algum tenha esses pontos de vista; outros os reconhecero muito bem.


             "Sinto-me culpado por ser bonito, isto , mais bonito que a maioria das pessoas."
             IMPLICAO: Minha boa aparncia  uma censura, bem como uma injustia, para com todos os que
no a tm.
             TRADUO MAIS PROVVEL: Tenho medo do cime ou da inveja das outras pessoas.


             "Sinto-me culpado por ser to inteligente, isto , mais inteligente do que a maioria das pessoas."
             IMPLICAO: Nasci com uma boa cabea,  CUSTA daqueles que no a tm. Ainda por cima, como
todos sempre optam por exercer o potencial de inteligncia com o qual nasceram, no mereo crdito pelo que
fiz com o meu talento.
          TRADUO MAIS PROVVEL: Estou com medo da animosidade daqueles que se ressentem da
inteligncia.


             "Sinto-me culpado por ter tido sucesso na vida, enquanto tantas pessoas no conseguem atingir esse
objetivo."
         IMPLICAO: No s no mereo um crdito moral pelo que fiz, como  uma injustia contra todos os
que, por qualquer razo, no fizeram o mesmo. Alm disso, tenho um dbito moral para com todos os que
fizeram menos em suas vidas.
         TRADUO MAIS PROVVEL: Se eu jamais demonstrar, de alguma maneira, que me sinto orgulhoso
do que fiz. Se eu esconder meus sentimentos de orgulho, no s dos outros como de mim mesmo, talvez as
pessoas me perdoem e comecem a gostar de mim.


             "Sinto-me culpado porque sou humano. Nasci em pecado."
             IMPLICAO:  significativo falar de culpa num contexto em que no existe a inocncia. Mais ainda,
preciso aceitar posturas que ferem a razo e a moralidade, porque as autoridades as sustentam.
          TRADUO MAIS PROVVEL: Essas autoridades tm o monoplio da moralidade e dos julgamentos
morais; quem sou eu para colocar os meus julgamentos contra os delas?


          Dois temas parecem estar presentes sempre que defrontamos com as posies defensivas, ou de
"culpa", em relao aos fatores positivos: o medo da auto-responsabilidade e o do isolamento ou da solido. 
claro, os dois esto relacionados. Porm,  uma pena quando as pessoas querem pertencer AOS OUTROS para
sentir que pertencem AO UNIVERSO DELES.

         A vontade de ter um sentimento de comunicade no , logicamente, insensata, mas tentar compr-lo 
custa da auto-estima  simplesmente criar um novo tipo de solido: a solido de ns mesmos. Essa  uma das
fontes mais comuns do sofrimento humano.
          Se voc se sentiu tocado por esse assunto, se reconhece em voc uma parte dele, ento pea a si
mesmo que considere o seguinte: se tivesse um filho querido, ou bonito, ou saudvel, ou inteligente, ou forte ou
criativo  ou que viesse a ter muito sucesso - , GOSTARIA QUE ELE SE SENTISSE CULPADO POR ISSO? Voc
gostaria que o seu filho se sentisse culpado pelo fato de ESTAR VIVO? Coloco o assunto desta maneira porque,
segundo minha experincia, muitas pessoas que se sentem confusas quando pensam sobre si mesmas vem
imediatamente com mais clareza quando projetam sua prpria psicologia na de uma criana imaginria.

          Talvez eu deva enfatizar que assumir o que h de melhor em ns e sentir prazer com isso no  ser
arrogante, pretensioso ou pomposo. Mas tambm no devemos querer mentir  para ns mesmos ou para os
outros  sobre quem e o que somos. No temos de nos desculpar perante a inveja nem tentar aplac-la. A auto-
estima saudvel probe esse tipo de capitulao.

          Assim, podemos perceber que ser preciso muita coragem, tanto para ser honestos a respeito das
nossas virtudes, como dos nossos defeitos.




         Aqui esto alguns incios de sentenas que o ajudaro a explorar esse assunto:

         Se eu tenho dificuldade em aceitar algum ponto positivo meu, pode ser...
         Quando me sinto em posio de defesa por causa de minhas virtudes...
         O que me assusta quando tenho de admitir que me orgulho pelas coisas que fiz ...
         Quando vejo inveja ou cime...
         Se eu ocultar quem sou por medo de inveja ou cime...
         Se eu tiver de me julgar perverso s porque existo...
         Se eu tiver de pedir desculpas por minha aparncia, inteligncia, posses ou realizaes...
         Se eu quisesse admitir os pontos de que sinto mais orgulho...


         Se voc fizer esse exerccio no seu caderno, escrevendo seis ou mais concluses para cada sentena,
posso arriscar a opinio de que voc no precisa de mais explicaes sobre as vantagens que h em aceitar
honestamente as prprias virtudes em termos de auto-estima (bem como de felicidade em geral). As
recompensas emocionais sero bvias e imediatas.

          Voc correria o risco de abandonar alguma pessoa com baixa auto-estima, que inveje o sucesso e a
felicidade? Quase inevitavelmente. Isso significa que voc ter de reavaliar alguns dos seus relacionamentos?
Provavelmente. Mas, quando voc aprender a assumir suas foras, atrair um novo e melhor tipo de
relacionamento. Esse  um fato da vida que, como psicoterapeuta, j testemunhei muitas vezes. E, em alguns
casos, voc redimir o relacionamento atual, inspirando a outra pessoa a fazer frente  sua coragem, a elevar-se
ao seu nvel de honestidade e autenticidade. Veja o comentrio que escutei de um marido: "Minha esposa e eu
concordamos em parar de fingir humildade. Que alvio!".

         A luta pela autoconfiana e pelo auto-respeito vale o que ela exige de ns.




         H mais um assunto relacionado a esse tema que precisamos abordar.

         Nossa concepo de "ser" no se forma em um instante; tem uma histria; desenvolve-se com o
tempo. Se a nossa meta  avaliar a ns mesmos e a nosso comportamento de maneira adequada, abrindo
caminho para uma auto-estima mais elevada, precisamos muitas vezes voltar ao passado  quele "eu" que
fomos num momento anterior da nossa histria pessoal  para abraar, "perdoar" a ns mesmos e n os religar ao
nosso eu-criana e ao nosso eu-adolescente.  sobre esse assunto que falaremos a seguir.
                          Captulo 6  A integrao do eu mais jovem

        "Quando eu era menina, queria to desesperadamente que minha me me amasse", revela uma dentista
de 37 anos. "Tenho fome de um simples toque, de qualquer tipo de afeio. Quando olho para trs, fico
assustada ao ver como pareo carente para mim mesma! Acho que  porque no gosto de olhar para trs. No
gosto de ficar sabendo isso de mim, pelo menos como era ento. Ser que era realmente eu? Recuso-me a
acreditar. Prefiro pensar que aquela menina morreu muito tempo atrs e que eu sou outra pessoa."

       Quando o marido a abandonou, queixando-se de que ela parecia incapaz de dar ou receber amor, ficou
arrasada e perplexa; afirmava no entender o que ele queria dizer.

        "No gosto de me lembrar da poca em que eu era criana", repete um homem de 46 anos,
programador de computadores. "Estava to aterrorizado naquela poca! Meu pai vinha para casa bbado. Batia
em tudo o que estivesse ao seu alcance. Minha me nunca nos protegeu. Eu me escondia, procurava lugares
para me esconder; metade do tempo, estava assustado demais para falar. Era revoltante, aquela criana era
revoltante. No sinto ligao nenhuma com ela."

       Os filhos desse homem no entendiam por que o pai parecia incapaz de brincar. S sabiam que,
emocionalmente, ele poucas vezes parecia estar presente  era como se no tivessem pai.

        "Mame era to sarcstica", diz uma enfermeira de 31 anos. "Tinha uma lngua ferina. Quando eu era
criana, no podia aguentar isso. Chorava muito. Encolho-me s de pensar em mim mesma com trs, quatro ou
cinco anos de idade."

       Porm, todos os pacientes dessa enfermeira queixavam-se de suas maneiras bruscas e de seus
comentrios s vezes mordazes. Ela sabe que no gostam dela, mas no entende por qu.

         "Quando eu tinha doze anos", diz um advogado de 51 anos, "havia um valento perto de casa que me
aterrorizava. Ele me bateu algumas vezes, e, depois disso, me sentia reduzido a nada s de v-lo. no gosto de
me lembrar disso. No gosto de falar a respeito. De fato, no gosto de admitir que aquele menino assustado era
eu. Por que ele no pde lidar melhor com a situao? Prefiro esquecer tudo sobre aquele desgraadinho."

      Embora esse advogado seja brilhante, poucos dos seus clientes conseguem gostar dele. Eles o vem
como uma pessoa insensvel e cruel. "Ele  um valento", observaram vrios clientes.




         H muitas razes pelas quais as pessoas acham que no podem perdoar a criana que j foram. Como os
clientes citados acima, negam e rejeitam aquela criana. Traduzida em palavras, a atitude deles se resume no
seguinte: no posso perdoar o fato de que tinha tanto medo de minha me; de que ansiava tanto pela aprovao
de meu pai; de que me sentia to desamado; de que tinha tanta fome de ateno e afeio; de que estava to
confuso com as coisas; de que, de uma certa forma, provocava minha me sexualmente; de que fiz alguma
coisa, mesmo que no tenha a menor idia do qu, para fazer meu pai me molestar; de que era to desajeitado
na aula de ginstica; de que me sentia to intimidado por meu professor; de que sentia tanta dor; de que no
era popular na escola; de que era tmido; de que tinha vergonha; de que no era mais duro; de que tinha medo
de desobedecer aos meus pais; de que faria qualquer coisa para que gostassem de mim; de que tinha fome de
carinho; de que me sentia zangado e hostil; de que tinha cime do meu irmo mais novo; de que achava que
todos entendiam melhor do que eu; de que no sabia o que fazer quando era ridicularizado; de que no
correspondia s expectativas das pessoas; de que minhas roupas eram as mais pobres e esfarrapadas entre as
dos meus colegas de escola.

        De fato, a criana que j fomos pode ser vivenciada como uma fonte de dor, raiva, medo, embarao ou
humilhao, pode ser reprimida, rejeitada, repudiada, esquecida. REJEITAMOS aquela criana, assim como
outros talvez J FIZERAM CONOSCO - e nossa crueldade para com ela continua indefinidamente por toda a
nossa vida, no teatro da nossa prpria psique, em que a criana continua a existir como uma subpersonalidade,
um EU-CRIANA.

         Sem saber o que estamos fazendo, ns podemos, como adultos, declarar ter encontrado a prova de
termos sido rejeitados sob todos os aspectos em nossos relacionamentos atuais, sem perceber que as razes da
nossa experincia de rejeio so internas, no externas. Nossas vidas inteiras podem ser atos de auto-repdio
ininterrupto, enquanto continuarmos a nos queixar de que os outros no nos amam.

       Quando aprendemos a perdoar a criana que j fomos pelo que ela no sabia, ou no podia fazer, ou
no podia enfrentar, ou sentiu, ou no sentiu; quando entendemos e aceitamos a criana que estava lutando
pela sobrevivncia da melhor maneira que podia, o eu-adulto deixa de ser um adversrio do eu-criana.
Nenhuma parte est em guerra com a outra. Nossas reaes adultas tornam-se mais adequadas.

        No captulo 2, introduzi o conceito de eu-criana  a representao interna da criana que j fomos, a
constelao de atitudes, sentimentos, valores e perspectivas que nos pertenceram h muito tempo e que merece
a imortalidade psicolgica como componente do nosso eu total.  um SUB-EU, uma SUB personalidade  um
estado da mente que pode ser mais ou menos dominante em um determinado momento e a partir do qual s
vezes atuamos, de maneira muito exclusiva, sem necessariamente termos conscincia disso.

         Podemos (de maneira implcita) nos relacionar com o nosso eu-criana consciente ou inconscientemente,
de forma amigvel ou hostil, de modo compadecido ou spero. Como, tenho certeza, os exerccios deste captulo
tornaro claro, quando nos relacionamos com o eu-criana positivamente, ele pode ser assimilado e integrado no
eu total. Quando nos relacionamos de maneira inconsciente e/ou negativa, ele  abandonado em uma espcie de
esquecimento alienado. Neste caso, quando o eu-criana  abandonado  inconscincia, rejeitado ou repudiado,
tornamo-nos fragmentados; no nos sentimos inteiros; de um certo modo, sentimo-nos auto-alienados; e a auto-
estima  atingida.

        Sem reconhecimento ou compreenso, rejeitado ou abandonado, o eu-criana pode se tornar um
"encrenqueiro" que obstrui nossa evoluo e nosso prazer pela existncia. A manifestao externa desse
fenmeno  que s vezes demonstramos um nocivo comportamento infantil, ou camos em padres de
dependncia inadequada, ou tornamo-nos narcisistas, ou vivenciamos o mundo como algo que pertence aos
"adultos".

        Por outro lado, uma vez reconhecido, aceito, abraado e, portanto, integrado, o eu-criana pode ser um
magnfico recurso que enriquece as nossas vidas com o seu potencial para a espontaneidade, a ludicidade e a
imaginao.

        Antes de travar amizade e integrar-se com o eu-criana que existe em relao harmoniosa com voc, 
preciso primeiro fazer contato com essa entidade que est em seu mundo interior. Para apresentar os clientes ou
alunos ao seu eu-criana, s vezes lhe peo que entrem numa fantasia, que se imaginem caminhando por uma
estrada campestre, e que, a distncia, vejam uma criancinha sentada ao lado duma rvore. Ao se aproximarem,
notem que aquela criancinha  o "eu" que j foram. Ento digo-lhes que se sentem ao lado da rvore e
conversem com a criana. Eles so encorajados a falar em voz alta, a aprofundar a realidade da experincia. O
que desejam e precisam dizer um ao outro?  comum haver lgrimas; s vezes, h alegria. Contudo, quase
sempre, h a percepao de que, de alguma forma, a criana ainda existe na psique (como um estado mental) e
tem uma contribuio a dar para a vida do adulto  e um ser mais rico e pleno emerge da descoberta. Muitas
vezes, acontece a triste constatao de que o adulto, erroneamente, acredita que tem de se livrar daquela
criana para poder crescer.

        Quando trabalho com um cliente que tem por meta a integrao do eu-criana, muitas vezes sugiro este
exerccio simples que voc pode fazer sozinho (se tiver um amigo que possa ler em voz alta as instrues que se
seguem, tanto melhor; ou ento pode usar um gravador e reproduzi-las; ou apenas repeti-0las at decorar, antes
de prosseguir).

        Passe alguns minutos olhando para fotografias suas quando criana (assumindo que voc as tenha; se
no, prossiga sem elas). Feche os olhos e respire vrias vezes, profundamente, relaxando. Mergulhe dentro de si
e explore estas questes: como voc se sentia com 5 anos? Como imaginava ento sentir o seu corpo?... Como
era sentir-se triste?... Como era sentir-se excitado?... Como era viver na sua casa?... Como voc se sentava?
Sente-se como voc IMAGINA que algum de 5 anos se senta. Preste ateno no que est sentindo. Vivencie a
experincia.

        Se voc no fizer nada alm desse exerccio em particular, todos os dias por duas ou trs semanas,
comear a conquistar no apenas uma conscincia maior do seu eu-criana, como tambm um nvel de
integrao mais elevado do que provavelmente vivencia no presente, porque estar dando o primeiro passo no
sentido de tornar o eu-criana VISVEL e de lev-lo A SRIO.

        Porm, o trabalho de concluso de sentenas  uma ferramenta mais avanada e mais poderosa para
despertar a conscincia do seu eu-criana e para facilitar sua integrao. Como j mencionei, use um caderno e
escreva cada uma das sentenas incompletas listadas a seguir no topo de uma pgina em branco, depois escreva
de seis a dez concluses para cada uma delas, trabalhando to rpido e to sem autocrtica quanto puder,
INVENTANDO quando precisar manter o ritmo.

       Quando eu tinha 5 anos...
       Quando eu tinha 10 anos...
       Se eu me lembrasse de como era o mundo quando era muito pequeno...
       Se eu me lembrasse de como me sentia fisicamente quando era muito pequeno...
       Se eu me lembrasse de como as pessoas pareciam ser quando era muito pequeno...
       Quando eu estava com meus amigos eu sentia...
       Quando me sentia solitrio eu...
       Quando me sentia excitado eu...
       Se eu me lembrasse de como era a vida quando era muito pequeno...
       Se a criana dentro de mim pudesse falar, ela diria...
       Uma das coisas que eu, como criana, tive de fazer para sobreviver foi...
       Uma das coisas que tive de fazer para tratar meu eu-criana como minha me faria foi...
       Uma das coisas que tive de fazer para tratar meu eu-criana como meu pai faria foi...
       Quando a criana dentro de mim se sente criticada por mim...
       Quando a criana dentro de mim se sente ignorada por mim...
       Uma das maneiras como essa criana me arranja problemas ...
       Suspeito que no estou agindo com meu eu-criana quando...
       Se essa criana se sentisse aceita por mim...
       s vezes, o difcil quanto a aceitar plenamente a criana interior ...
       Se eu fosse mais magnnimo com o meu eu-criana...
       Eu seria mais benevolente com a criana interior se...
       Se eu desse ouvidos s coisas que essa criana precisa me dizer...
       Se eu aceitasse plenamente essa criana como uma parte valiosa de mim mesmo...
       Estou me tornando consciente...
       Quando olho para mim mesmo sob essa perspectiva...




        Fiz certos clientes realizarem esse exerccio vrias vezes, em intervalos de cerca de um ms. Pedi-lhes
que no olhassem como concluram as sentenas nas ocasies anteriores. A cada vez apresentavam concluses
novas que os levavam mais fundo. Sem nenhum outro tipo de trabalho nessa rea, conseguiram compreenses e
integraes extraordinrias que resultaram em autocura e numa auto-estima mais elevada.

       Recomendo que voc experimente esse conjunto de concluses de sentenas e descubra o que ele pode
fazer por voc. Fazendo isso, se tornar mais real para voc como esse trabalho pode beneficiar a sua
autoconfiana, o seu auto-respeito e o seu senso de integridade.

        Eis aqui um mtodo de trabalho mais avanado no campo que foi aberto pelos incios de sentenas j
citados. Complete novamente a sentena Quando eu tinha 5 anos... seguida por Uma das coisas de que
meu eu de 5 anos precisa de mim e nunca conseguiu ..., seguida por Quando meu eu de 5 anos tenta
falar comigo... , seguida por Se eu estivesse disposto a ouvir o meu eu de 5 anos com aceitao e
simpatia..., seguida por Se eu me recussasse a dar apoio ao meu eu de 5 anos..., seguida por Quando
penso em estender a mo para ajudar o meu eu de 5 anos... Complete ento esse mesmo conjunto para
os seus "eus" de 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12 anos. Voc realizar um milagre de autocura.

        Por fim, quando sentir que estabeleceu uma boa percepo do seu eu-criana como entidade psicolgica,
proporcionada pelo trabalho de concluso de sentenas, eis mais um exerccio simples e extraordinariamente
poderoso para facilitar a integrao.

        Usando qualquer tipo de imagem mental que funcione para voc  sensaes visuais, auditivas ou
cinestsicas  crie a sensao de que o seu eu-criana est diante de voc (como pedi a Carlos que fizesse, no
captulo 2). Ento, sem dizer nada, imagine estar segurando essa criana nos braos, abraando-a e acariciando-
a suavemente, para ficar numa relao amorosa com ela. Permita que a criana reaja ou no. Continue firme e
gentil. Deixe que o toque de suas mos, de seus braos e do seu peito transmita a aceitao, a simpatia, o
respeito.

        Lembro-me de uma cliente, Carlota, que, de incio, tinha dificuldade com esse exerccio porque, dizia ela,
seu eu-criana era um amlgama de dor, raiva e desconfiana. "Ele fica escapulindo", disse Carlota. "Ele no
confia em mim, nem em ningum." Observei que, considerando as experincias da pequena Carlota, sua reao
era perfeitamente natural. E continuei: "Imagine que vim a voc com uma criancinha e disse `Eis aqui algum de
quem eu gostaria que voc cuidasse. Ela passou por algumas experincias muito ruins e tem muito pouca
confiana nas pessoas. S para citar um exemplo, seu tio tentou violent-la e, quando ela quis contar para a
me, esta ficou zangada com a menina. Portanto, ela se sente abandonada e trada (Carlota passara por essa
experincia aos 6 anos). Seu novo lar e sua nova vida esto em suas mos. Voc ter de ajud-la a aprender a
confiar em voc e a perceber que voc  diferente dos outros adultos que ela conheceu'. Depois, voc poder
falar com ela  e ouvi-la e deix-la falar de todas as coisas para as quais precisa de um adulto que a entenda.
Mas, de incio, s a abrace. Deixe-a sentir segurana atravs das qualidades do seu ser, das qualidades da sua
presena. Voc pode fazer isso?"

        "Sim", retrucou Carlota, ansiosa. "At agora tratei-a como todo mundo. Fingindo que ela no existe, que
no estava presente, porque a dor dela me assustava. Acho tambm que a culpei, QUASE COMO MINHA ME ME
CULPAVA."

       "Ento feche os olhos e crie-a diante de si, depois tome-a nos braos e permita-lhe que sinta o amor e a
proteo que vm de voc. Como  isso para voc? Pergunto-me o que voc poderia querer dizer a ela... Leve o
tempo que precisar e explore isso."

        Mais tarde, Carlota observou: "Todos esses anos tentei ser adulta, negando a criana que fui um dia.
Sentia-me to envergonhada, magoada e zangada. Mas realmente me senti adulta pela primeira vez quando a
tomei nos braos e a aceitei como parte de mim."

        Esta  uma das formas de construir nossa auto-estima.




        Vejamos agora o eu-adolescente.

         Todos j fomos adolescentes um dia e ainda os trazemos dentro de ns, como parte de quem somos,
reconheamos ou no essa entidade mais jovem. Se reconhecermos, aceitarmos e fizermos amizade com o nosso
eu-adolescente, ele poder ser uma fonte inestimvel de energia, idealismo e ambio, e prover um senso
ilimitado das possibilidades da vida. Porm, se repudiado, ignorado, rejeitado ou negado, nosso eu-adolescente
poder levar-nos a muitos tipos de comportamento auto-sabotador. Poderemos nos ver respondendo ao chefe do
jeito ou no momento errado, ou encarando o sexo oposto com o medo e a incerteza de um adolescente, ou
agindo com a falta (ocasional) de julgamento critico do adolescente, ou transformando qualquer pessoa mais
velha em uma figura parental repressiva e autoritria, contra a qual sentimos necessidade de nos rebelar.

        Mas, alm de tudo isso, se deixarmos nosso eu-adolescente alienado do nosso eu total, estaremos
permitindo a existncia de uma fissura dentro de ns, uma ciso na nossa identidade, que afeta muito a auto-
estima. Outra vez, uma parte de ns estar em guerra com a outra.

       Podemos observar esse tipo de guerra nas seguintes afirmaes:



       "Hoje  embaraoso lembrar como eu era envergonhado e desajeitado com as garotas na minha
adolescncia", diz um mdico de meia-idade. "Realmente, quem quer pensar nessas coisas? O que tinha aquele
pobre sujeitinho que ver comigo?"

        E assim seu eu-adolescente ficou esperando por ALGUM que no o visse como um "sujeitinho"; a nica
pessoa que poderia salv-lo no queria saber da vergonha que era associar-se a ele. E o adulto luta para no
pensar a respeito dos inexplicveis momentos de vaga e persistente solido que o atingem a intervalos
imprevisveis, oriundos de uma fonte que ele no consegue localizar.



         "Quando eu estava perto dos dezoito anos, ainda queria que minha famlia cuidasse de mim", disse-me
uma esposa e me de 41 anos, "enquanto uma outra parte de mim sonhava em ser livre e dona de seu nariz, s
que eu no era muito independente. Falta de coragem, acho. Qual  o grande problema de ser independente?
Mas, eu me rebelava num momento e engatinhava de volta ao ninho no seguinte. Olhando para trs, isso tudo
parece to fraco... Eu no tolero a indeciso. No consigo me relacionar com aquela adolescente. Voc acha que
 por isso que fico s vezes to impaciente com as minhas prprias filhas adolescentes? Tambm tenho
dificuldade em me relacionar com elas".

        Assim seu eu-adolescente  e suas filhas adolescentes  fica sem a compreenso, a simpatia e o apoio da
pessoa de quem mais necessitam receber tudo isso. E o adulto luta por manter-se ocupado, para no ouvir os
ecos de uma dor distante e desconcertante que o tempo no consegue curar.



       "Detesto lembrar como me sentia solitrio nos meus anos de ginsio", disse um mecnico de 48 anos.
"Eu no me dava bem com as pessoas e, apesar disso, morria de vontade de encontrar algum com quem
conversar! Eu era to... intenso. Horrvel. Por que vocs, psiclogos, gostam de desenterrar o passado? Quando
adolescente, eu era muito esquisito."

        E assim seu eu-adolescente foi condenado a uma solido imutvel. E o adulto fica pensando sobre um
vazio mistificante que nada poder preencher.



         Mais uma vez podemos observar o padro de rigidez sem simpatia nem empatia, dessa vez, dirigido ao
eu dos nossos anos de adolescncia. Assim: no posso perdoar minha falta de jeito quando era adolescente; no
posso perdoar meu medo de garotas/garotos, ou minha sofrida vontade de estar com algum e conversar, ou a
enerme confuso que sinto a respeito de quase tudo, ou minha incompetncia nos esportes e na dana, ou o
fato de ser to desengonado, ou minha compleio fsica, ou minha tempestuosidade barulhenta, ou minhas
confuses sobre sexo, ou minha vacilao entre a rebeldia e a passividade, ou minha timidez nas festas, ou
minha passividade, ou meus acessos de delinquncia, ou minha promiscuidade, ou meu puritanismo, ou meu
exibicionismo, ou minha mania de grandeza, ou minha timidez, ou minha ignorncia, pretenso ou falta de
simplicidade.

       Assim como podemos rejeitar a criana que j fomos, podemos rejeitar o adolescente. Todavia, nosso
eu-adolescente continua sendo um componente permanente de nossa psique, e nossa nica escolha est entre
ser consciente ou inconsciente a respeito desse sub-eu, entre ser benevolente e emptico ou hostil e
condenador. O nosso eu-adolescente ser aceito e abraado  bem-vindo afinal  ou condenado por toda a vida
ao papel de um pria solitrio?

        Vamos ao mesmo exerccio que introduzi para entrar em contato com o eu-criana, adaptado agora para
os anos de adolescncia.

        Se possvel, comece por despender alguns minutos olhando suas fotografias de adolescente. Ento, feche
os olhos e respire fundo vrias vezes e relaxe. Entre em si mesmo e explore as perguntas: como  ser um
adolescente? Como voc imagina que sentia o seu corpo ento? Como era viver na sua casa? Como voc se
sentava? Sente-se como voc IMAGINA que um adolescente se senta. Preste ateno no que est sentindo.
Vivencie a experincia. Lentamente, uma nova perspectiva se abrir sobre quem e o que voc . Receba essa
perspectiva com aceitao e respeito.

        Esse  mais um exerccio simples que voc achar benfico repetir todos os dias por duas ou trs
semanas (depois de ter terminado o trabalho com o eu-criana). Voc descobrir que, na medida em que
proporcional ao seu eu-adolescente mais compreenso e respeito, se sentir mais inteiro, mais integrado, mais
harmonioso interiormente.




       A seguir, vamos recorrer  concluso de sentenas como um meio de levar adiante esse trabalho.
Escreva cada uma das que se seguem no alto de uma pgina separa do seu caderno, depois escreva de seis a
dez concluses para cada incio.


       Quando me tornei adolescente...
       Quando eu tinha 14 anos...
       Quando eu tinha 16 anos...
       Quando entrei no ginsio, senti...
       Com meus amigos adolescentes eu me sentia...
       Com o sexo oposto eu me sentia...
       Quando adolescente, uma das coisas que tive de fazer para sobreviver foi...
       Na adolescncia, sentia-me zangado quando...
       Na adolescncia, sentia dor quando...
       Na adolescncia, sentia medo quando...
       Na adolescncia, sentia-me solitrio quando...
       Na adolescncia, sentia-me excitado quando...
       Quando eu tinha 18 anos...
       Se o adolescente dentro de mim pudesse falar, diria...
       Uma das maneiras de tratar meu eu-adolescente como minha me faria ...
       Uma das maneiras de tratar meu eu-adolescente como meu pai faria ...
       Quando meu eu-adolescente se sente ignorado por mim...
       Quando meu eu-adolescente se sente criticado por mim...
       Uma das maneiras como meu eu-adolescente me arranja problemas ...
       Se meu eu-adolescente sentisse que o ouo e o respeito...
       Se meu eu-adolescente sentisse que sou complacente com seus esforos...
       s vezes, o difcil de aceitar totalmente meu adolescente interior ...
       Se eu fosse mais magnnimo com o meu eu-adolescente...
       Se eu reagisse melhor s necessidades do adolescente...
       Uma das maneiras como o meu eu-adolescente poderia contribuir para minha vida ...
       Uma das coisas que aprecio no meu eu-adolescente ...
       Estou comeando a suspeitar que....
       Se eu me permitisse entender o que estou escrevendo...
        Trabalhando com esse processo na terapia, observei que alguns clientes resistem com tenacidade ao
trabalho porque, dizem eles, eram adolescentes to confusos, solitrios e atrapalhados que literalmente no
queriam nada com aquela entidade. Eles esquecem-se de que aquela entidade agora mora dentro deles e que 
A SI MESMOS que esto repudiando.

        Alguns dos incios de sentena j citados foram propostos para resolver essa questo. Por exemplo, ao
completar a sentena Quando meu eu-adolescente sente-se ignorado por mim... meus clientes produzem
concluses (para minha surpresa) como: ele se comporta mal; ele fica rancoroso; ele me obriga a fazer coisas
bobas; ele fica tolo e desafiador; ele faz com que eu me sinta confuso; ele faz com que eu aja como se tivesse
metade da minha idade; ele me faz imprudente; ele me faz irresponsvel, e assim por diante. Ento, ao
completar frases como Se eu reagisse melhor s necessidades do adolescente..., eles produzem
concluses como: ele se enterneceria; ele seria menos desconfiado; ele me ajudaria, em vez de lutar contra mim;
ele se sentiria parte de mim; ele me permitiria usar meus conhecimentos; ele no me envolveria em coisas das
quais devo me distanciar; ele no seria to rebelde; eleno seria to triste, e assim por diante.

      Essas concluses falam por si. Quando declaramos guerra a ns mesmos, criamos um adversrio que no
podemos vencer. Quando nos aceitamos e nos respeitamos, criamos um amigo e um aliado.

       Como fiz em relao ao eu-criana, quero oferecer algumas sentenas mais adiantadas para o eu-
adolescente. Comece com Quando eu tinha 13 anos... e continue com Uma das coisas que meu eu de 13
anos precisava de mim e nunca conseguiu ..., depois Quando meu eu de 13 anos tenta falar
comigo... e ento Se eu quisesse ouvir meu eu de 13 anos com aceitao e simpatia..., a seguir Se eu
me recusar a apoiar o meu eu de 13 anos... Faa ento o mesmo com todos os seus "eus" at os 19 anos
(ou alm, se de fato quer ser ambicioso). Voc se sentir mais inteiro e mais integrado do que jamais se sentiu
em toda a sua vida.

         Ento lembre-se do quarto exerccio proposto para integrar o eu-criana e adapte-o para o eu-
adolescente. Use a imaginao para localizar aquele eu diante de voc. O que vocs dois imaginam que podem
sentir, olhando um para o outro? E se vocs tivessem de estender os braos num gesto de afeio e confiana,
como se sentiriam? E se voc abraasse esse eu (como se abraa um adolescente, no uma criana),
comunicando-se, no com palavras, mas com mos, braos e corpo, enviando mensagens de simpatia, apoio e
amor, como seria sua experincia? Faa isso e descubra. Preste ateno em todos os seus sentimentos.
Persevere, no importa a reao do seu eu-adolescente. Curando o adolescente, voc cura a si mesmo.

        Sei que este exerccio parecer estranho a muitos leitores. Sozinho no quarto  criando uma relao para
alimentar o adolescente que voc j foi? O que isso tem que ver com a forma como se sente hoje? Se fizer o
exerccio  talvez no uma vez s, mas muitas vezes  descobrir a resposta.

        O exerccio exige apenas dois ou trs minutos. E, no entanto, insistindo todos os dias durante um ou dois
meses, voc notar uma diferena no modo de vivenciar a si mesmo. Acabar a guerra que voc vem travando 
inconscientemente  h anos. Se voc mantiver um dirio durante esse perodo e, a cada poucos dias, escrever
meia dzia de concluses para a sentena Estou comeando a sentir... ter uma noo mais clara do seu
progresso.

         O simples compromisso de fazer esse exerccio, bem como os outros que o precedem, aumentar sua
auto-estima, pois a implicao  que voc se considera merecedor deste tipo de esforo. Quando, e se, voc se
sentir relutante em fazer o esforo, talvez a pergunta que deva considera : O QUE TENHO A FAZER, QUE
SEJA MAIS IMPORTANTE?
                               Captulo 7  Viver responsavelmente

        Homens e mulheres que possuem uma elevada auto-estima tm uma orientao ATIVA e no PASSIVA
perante a vida. Eles assumem plena responsabilidade por conquistar o que almejam. No esperam pelos outros
para realizar seus sonhos.

       Se existe um problema, perguntam: "Que posso fazer a respeito? Que linhas de ao so possveis para
mim?". No se lamentam: "Algum tem de fazer alguma coisa!". Se algo deu errado, indagam: "O que me
passou despercebido? Em que calculei errado?". Essas pessoas no se permitem entrar em orgias de culpa.

       Em resumo, elas aceitam a responsabilidade pela prpria existncia.

        Segundo o princpio das causas recprocas j discutido (atos que so causa de uma boa auto-estima so
tambm expresso de uma boa auto-estima), as pessoas que assumem a responsabilidade de sua prpria
existncia tendem, a partir da, a GERAR uma auto-estima saudvel. Na medida em que passamos de uma
orientao passiva para uma ativa, gostamos mais de ns mesmos, confiamos mais em ns e nos sentimos mais
competentes para viver, mais merecedores da felicidade.

        Trabalhando com clientes em psicoterapia, muitas vezes vi que as transformaes mais radicais ocorrem
depois que o cliente percebe que ningum vir salv-lo. "No vem ningum"  um tema constante do meu
trabalho, em todos os nveis possveis. "Quando finalmente me permiti encarar minha inteira responsabilidade por
minha vida", disse-me mais de um cliente, "comecei a crescer. Comecei a mudar. E minha auto-estima comeou
a aumentar".

       A auto-responsabilidade leva a percepes como as seguintes:

       Sou responsvel por minhas escolhas e atos.
       Sou responsvel pela maneira como estruturo o meu tempo.
       Sou responsvel pelo nvel de conscincia que aplico ao meu trabalho.
       Sou responsvel pelo cuidado, ou pela falta de cuidado, com que trato meu corpo.
       Sou responsvel pelas relaes nas quais optei por entrar, ou pelas relaes que mantenho.
       Sou responsvel pela maneira como trato as outras pessoas  meu/minha companheiro/a, meus filhos,
meus pais, meus amigos, meus colegas, meu chefe, meus subordinados, o balconista de uma loja de
departamentos.
       Sou responsvel pelo significado que atribuo, ou deixo de atribuir,  minha existncia.
       Sou responsvel por minha felicidade.
       Sou responsvel por minha vida  material, emocional, intelectual e espiritual.

       Quando falo de "ser responsvel" neste contexto, no quero dizer responsvel como recipiente de culpa
ou de censuras, mas como principal agente causador em sua vida e seu comportamento. Esse  um ponto
importante.

         Um cliente em terapia aprende a perguntar: "Por que e como me tornei to passivo?", em vez de
lamentar-se: "Por que sou to passivo?". O cliente, em lugar de afirmar que no consegue se importar com nada,
aprende a investigar como e por que foge de vivenciar sentimentos fortes sobre qualquer coisa. "Por que", nesse
contexto, significa "Para que fim?". Em vez de dizer: "Por que minha nuca fica to tensa e dolorida?", o cliente
aprende a dizer: "Que sentimentos estou tentando evitar quando tensiono os msculos da nuca?". Em vez de se
queixar de que as pessoas esto sempre se aproveitando dele, o cliente aprende a dizer: "Por que estimulo as
pessoas a se aproveitarem de mim e as encorajo a fazer isso?". Em lugar de queixar-se: "Ningum me entende",
o cliente pergunta: "Como e por que torno difcil que as pessoas me entendam?". Em vez de dizer: "Por que as
mulheres sempre me evitam?", o cliente enfrenta a pergunta: "Como e por que fao com que as mulheres me
evitem?". Em vez de lamentar-se: "Sempre fracasso em tudo o que tento", o cliente comea a considerar: "Como
e por que sempre me foro a fracassar em tudo o que tento?".

        Estou longe de sugerir que uma pessoa nunca seja vtima de um acidente ou do erro dos outros, ou que
seja responsvel por tudo o que possa lhe acontecer. No somos onipotentes. No estamos de acordo com a
pretensiosa noo de que "sou responsvel por todos os aspectos da minha vida e por tudo o que me acontea".

        Sobre algumas coisas, temos controle, sobre outras, no. Se eu me considerar responsvel por assuntos
que esto alm do meu controle, colocarei em risco a minha auto-estima, pois, inevitavelmente, no satisfarei
minhas prprias expectativas. Se eu negar a responsabilidade por assuntos que esto sob o meu controle, outra
vez colocarei em risco a minha auto-estima. Preciso saber a diferena entre o que depende e o que no depende
de mim. Preciso tambm saber que sou responsvel por minhas atitudes e meus atos com relao s coisas
sobre as quais no tenho controle, como por exemplo, o comportamento dos outros.

        A auto-responsabilidade, concebida de maneira racional,  indispensvel para uma boa auto-estima.
Evitar a auto-responsabilidade nos torna vtimas com relao a nossas prprias vidas. Ficamos desamparados.
Damos poderes a todos, menos a ns mesmos. Quando estamos frustrados, procuramos jogar a culpa em
algum; OS OUTROS so culpados por nossa infelicidade. Em contraste com isso, a apreciao da auto-
responsabilidade pode ser uma experincia estimulante e fortalecedora; recoloca nossa vida em nossas prprias
mos.



        A concluso de sentenas faz ver clara e rapidamente o ponto em questo.

         "Se eu desistisse de culpar minha esposa por minha infelicidade...", disse um corretor imobilirio de
meia-idade, "teria de enfrentar minha prpria passividade; teria de encarar o fato de que fui infeliz quase a vida
inteira; teria de reconhecer o fato de que optei por ficar com ela embora ningum me forasse a faz-lo; teria de
admitir que preciso de algum para culpar; estaria desistindo do meu controle sobre ela; teria de analisar minhas
alternativas; TERIA DE FAZER ALGUMA COISA ALM DE SOFRER" .

        "Se eu tivesse de aceitar que sou responsvel pelas condies do meu corpo...", disse uma jovem que
comia e bebia demais, "teria de desistir de sentir pena de mim mesma; teria de parar de culpar meus pais por
tudo; provavelmente teria de comear a fazer exerccios; acho que no poderia continuar abusando do meu
corpo como fao agora; iria gostar mais de mim mesma; gostaria de ficar em forma; pararia de me lamentar,
sentindo pena de mim mesma; levantaria meu traseiro da cadeira e FARIA ALGUMA COISA" .

        "Se eu assumisse a responsabilidade por meus sentimentos...", afirmou uma esposa e me cujos surtos
emocionais eram uma tempestade incessante na vida de sua famlia, "teria de encarar o fato de que, quando fico
frustrada, comporto-me como criana; teria de enfrentar as coisas a respeito das quais realmente no me sinto
bem; saberia que uma grande parte da minha raiva  para encobrir a insegurana; talvez eu pudesse ser mais
honesta com meu marido quanto aos meus medos; eu no atormentaria as crianas; teria de admitir que muitas
vezes uso as emoes para manipular a famlia, para que faam o que eu quero; teria de aceitar que as outras
pessoas tm sentimentos; pensaria antes de falar; NO ME VERIA COMO VTIMA DO UNIVERSO" .

        "Se eu assumisse a responsabilidade de conseguir o que eu quero...", disse um homem com cerca de
trinta anos que nunca permanecera num emprego por mais de oito meses, "teria de reconhecer que o tempo
passa; teria de encarar o fato de que no sou mais to jovem; no iria sonhar e fantasiar tanto; teria de admitir
que tudo o que j fiz foi `perder tempo'; teria de admitir o quanto estou assustado por realmente ter de me
comprometer com alguma coisa; no invejaria tanto o sucesso dos outros; no estaria culpando o sistema;
escolheria uma direo e permaneceria nela; pararia de inventar libis; RECONHECERIA QUE NADA VAI
MELHORAR, A NO SER QUE EU MUDE" .

       "Enquanto eu puder culpar meus pais por minha infelicidade...", alegou uma professora de 34 anos que
mudava de terapeuta vrias vezes por ano, "nunca terei de crescer; poderei fazer com que as pessoas sintam
pena de mim; poderei fazer com que minha famlia se sinta culpada; poderei fazer com que as pessoas sintam
que tm de me pedir desculpas; poderei dizer a mim mesma que a culpa no  minha; poderei enganar os meus
terapeutas; posso sentir-me horrvel; posso ser uma vtima; tenho uma desculpa para tudo; NO TENHO DE
TOMAR CONTA DA MINHA VIDA" .

        "Se eu tivesse de assumir plena responsabilidade por minha vida...", disse um psiquiatra, responsvel
pelas necessidades de todos, menos pelas suas ou de sua famlia, "pararia de dizer a mim mesmo que estou
ocupado demais para ser feliz; pararia de tentar impressionar meus pacientes com a minha complacncia e
gentileza; pararia de me sentir como um mrtir; pararia de insistir que minha esposa tem de me fazer concesses
infinitas; saberia onde pra minha responsabilidade com os outros; seria mais gentil comigo mesmo, com minha
esposa e filhos; reconheceria que o auto-sacrifcio  uma fuga; comearia a aplicar em mim mesmo o que ensino
aos meus pacientes; admitiria que ningum pode viver pelos outros e no deveria se pudesse; viveria com mais
integridade; respeitaria mais a mim e a minha famlia; TERIA DE PENSAR SOBRE O QUE REALMENTE QUERO DA
VIDA" .

        Se voc ainda no fez os exerccios de concluso de sentenas deste livro, poder ficar atnito diante da
franqueza com que as pessoas reconhecem as recompensas de evitar a auto-responsabilidade. Porm, se de fato
quer elevar a sua auto-estima, eis algumas sentenas para trabalhar, antes de seguir adiante:


       s vezes, quando as coisas no vo bem, fao-me impotente...
       O bom de me fazer impotente ...
       s vezes tento evitar a responsabilidade culpando...
       s vezes minha maneira de ficar passivo ...
       s vezes culpo a mim mesmo por...
       Se eu assumisse mais responsabilidade no trabalho...
       Se eu assumisse mais responsabilidade pelo sucesso das minhas relaes...
       Se eu assumisse a responsabilidade de cada palavra que pronuncio...
       Se eu assumisse a responsabilidade por meus sentimentos...
       Se eu assumisse a responsabilidade por meus atos, momento a momento...
       Se eu assumisse a responsabilidade por minha felicidade...
       Se o nico significado da minha vida  o significado que estou tentando criar...
       Se eu quisesse respirar fundo e vivenciar o meu prprio poder...
       Se eu quisesse ver o que vejo e saber o que sei...
       Neste momento,  muito claro para mim que...


        Talvez voc tenha conscincia de que  menos auto-responsvel em algumas reas de vida do que em
outras. Pode ser muito ativo e responsvel no trabalho e muito passivo em casa com a famlia. Pode ser muito
responsvel quanto a sua sade e muito irresponsvel quanto ao dinheiro. Pode ser ativo quanto ao seu
desenvolvimento intelectual e passivo quanto s emoes.

       Considere as seguintes reas:

       Sade
       Emoes
       Escolha de amantes
       Escolha de companheiro(a)
       Escolha de amigos
       Segurana financeira
       Nvel de conscincia e responsabilidade que voc leva ao trabalho
       Nvel de conscincia e responsabilidade que voc leva aos relacionamentos
       Maneira de tratar com as pessoas em geral
       Desenvolvimento intelectual
       Carter
       Felicidade
       Auto-estima


       Agora imagine-se numa escala de 1 a 10, sendo que 10 significa o que veria como auto-responsabilidade
tima e 1 o que concebe como o nvel mais baixo de auto-responsabilidade. Classifique-se em cada item,
anotando o nmero ao lado. Voc pode isolar as reas que precisam ser mais bem trabalhadas.
       Neste ponto, se pensar sobre uma ou outra rea em que no  muito responsvel, poder protestar:
"Mas eu no sei O QUE FAZER - no sei COMO ser mais responsvel".

        claro que isso raramente  verdade.

        No incio de minha carreira, quando meus clientes colocavam essa objeo, eu m ostrava-lhes o que
poderiam fazer para se tornar participantes mais ativos de suas prprias vidas. A experincia ensinou-me a
falcia desse enfoque. Hoje, depois que os clientes j sabem como completar uma sentena, em geral lhes
forneo esta: Uma das maneiras de eu assumir mais responsabilidade com relao a (complete) ... e
digo-lhes que prossigam com velocidade mxima. Eles ento comeam a notar como j esto bem informados.

        J vi muitas pessoas, de todas as origens e de todos os nveis sociais, produzirem concluses
surpreendentemente penetrantes para essa sentena e aprendi a ouvir com um ceticismo benevolente os
protestos de ignorncia e desamparo. Se voc se ouvir reclamando, sugiro que faa o mesmo.

        claro, s vezes outras pessoas podem nos ajudar a tomar mais conscincia de algumas possibilidades
de ao, todavia sempre haver algumas coisas que j sabemos que podemos fazer. COMECE COM ELAS.



        Aceitar a responsabilidade pela prpria existncia  reconhecer a necessidade de viver de maneira
produtiva. Essa  uma aplicao bsica e profundamente importante da idia de ter uma orientao ativa para a
vida.

        O que est em jogo no  o grau da nossa capacidade produtiva, mas a nossa escolha de exercer as
potencialidades que possumos. O trabalho produtivo  o supremo ato HUMANO. Os animais precisam se ajustar
ao seu ambiente fsico, os seres humanos ajustam o ambiente fsico a eles. Temos a capacidade de dar unidade
psicolgica e existencial a nossas vidas, integrando nossos atos s metas que projetamos.

         O que afeta nossa auto-estima no  o trabalho que escolhemos (desde que,  claro, o trabalho no seja
hostil  vida humana), mas sim se estamos procurando um trabalho que exija e expresse a utilizao mais plena
e consciente de nossas vidas e valores (assumindo que exista a oportunidade de fazer isso).

       Viver produtivamente  oferecer a ns mesmos uma das alegrias ou recompensas singulares do fato de
sermos humanos.



         Viver responsavelmente (e, portanto, promover uma saudvel auto-estima) est intimamente associado
com viver de maneira ativa.  atravs dos atos que uma atitude de auto-responsabilidade  implementada e
expressa. Que ATOS posso realizar para ir mais longe em minha carreira? Para melhorar minha vida amorosa?
Para obter um melhor tratamento da parte dos outros? Para aumentar meus rendimentos? Para me tornar mais
feliz? Para cultivar meu desenvolvimento intelectual ou espiritual?

       Assim como, se queremos aumentar nossa auto-estima, precisamos pensar em termos de
COMPORTAMENTO. Se queremos viver de maneira mais responsvel, precisamos pensar em termos especficos
de ATOS. Por exemplo, no basta dizer a voc mesmo: "Eu devia ser mais consciente". O que voc FARIA para
ser mais consciente? No basta dizer "Eu devia ter uma atitude melhor para com minha famlia". Como uma
atitude melhor se manifestaria em um COMPORTAMENTO especfico?

         O comportamento pode ser mental ou fsico. Pensar  um ato; manter-se atento  tarefa que deve ser
feita  um ato; fazer uma lista  um ato; declarar alguma coisa a outra pessoa  um ato; e tambm acariciar um
rosto, transmitir sua apreciao em palavras, escrever uma carta, reconhecer um erro, preparar um relatrio,
atualizar o canhoto do talo de cheques ou candidatar-se a um emprego. A questo que se coloca sempre : o
comportamento  adequado ao contexto? Ser auto-responsvel  preocupar-se com essa pergunta.
        Portanto, se queremos ter maior auto-responsabilidade em alguns aspectos de nossas vidas, precisamos
considerar: que atos eu poderia realizar? Quais so minhas opes? Se eu no estiver esperando um MILAGRE,
se ningum fizer NADA, o que EU posso fazer? Se eu preferir no fazer nada, se aceitar o STATUS QUO, quero
assumir a responsabilidade por essa deciso?

        Observe isto: se h em sua vida reas nas quais voc pratica a auto-responsabilidade melhor do que em
outras, meu palpite  que  tambm nessas reas em que VOC SE GOSTA MAIS. As reas nas quais voc evita
a responsabilidade so aquelas em que voc se gosta menos.

        Mais uma vez, recomendo a concluso de sentenas para verificar esse assunto. Por exemplo: Ponho
em prtica a maior auto-responsabilidade quando...; Evito a auto-responsabilidade principalmente
quando...; Quando sou auto-responsvel sinto-me...; Quando evito a auto-responsabilidade sinto-
me...; Se tudo o que escrevo for verdade...; Torno-me consciente...



       Mais uma vez, pense nos prximos sete dias da sua vida. Se voc tivesse de praticar maior auto-
responsabilidade, o que faria de diferente? Escreva a resposta num caderno.

        Ento pense em voc traduzindo em atos o que escreveu. No pense em se comprometer por toda a
vida, s pelos prximos sete dias  como uma experincia. Descubra o impacto que isso tem sobre sua noo de
quem . Descubra esse impacto em sua vida.

       E ento, se voc gostou do que descobriu, tente durante mais sete dias. E depois por mais sete.




                               Captulo 8  Viver com autenticidade

       As mentiras mais devastadoras para a nossa auto-estima no so tanto as que CONTAMOS, mas as que
VIVEMOS.

       Vivemos uma mentira quando distorcemos a realidade da nossa experincia ou a verdade do nosso ser.

        Assim, estou vivendo uma mentira quando finjo um amor que no sinto; quando finjo uma indiferena
que no sinto; quando me mostro mais do que sou; quando me mostro menos do que sou; quando digo que
estou zangado, mas na verdade estou com medo; quando finjo estar desamparado, mas na verdade estou
manipulando; quando nego e escondo minha excitao com a vida; quando finjo uma cegueira que nega minha
conscincia; quando finjo um conhecimento que no possuo; quando rio e quero chorar; quando fico muito
tempo com pessoas de quem no gosto; quando me apresento como a encarnao de valores que no aprovo
nem aceito; quando sou delicado com todo mundo menos com aqueles a quem digo amar; quando finjo ter
crenas sobre as quais no tenho convico, s para ser aceito; quando finjo modstia; quando finjo arrogncia;
quando deixo meu silncio concordar com convices das quais no compartilho; quando digo admirar um certo
tipo de pessoa enquanto durmo com outro.

       Uma boa auto-estima exige CONGRUNCIA  o que significa que o eu interior est de acordo com o eu
manifesto no mundo.

         Se opto por falsificar a realidade de minha pessoa, fao isso para enganar a conscincia alheia (assim
como a minha). Fao isso porque sinto, ou acredito, que eu mesmo no sou aceitvel. Valorizo mais a iluso na
cabea dos outros do que o meu prprio conhecimento da verdade. a penalidade  que atravessarei a vida com a
atormentada sensao de que sou um impostor. Isso significa, entre outras coisas, que me condeno  ansiedade
de ficar pensando QUANDO SEREI DESCOBERTO.
        Primeiro, rejeito a mim mesmo; isso est implcito nas mentiras que vivo, na falsificao da verdade
sobre quem sou. Depois, sinto-me rejeitado pelos outros ou procuro possveis sinais de rejeio que logo
encontro. Imagino que o problema est entre mim e os outros. No percebo que o pior que temo nas pessoas j
fiz a mim mesmo.

        A HONESTIDADE consiste em respeitar a diferena entre o real e o irreal  e em no tentar obter valores
alterando a realidade, isto , sem tentar atingir minhas metas fingindo que a verdade  diferente do que .

        Quando tentamos viver de uma maneira inautntica, somos sempre a primeira vtima, pois a fraude, em
ltima instncia, dirige-se a ns mesmos.

         bvio que as mentiras comuns da vida cotidiana so prejudiciais  nossa auto-estima. "No, no peguei
mais um pedao de torta de morango"; "No, no dormi com fulano"; "No, no peguei o dinheiro"; "No, no
adulterei o resultado da prova", e assim por diante. A verdade  sempre vergonhosa, ou mais do que
vergonhosa,  a mensagem que transmitimos A NS MESMOS quando contamos mentiras. Porm, esse  o nvel
bvio da desonestidade. Aqui somos obrigados a considerar a desonestidade em um nvel muito mais profundo, o
nvel em que ela se encontra to intimamente ligada (ou assim pensamos)  sobrevivncia, que abrir mo dela 
normalmente um desafio muito maior.

        Para evitar um possvel mal-entendido, considere que viver de forma autntica no significa dizer
compulsivamente a verdade. No significa revelar todos os pensamentos, sentimentos ou atos, independente do
contexto, de sua adequao ou relevncia. No significa contar voluntariamente verdades particulares, de
maneira indiscriminada ou promscua. No significa dar opinies no solicitadas sobre a aparncia das pessoas,
ou fazer, NECESSARIAMENTE, crticas exaustivas, mesmo que solicitadas. No significa fornecer informaes a
um ladro sobre jias escondidas.

         Por outro lado, precisamos reconhecer que a maioria de ns, quase desde o nascimento, foi encorajada a
ficar confusa diante do que  viver de modo autntico.

       A maioria recebeu uma educao que torna a apreciao da autenticidade muito difcil. Aprendemos
muito cedo a negar o que sentimos, a usar uma mscara e, afinal, a perder contato com muitos aspectos do
nosso eu interior. Tornamo-nos INCONSCIENTES de grande parte do nosso eu interior  em nome do
ajustamento ao mundo que nos cerca.

       Os mais velhos encorajaram-nos a rejeitar o medo, a raiva e a dor, porque esses sentimentos no os
deixavam  vontade. Muitas vezes no sabiam como reagir quando a encenao da harmonia familiar era
despedaada. Muitos de ns tambm foram encorajados a esconder (e eventualmente a anular) as emoes. Elas
os enervavam. Tornavam os mais velhos desagradavelmente cnscios de coisas de que abriram mo h muito
tempo. A emoo perturba a rotina.

        Pais emocionalmente distantes e inibidos tendem a criar filhos emocionalmente distantes e inibidos, no
apenas atravs de suas comunicaes explcitas, como atravs de seu prprio comportamento, que mostra 
criana o que  adequado, apropriado e socialmente aceitvel.

        Mais ainda, h na infncia tantas coisas assustadoras, surpreendentes, dolorosas e frustrantes, que
aprendemos a reprimir as emoes como um mecanismo de defesa, como umamaneira de tornar a vida mais
tolervel. Aprendemos depressa demais a fugir dos pesadelos. Para sobreviver, aprendemos a "fazer-nos de
mortos".

        "Fazer-se de morto"  to comum que, em geral, achamos que  um modo normal, e mesmo desejvel,
de colocar as coisas.  familiar, "confortvel", enquanto estar vivo pode ser estranho, s vezes at mesmo
perturbador.  uma poltica de auto-rejeio e auto-alienao.

        Uma das mais dolorosas e perturbadoras experincias da infncia, que a maioria das pessoas tende a
reprimir,  a percepo de que todos os adultos so mentirosos. Essa percepo pode se transformar numa
barreira ao entendimento e  valorizao da autenticidade.

        Escuto mame discursar sobre as virtudes da honestidade, e ento a ouo mentir para papai. Papai
afirma que despreza uma certa pessoa e a bajula durante um jantar. Vejo uma professora negar flagrantemente
a verdade a um aluno ao invs de reconhecer que cometeu um engano.

        At onde sei, nenhum psiclogo estudou o impacto traumtico das mentiras dos adultos sobre os jovens.
E, no entanto, quando levanto esse assunto na terapia e convido meus clientes a explor-lo, a maior parte deles
sustenta que essa foi uma de suas primeiras experincias mais devastadoras.

        Muitos jovens concluem que crescer significa aprender a aceitar a mentira como algo normal, isto ,
aceitar a no-realidade como meio de vida.

        Porm, se nos permitirmos esse tipo de auto-sacrifcio, se nos deixarmos dominar pelo medo; se
atribuirmos mais importncia ao que os outros acreditam do que ao que sabemos ser verdade  se valorizarmos
o PERTENCER mais que o SER  no chegaremos  autenticidade. Para atingi-la,  necessrio coragem e
independncia, especialmente quando to poucas vezes encontramos essas qualidades nos outros. Contudo, isso
no deve nos deter; se as pessoas autnticas so minoria, tambm so as felizes e tambm so as que tm boa
auto-estima e as que sabem amar.



        Embora a qualidade de suas relaes seja claramente superior  das pessoas de baixa auto-estima,
homens e mulheres de elevada auto-estima esto longe de ser universalmente mais amados. Mais independentes
do que a mdia, so mais sinceros. So mais abertos quanto a seus pensamentos e sentimentos. Caso se sintam
alegres ou excitados, no tm medo de demonstr-lo. Se sofrem, no se sentem obrigados a "ser simpticos". Se
suas opinies no so populares, expressam-nas do mesmo jeito. So pessoas saudavelmente auto-afirmativas. E
como no tm medo de ser quem so  de viver com autenticidade  s vezes despertam a inveja e a hostilidade
dos que so mais presos s convenes.

        s vezes, em sua inocncia, essas pessoas ficam perplexas com essa reao e podem sentir-se
magoadas com isso. Contudo, no desistem do seu prprio compromisso com a verdade. elas no valorizam a
opinio dos outros acima da sua prpria auto-estima, apenas aprendem que h pessoas que  melhor evitar.

       Essas pessoas procuram relaes saudveis  em contraste com as pessoas com auto-estima negativa,
que parecem sempre encontrar relacionamentos nocivos.

        Os relacionamentos das pessoas com elevada auto-estima caracterizam-se por uma dose de
benevolncia, respeito e dignidade mutuamente respeitada superior  mdia. Homens e mulheres voltados ao
crescimento tendem a apoiar as aspiraes de crescimento dos outros. As pessoas que sentem prazer com suas
prprias emoes sentem prazer com as emoes dos outros. As pessoas que falam sinceramente apreciam a
sinceridade daqueles com quem falam. As pessoas que se sentem bem dizendo "sim" quando querem dizer "sim"
e "no" quando querem dizer "no" respeitam o direito dos outros de fazer o mesmo. As pessoas autnticas
conseguem amigos melhores e mais confiveis, porque estes sabem que podem contar com elas e porque elas
inspiram as outras pessoas a corresponderem  sua autenticidade.

       Quando somos autnticos, no apenas honramos a ns mesmos  oferecemos tambm um presente s
pessoas com quem lidamos.



        "s vezes dou s pessoas uma falsa impresso do que sinto...", disse uma cliente, queixando-se de que
ningum a entendia, "... quando sorrio e estou chorando por dentro; quando tento impressionar pessoas que no
respeito; quando nego minha raiva e fico fervendo por dentro; quando fao de conta que nada me incomoda;
quando no enfrento ningum por razo alguma; quando pareo concordar com quem estou falando; quando
no digo o que desejo; quando digo `sim' querendo dizer `no'."
        "s vezes torno difcil s pessoas me darem o que eu quero...", revelou um cliente que se queixava de
que ningum se preocupava com suas vontades, "... quando no lhes digo o que eu quero; quando fao de conta
que no quero nada; quando ajo como se fosse totalmente auto-suficiente; quando sutilmente desprezo os
esforos que as pessoas fazem para serem boas comigo; quando critico tudo; quando me dou seguidamente s
pessoas e uso isso para mant-las a distncia; quando me distancio; quando no espero quieto que cheguem a
mim as pessoas que tentam se aproximar; quando nem mesmo me permito saber o que eu quero".

        "Se eu me dispusesse a dizer `no' quando quero dizer `no'...", comentou uma mulher que se queixava
de que as pessoas se aproveitavam dela, "... eu me respeitaria mais; me pergunto se as pessoas no gostariam
mais de mim; me sentiria mais limpa; teria mais tempo para fazer as coisas que quero; no teria ressentimentos
contra as pessoas; seria mais gentil; no me rebelaria e diria `no' a coisas to triviais; as pessoas me
conheceriam melhor; acho que, de uma maneira geral, seria mais generosa; no poderia me sentir como mrtir;
seria responsvel pelas coisas que me acontecem; no poderia pr a culpa em ningum; tudo dependeria de
mim; no poderia sentir pena de mim mesma; teria dignidade".

        "Se eu dissesse `sim' quando quero dizer `sim'...", disse um homem que se queixava de que sua vida era
montona, "... teria mais coragem; estaria assumindo mais riscos; teria de deixar as pessoas saberem quem sou;
teria de ser onesto quanto s coisas que me importam; procuraria mais as pessoas; teria aventuras; no seria
to autoprotetor; no seria to cauteloso; participaria da vida, em vez de s observ-la; uma parte maior de mim
estaria na realidade".

       "Se eu no vivesse de acordo com as expectativas dos outros...", alegou uma mulher superpreocupada
em obter a aprovao alheia, "... diria a eles o que realmente penso e sinto; teria de encontrar o meu prprio
caminho; teria de dar apoio a mim mesma; teria de assumir a responsabilidade por minha prpria vida;
descobriria quem realmente so os meus amigos; talvez pudesse me pertencer; j seria hora de perguntar o que
EU acho mais importante".

        "Se eu fosse mais honesto quanto a meus pensamentos e opinies...", desabafou um homem que se
queixava de ansiedade social, "... eu me perguntaria como as pessoas reagiriam; acho que me sentiria mais
seguro; sei que me sentiria mais forte; estaria mais relaxado; no me sentiria to intimidado; gostaria mais de
mim mesmo; confiaria mais em mim; no me preocuparia tanto com as opinies dos outros; seria menos
ansioso; no me sentiria como um cidado de segunda classe; saberia que fao parte da raa humana".

         "Se eu fosse mais honesta quanto a meus sentimentos...", disse uma mulher que se queixava de no ter
identidade, "... teria de saber o que sinto; acho que as pessoas teriam mais respeito por mim; eu teria mais
respeito p or mim; teria a oportunidade de enfrentar desaprovao; provavelmente perderia alguns amigos; no
estaria sempre usando luvas de pelica no que se refere aos sentimentos alheios; teria mais integridade; teria de
modificar minha maneira de viver; no poderia dizer que no sei quem sou; sentiria que tenho um centro;
sentiria que h algo de valor em mim; no me sentiria to vazia; no me sentiria to falsa; estaria assustada;
seria eu mesma; TERIA UM EU" .




        Pensando na questo de viver autenticamente, eis algumas perguntas bsicas a considerar (algumas
delas se sobrepem):


      Sou, em geral, honesto comigo mesmo quanto ao que sinto, ACEITANDO                     minhas emoes,
VIVENCIANDO-AS , sem necessariamente ser compelido a agir de acordo com elas?

        Sou, em geral, honesto com os outros quanto a meus sentimentos, em contextos nos quais  adequado
falar sobre sentimentos?

       Esforo-me de maneira consciente para ser honesto e cuidadoso quando me comunico?
       Falo  vontade, de forma direta e aberta, sobre tudo o que amo, admiro e me d prazer?

       Se estou magoado, zangado ou aborrecido, falo a respeito com honestidade e dignidade?

       Sou fiel a mim mesmo, honro minhas necessidades e meus interesses?

       Permito que outras pessoas vejam minhas emoes?

       Caso saiba que estou errado, reconheo o fato simplesmente?

       Sinto que o que eu vivencio internamente  o mesmo que apresento ao mundo?



        Mais uma vez usando uma escala de 1 a 10, em que 10 representa a autenticidade tima e 1 representa
o nvel mais baixo, classifique-se em cada um desses itens.  claro, sua disposio de ser autntico ser
desafiada pela forma como voc se classifica. Talvez voc veja com mais clareza as reas nas quais 
inadequadamente auto-assertivo.

         A seguir, aproveite alguns minutos para sentar-se sozinho em silncio e pensar sobre as mentiras que
est vivendo atualmente. Faa isso sem autocensura; o propsito do exerccio no  evocar culpa, mas atingir
maior clareza e auto-entendimento, como um preldio para o incremento da autenticidade do ser. Imagine-se
contando a sua histria a um amigo carinhoso e compassivo que de fato quer entend-lo, que deseja saber por
que voc sente que  to necessrio e desejvel viver essa mentira (ou mentiras) em particular. Conte a seu
amigo como sente a utilidade funcional  o valor de sobrevivncia  da sua falta de autenticidade. Ento imagine
esse amigo convidando voc a explorar as fantasias sobre o que aconteceria se voc desistisse da mentira.
Explicite em detalhes o que imagina que aconteceria. Ento imagine seu amigo perguntando se existem
circunstncias ou condies nas quais voc pudesse ser mais autntico, e responda. Depois, sente-se
tranquilamente e imagine como se sentiria, como poderia vivenciar a si mesmo, se optasse por viver com mais
autenticidade. Leve o tempo que for necessrio para pensar nisso profundamente. Faa este exerccio dez
minutos por semana durante dois meses... e quase poderei garantir que viver com mais autenticidade ser cada
vez mais natural, cada vez mais desejvel, e que voc se sentir menos ansioso e mais autoconfiante.

       Voc poder explorar ainda mais esse territrio, atravs da concluso de sentenas, escrevendo de seis a
dez para:

       O difcil em ser honesto comigo mesmo quanto ao que estou sentindo ...
       O difcil em ser honesto com os outros sobre os meus sentimentos ...
       Se eu tentasse ser honesto e preciso ao me comunicar...
       Se eu falasse abertamente sobre as coisas que amo, admiro, e nas quais sinto prazer...
       Se eu fosse honesto quanto a sentir-me magoado, zangado ou aborrecido...
       Se eu estivesse disposto a demonstrar aos outros minhas emoes...
       Se eu fosse honesto quando sei que estou errado...
       Se eu estivesse disposto a deixar as pessoas ouvirem a msica que toca dentro de mim...
       Quando penso nas coisas de que desisti por medo de ser condenado...
       Quando penso nas coisas de que desisti por medo de que rissem de mim...
       Se eu estivesse disposto a tentar ser um pouco mais autntico a cada dia...



        Ningum que tenha sido relativamente inautntico torna-se relativamente autntico num piscar de olhos.
 esse o significado da ltimo sentena. A pergunta : voc quer descobrir o que vai acontecer se, passo a
passo, tentar elevar o nvel da sua autenticidade?

       No ntimo, no nos respeitamos por nossa falta de autenticidade. Fica um sabor amargo na alma.
Sentimos que existe uma certa traio e estamos certos. Todavia, se no queremos enfrentar o problema,
tentamos um prmio de consolao: "No era possvel evitar".

        Ou ento dizemos: " fcil para fulano ou sicrano ser honesto e direto, pois tem uma auto-estima to
boa! Eu no tenho". Esquecemos o fato de que viver com autenticidade  uma das maneiras de cultivar a auto-
estima.

       Afirmar nossos desejos e necessidades (sem esperar,  claro, que algum se responsabilize por seu
cumprimento), mesmo quando isso  difcil,  o que a nossa auto-estima pede de ns? A resposta  sim.

       Dizer a verdade sobre o que pensamos e sentimos, sem saber previamente como os outros vo reagir?
Sim.

        Continuarmos leais  nossa prpria conscincia, mesmo quando estamos sozinhos para ver o que vemos
e saber o que sabemos? Sim.

        esse o herosmo de honrar o ser.  tambm o caminho para uma elevada auto-estima.

         Mas, espere. Olhando todo o caminho que voc j percorreu desde que comeou a ler este livro, poder
sentir-se tentado a protestar, "Eu no pensava que teria de FAZER tanto!". Talvez tenha imaginado que tudo o
que teria de fazer era pronunciar umas poucas afirmaes agradveis todos os dias, e com isso sua auto-estima
floresceria.  esse o tipo de atitude que garante uma auto-estima inadequada. Citando Ayn Rand: "A vida  um
processo de aes autogeradas e auto-sustentadas", e cada valor pertinente  vida requer aes contnuas para
sustent-la e mant-la. Voc no pode se alimentar, nem sustentar um empreendimento de sucesso,
simplesmente com palavras. E tampouco pode manter um nvel elevado de auto-estima.

        Se tivesse comprado um livro chamado COMO TER UM CORPO BEM CONDICIONADO, seria realista o
bastante para saber de sada que ao e disciplina so necessrias. S dizer a si mesmo que "A cada dia, e de
todas as formas, meu corpo fica cada vez melhor" no resolve o problema. Voc vai precisar do mesmo realismo
para encarar COMO ELEVAR A SUA AUTO-ESTIMA.

        Assim como voc no est sempre disposto a trabalhar fisicamente, tambm no estar sempre disposto
a fazer os exerccios deste livro. Porm, se voc perseverar (nos dois casos), duas coisas ficaro claras: o
processo se torna mais fcil e mais agradvel na medida em que a sua "forma" melhora; e quando se olhar no
espelho ver os resultados e gostar deles.




                       Captulo 9  Alimentar a auto-estima dos outros

       Embora cada um de ns seja responsvel por sua auto-estima, temos a opo de apoiar ou atacar a
autoconfiana e o auto-respeito de qualquer pessoa com quem n os relacionamos, assim como os outros tm a
mesma opo quando se relacionam conosco.

        Provavelmente todos podemos lembrar de ocasies em que algum reconheceu nossa dignidade assim
como a sua prpria. E podemos recordar de ocasies em que algum nos tratou como se a dignidade humana
no existisse. J vivemos os dois tipos de experincia.

         provvel tambm que todos ns lembremos de uma ocasio em que nos relacionamos com algum
num clima de dignidade mtua. E podemos lembrar de ocasies em que, por medo, raiva ou mgoa, camos num
nvel de comunicao que mal se pode chamar de humano, em que por um momento a dignidade perdeu todo o
sentido. Sabemos tambm a diferena que existe entre essas duas experincias.

        Quando nossas relaes humanas so dignas, temos mais prazer nelas  e quando NS manifestamos
dignidade, nos apreciamos mais.
       Quando apoiamos a auto-estima dos outros, apoiamos a nossa tambm.

       Vejamos algumas das maneiras como se pode alimentar a auto-estima de outras pessoas.

         Existem alguns psicoterapeutas capazes de provocar um profundo impacto na auto-estima das pessoas
que os consultam. Eles podem ter diversas orientaes tericas e utilizar muitas tcnicas diferentes, mas, diante
deles, a auto-estima do cliente  estimulada a elevar-se, na medida em que a pessoa descobre novas
possibilidades de atuar, nunca imaginadas anteriormente.

        Se entendermos algumas das caractersticas mais importantes da forma como esses terapeutas se
relacionam com as pessoas, poderemos aplicar os mesmos princpios s nossas prprias interaes. No h nada
de esotrico quanto a esses conhecimentos. O ideal seria que estivessem  disposio de qualquer um. Meu
sonho  que, algum dia, sejam ensinados s crianas na escola.

        Eu (e muitos estudantes graduados) j questionei muitas vezes clientes em todos esses anos sobre que
tipo de comportamento adotado por mim foi vivenciado como til ao fortalecimento de sua auto-estima. Certos
temas so recorrentes. Nenhum deles  exclusividade minha. Os comportamentos que vou descrever podem ser
encontrados nos psicoterapeutas que sabem como facilitar o crescimento da auto-estima.



         Para comear, tratamos os seres humanos a partir da premissa do respeito. Para mim  o primeiro
imperativo da psicoterapia eficiente. Esse respeito pode ser transmitido atravs da forma como cumprimento os
clientes quando chegam ao consultrio, como olho para eles, como falo, como ouo. Implica aspectos tais como
ser corts, manter o contato visual, no ser condescendente, no ser moralista, ouvir atentamente, preocupar-se
em entender e ser entendido, ser adequadamente espontneo, recusar-se a representar o papel de autoridade
onisciente, recusar-se a acreditar que o cliente no  capaz de crescer. No se pode abrir mo do respeito, no
importa o que faa o cliente. A mensagem  transmitida: um ser humano  uma entidade que merece respeito. O
cliente, para o qual ser tratado assim  uma experincia rara ou mesmo nica, pode se sentir estimulado com o
tempo a reestruturar o seu autoconceito.

        Lembro-me de um homem que disse: "Fazendo o retrospecto de nossa terapia, no sinto nada que tenha
tido impacto to grande quanto o simples fato de que sempre me senti respeitado por voc. Fiz tudo o que pude
para fazer voc me desprezar e me pr para fora. Tentei fazer voc agir como meu pai. Voc negou-se a
colaborar. De alguma forma, eu tinha de lidar com isso, tinha de deixar que acontecesse, o que foi difcil no
comeo, mas, na medida em que eu fazia isso, a terapia comeava a dar certo". Lembro-me de uma de nossas
primeiras sesses, quando ele observou: "Meu pai seria mais gentil com qualquer garoto de recado do que
jamais foi comigo".

        Quando um cliente descreve sentimentos de medo, dor ou raiva, no adianta reagir com "Oh, voc no
devia sentir isso!". O terapeuta no  um animador de torcida. Existe um grande valor (para um cliente de
terapia ou para qualquer pessoa) em expressar os sentimentos sem ter de lidar com censura, condenao,
sarcasmo ou sermes. O processo da expresso  muitas vezes intrinsecamente curativo. O terapeuta que no se
sente bem com a manifestao intensa dos sentimentos do cliente precisa trabalhar consigo mesmo.  bsico s
artes da cura saber ouvir com serenidade e empatia.  tambm bsico sentir uma amizade autntica, para no
falar em amor.

        Compare esse comportamento com o dos amigos que o interrompem com sermes, conselhos, ou com
uma mudana de assunto, quando voc est tentando comunicar emoes fortes;  como se os seus amigos no
tivessem confiana em voc ou neles mesmos.

       Como terapeuta, vejo como uma de minhas primeiras obrigaes criar um contexto no qual as pessoas
que vm a mim possam expressar seus pensamentos e opinies sem medo do ridculo ou da censura. Porm,
essa poltica, certamente, no deve se restringir a psicoterapeutas. Se voc concorda que no tem nada que
ganhar fazendo com que as pessoas tenham medo de falar na sua presena, pergunte a si mesmo se criou de
fato para elas um contexto de abertura, quando interagem com voc.

        Uma das experincias que as pessoas esperam ter na terapia (ou fora dela)  ser VISVEIS , ser vistas e
entendidas. Possivelmente se sentiram alienadas e invisveis desde a infncia e anseiam por ter uma viso
diferente de si mesmas. Respeitando esse desejo e entendendo sua legitimidade, procuro responder de maneira
adequada, compartilhando observaes sobre o cliente e dando-lhe retornos que lhe permitam sentir-se visto e
ouvido. "Acho que ouvi voc dizer...", "Acho que voc pode estar sentindo...", "Agora voc parece estar...", "Vou
dizer como entendi o seu ponto de vista...".

      Com certeza isso  COMUNICAO HUMANA, no apenas uma comunicao psicoteraputica. TODOS
NS ansiamos por uma experincia de visibilidade e entendimento. No deveramos talvez d-la uns aos outros,
torn-la parte natural dos encontros humanos?

        Os terapeutas eficientes julgam, mas no so "condenadores". Julgam na medida em que obviamente
avaliam certos comportamentos como superiores a outros, do ponto de vista da felicidade a longo prazo e do
bem-estar do cliente. No so hipcritas a ponto de pretender que no tm padres ou que no tm preferncias
e averses. Contudo, no moralizam e no tentam modificar o comportamento, invocando a culpa. Assim, eles
no dizem: "S uma pessoa doentia poderia fazer uma coisa dessas"; ou: "Voc sabe o quanto  imoral:"; ou:
"Enquanto voc no reconhecer o quanto  depravado, no posso ajud-lo; ou: "Voc no  muito brilhante, no
 mesmo?".

         Quando bombardeamos as pessoas com avaliaes do seu carter, da sua inteligncia etc., podemos
intimid-las, mas no estimular crescimento, confiana e auto-respeito. A alternativa para quem no quer ser
moralista e "condenador" no  bombardear com elogios e louvores extravagantes. Esse comportamento em
geral intensifica os sentimentos de falta de valor (ou invisibilidade), pois a pessoa sabe que quem fala no est
sendo preciso. Podemos aprender a falar do que gostamos ou no, admiramos ou no, sem rotular, agredir ou
louvar de maneira pouco realista. "Eu realmente aprecio quando voc...", "No me sinto  vontade quando
voc...", "Sinto-me magoado quando voc...", "Sinto-me inspirado quando voc...".

         Segundo a minha experincia, os terapeutas que de fato ajudam so compassivos, mas no so
sentimentais nem encorajam a passividade e autopiedade. Muitos de meus clientes fizeram comentrios a
respeito da importncia dessa diferena para o seu progresso na terapia. Eu pergunto a eles: "Quais so as
alternativas que voc v?"; "O que voc acha que poderia fazer para melhorar a sua situao?"; "Como voc est
disposto a agir?".

        No interrompo com essas perguntas quando a pessoa est apenas comeando a expressar sofrimento.
Mas, em geral, chega o momento em que as perguntas precisam ser feitas. Acredito que parte de minha tarefa
consiste em despertar no cliente ma orientao ativa.

        Ao tratar de famlia, amigos e companheiros, haver inevitavelmente momentos em que poderemos
ajud-los, se assim quisermos, apenas transmitindo essa perspectiva.

         Os terapeutas eficientes so gentis, contudo no deixam que seus clientes os dominem. Por exemplo,
eles no deixam que os clientes lhes telefonem a qualquer hora do dia ou da noite para falar de assuntos triviais.
No permitem ser financeiramente explorados. Exigem que o valor de seu tempo seja reconhecido. No deixam a
hostilidade ou os maus modos do cliente sem resposta (a no ser como uma ESTRATGIA DE TEMPO LIMITADO
para propsitos teraputicos). Eles traam linhas e colocam limites. Assim como bons pais, como amigos
inteligentes, como todas as pessoas que se auto-respeitam, em todos os contextos. Cuidando adequadamente de
si mesmos, de suas prprias necessidades e de seu tempo, os terapeutas DO O EXEMPLO. Eles avisam:  assim
que trato a mim mesmo, e  dessa maneira que voc deveria se tratar. Dessa forma, no haver conflito entre o
egocentrismo racional (um respeito honroso por seus prprios interesses), de um lado, e a responsabilidade
profissional, de outro.

        Esse comportamento  relevante para todos ns. Assim como os pais que se auto-sacrificam no do um
bom exemplo ("Desisti da vida por voc"), mas simplesmente ensinam aos filhos que o certo  ver-se como
objetos de sacrifcio  o que tende a gerar ressentimento, dio e culpa nos filhos. Os amigos que se auto-
sacrificam ("Minhas necessidades no vm ao caso") so um fardo e no uma alegria, uma inspirao, ou um
exemplo de qualquer coisa positiva que desejamos aprender.

         Estou plenamente consciente de que o comportamento, inclusive o mais indesejvel, tem uma utilidade
funcional em algum nvel, dentro do conhecimento e do contexto do indivduo em questo. Portanto, quero
entender o modelo de estar-no-mundo a partir do qual o cliente atua, em contraste com a simples rejeio do
comportamento, considerando-o como "louco". Por exemplo, uma esposa que grita, zangada, pode ser muito
desagradvel de ver, mas essa conduta tem seu prprio e triste sentido se soubermos que nada alm disso
atrairia a teno de seu marido e que ela no  capaz de imaginar uma alternativa que funcione melhor.

        Repetindo uma observao feita anteriormente neste livro, no poderemos entender uma pessoa se
apenas a rotularmos de "imprestvel", "desatenciosa", "imoral", e assim por diante. Para compreender o outro,
precisamos conhecer o contexto em que seu comportamento faz algum sentido ou em que ele se sente
desejvel, ou mesmo necessrio, at se, objetivamente, tudo for totalmente irracional.

        No nvel de nossas relaes pessoais, isso significa ajudar a pessoa que se comporta de maneira
inadequada a descobrir de onde ela vem, para entender as necessidades que tenta satisfazer; em outras
palavras, para levar quela pessoa o entendimento e a simpatia que, em captulo anterior, sugeri que deveramos
ter conosco. "O que voc estava sentindo na ocasio?", "Que alternativas via para voc?", "O que voc acha que
estava dizendo aquela pessoa  qual voc reagia de modo to forte?", "Como voc via a situao?".

        Obviamente, no podemos praticar da mesma forma essa poltica com qulquer pessoa que encontramos.
Mas, com pessoas que amamos e com quem de fato nos preocupamos  ou talvez com pessoas com quem
trabalhamos -, ela  um instrumento poderoso.

        Lembre-se de que a culpa paralisante no serve aos interesses de ningum. Afirmar isso no implica
desculpar ms aes ou patrocinar o amoralismo.  claro que em certos momentos temos de dizer: "O seu
comportamento  totalmente inaceitvel para mim". Ou mesmo: "No quero nada com voc". Porm, se a nossa
meta  induzir uma mudana no comportamento e um crescimento da auto-estima para apoiar a mudana, em
muitos casos a estratgia acima sugerida tem muito de recomendvel.

        Uma das caractersticas dos terapeutas eficientes, bem como dos melhores professores e treinadores, 
que eles sabem que seus clientes tm um potencial maior do que eles mesmos s vezes reconhecem. "Voc no
acredita que  capaz de dominar a lgebra? Pois eu acredito." "Voc acha que no  capaz de saltar mais alto?
Tente de novo." "Voc diz que no se atreve a agir contrariando as crenas dos seus pais? Pois eu acho que voc
 capaz de pensar sozinho e conduzir a sua prpria vida." Em outras palavras, eles no se deixam levar pelo
autoconceito negativo da pessoa. Esse ponto  da maior importncia.

        Um cliente, certa vez, observou a um jovem psiclogo que estava estudando comigo: "Se voc me
perguntasse quais os principais fatores que considero responsveis pelo sucesso da terapia, colocaria em
primeiro lugar a convico de Nathaniel de que sou capaz de fazer todos os tipos de coisas que penso no ser
capaz. Eu achava que nunca poderia ganhar a vida fazendo algo de que realmente gosto. Agora estou fazendo
isso. Nunca pude me imaginar alegremente apaixonado. Agora estou. Eu dizia a Nathaniel que no tinha
salvao, e ele dizia qualquer coisa como: `Ouvi o que voc disse. Podemos continuar?'".

        Se queremos alimentar a auto-estima de outra pessoa, devemos nos relacionar com ela a partir da nossa
prpria viso de seu mrito ou valor, promovendo uma experincia de aceitao e respeito. Precisamos lembrar
que quase todos ns tendemos a subestimar nossos recursos interiores  e manter esse ponto presente em
nossa conscincia. Somos capazes de realizar mais coisas do que acreditamos. Se isso permanecer claro para
ns, os outros podero adquirir esse conhecimento quase por osmose.

        Podemos aprender, por exemplo, a ouvir a expresso dos sentimentos de uma pessoa quando estes so
de dvida e insegurana. Podemos ouvir sem ceder a qualquer impulso de aconselhar ou discutir, porque
entendemos que assumir e vivenciar plenamente os sentimentos indesejveis  o primeiro passo para
transcend-los.
         claro, s vezes precisamos reconhecer que a pessoa pode usar comentrios autodepreciativos para nos
manipular, fazendo-nos discordar dela e elogi-la. Podemos nos recusar a participar desse jogo dizendo:
"Gostaria de saber o que voc ganha, diminuindo-se justamente agora".

        Pode ser muito difcil continuar acreditando em uma pessoa quando ela parece no acreditar em si
mesma. E, no entanto, um dos maiores presentes que podemos oferecer  a nossa recusa em aceitar de cara o
autoconceito negativo da pessoa, vendo atravs dele o eu mais profundo e mais forte que existe como uma
potencialidade dentro de ns. Nem sempre conseguimos obter sucesso  podemos apenas tentar. Na melhor das
hipteses, traremos para fora o melhor que a pessoa tem dentro de si. Na pior, fortaleceremos o melhor em ns
mesmos.

        Por fim, independentemente do quanto somos racionais, congruentes e consistentes em nossa conduta
com as pessoas, o que importa  que lhes apresentamos uma impresso inteligvel e compreensvel da realidade
 e qualquer psicoterapeuta competente, bem como qualquer ser humano com auto-respeito, se esforar por
oferecer essa medida de sanidade em suas interaes. Assim, assinalamos: sua mente  competente para lidar
comigo; no estou apresentando uma impresso desconcertante e contraditria da realidade para fazer com que
voc se sinta confuso, impotente e incapaz. Quando somos racionais, congruentes e consistentes,  claro que a
nossa prpria auto-estima se beneficia.




        Essas observaes so igualmente relevantes em nossa conduta com adultos e crianas. Como j
explorei a questo das relaes entre pais e filhos em outro livro meu, no tratarei deste assunto neste livro. O
que estou esboando agora so orientaes gerais aplicveis a TODOS os nossos relacionamentos.

       Todavia, se voc tem filhos, examine as descries de comportamentos precedentes e considere o
quanto voc os pratica porque as crianas precisam deles, ainda mais do que os adultos.

        "Se eu tivesse tido a experincia de ser respeitado quando criana"; "Se algum tivesse acreditado em
mim quando eu era jovem"; "Se algum tivesse me feito sentir que meus desejos e sentimentos eram
importantes"; "Se algum tivesse me visto como um indivduo nico"  ouvi um sem-nmero de clientes em
terapia me dizerem, em exerccios de concluso de sentenas  "Eu teria aprendido auto-respeito; poderia
acreditar em mim mesmo; teria levado meus prprios desejos a srio e trabalhado para realiz-los; teria um
senso mais claro de quem eu sou".




        Quanto mais trabalhamos conosco, mais adquirimos adequao em nossas relaes. Nenhum pai ou me
com auto-estima saudvel pensar que ridicularizar uma criana poder gerar competncia e independncia.
Nenhum professor com elevada auto-estima precisar que lhe digam que o sarcasmo no  um bom instrumento
de ensino. Nenhum executivo com auto-respeito pensar que pode conseguir o melhor das pessoas tratando-as
com desprezo. Nenhum ser humano com autoconfiana tenta manter amigos colocando-se como autoridade e
manipulando-os atravs de suas inseguranas.

        Na rea das relaes entre pais e filhos  claro que a melhor maneira de gerar uma boa auto-estima em
crianas, embora nada seja garantido,  ter uma boa auto-estima (assim como a melhor maneira de despertar
atitudes sexuais saudveis  t-las ns mesmos). Mas o princpio  mais amplo. Se queremos dar uma
contribuio positiva ao autoconceito de outros  QUAISQUER outros, no apenas filhos  a auto-estima (como a
caridade) comea no lar, com ns mesmos.

       Serenidade inspira serenidade, felicidade inspira felicidade, sinceridade inspira sinceridade; quando
vivemos em sintonia com o melhor que h em ns, provavelmente extrairemos o melhor dos outros.

       Se tivermos a coragem de deixar que os outros vejam nossa emoo, estaremos reconhecendo que a
emoo  um valor, e que os outros no devem reprimir os prprios sentimentos. Se deixarmos os outros verem
a paixo que temos por nossas metas, sancionaremos de maneira implcita a sua capacidade de perseguir
apaixonadamente as prprias metas. Se honrarmos com orgulho nossos prprios valores e interesses,
mostraremos aos outros que eles tambm tm o direito de honrar os seus. Se tivermos a integridade de ser
quem somos, poderemos despertar a mesma integridade nos outros.

        Assim, honrando nosso eu, ajudamos a construir uma comunidade com auto-estima saudvel. O
individualismo no  um adversrio da comunidade, mas o seu pilar mais importante.




       Se essas idias lhe parecem vlidas, o que significam em termos de suas interaes com as pessoas
durante o prximo ms da sua vida? E no ms seguinte?




                               Captulo 10  A questo do egosmo

       A auto-estima  muitas vezes confundida com falsas noes de "egosmo".

        Embora a tendncia natural  qual me refiro seja evidente em qualquer lugar, encontrei pessoalmente
esse mal-entendido durante uma viagem que fiz para promover um outro livro meu. Existe hoje uma tendncia
impensada de classificar como "narcisista" qualquer indivduo ativamente preocupado com seu desenvolvimento
pessoal, uma espcie de "coice" contra o movimento do potencial humano. "Eu" ou "auto", ao que parece,
tornaram-se palavras inflamatrias, pelo menos em alguns crculos.

        Auto-estima, auto-realizao, autopercepo  at mesmo a luta pela autonomia  esto se tornando
coisas moralmente suspeitas. "Ser que j no basta dessa gerao do `eu'?", perguntaram os entrevistadores.
"Voc no est encorajando o egosmo?"

        Embora tenha sido tratado de maneira calorosa, no pude deixar de notar a inquietude que as simples
palavras "honrar o eu" pareciam evocar. "E os problemas do mundo?", diziam. "Voc no est interessado em
nada alm do indivduo isolado? E os relacionamentos?", "A maioria das pessoas j no tem um ego grande
demais?"

       J que essas perguntas so feitas com tanta frequncia,  razovel assumir que revelam algo que a
grande maioria das pessoas pensa. E  isso que precisamos mudar.

        Quero deixar claro que em nenhum dos meus trabalhos anteriores minha mensagem foi "Eu primeiro,
no importa o direito dos outros". Antes, me preocupei em explorar a relao entre a auto-estima e o bem-estar
humano, de maneira individual e social. Ao longo dessa investigao, vi claramente que os valores do
individualismo e do auto-interesse esclarecido fornecem a melhor base possvel p ara a cooperao social, a
benevolncia e o progresso.

         Pergunte a voc mesmo com quem gostaria de compartilhar o mundo. Pessoas que respeitam o seu
direito de existir e no lhe pedem para agir contra o seu prprio interesse, ou pessoas que o tratam como um
objeto de sacrifcio? Pessoas que desfrutam um forte senso de identidade pessoal ou pessoas que esperam que
voc crie um para elas? Pessoas que assumem responsabilidade por sua prpria existncia ou pessoas que
tentam passar essa responsabilidade a voc? Essas so,  claro, algumas das consequncias SOCIAIS, tanto da
alta como da baixa auto-estima.

        muito fcil apontar alguns narcisistas que falam sobre "perseguir o meu crescimento pessoal" ou
"perseguir a minha auto-estima".  fcil identific-lo, porque o narcisismo pode ser encontrado em qualquer
lugar, mas individualismo, auto-estima, autonomia, preocupao com o desenvolvimento pessoal  estes no so
traos narcisistas. O narcisismo  uma condio de auto-absoro doentia e excessiva que surge de um
sentimento antigo e profundo de carncia e deficincia interior. O irnico  que os vcios tipicamente atribudos a
pessoas com egos fortes  mesquinhez, competitividade agressiva, facilidade excessiva para se ofender  so, de
fato, aflies particulares dos egos fracos.

         No posso imaginar qualquer pessoa racional sugerindo que a auto-realizao, isto , a realizao dos
nossos potenciais positivos, deva ser perseguida sem envolver e sem comprometer relacionamentos pessoais.
"No seria do meu interesse particular", perguntei a meus entrevistadores, "encontrar pessoas que eu possa
amar, respeitar e admirar?". Normalmente eu via uma luz brilhar nos seus sorrisos. "No seria do meu interesse
particular viver em um mundo mais seguro, mais sadio, melhor  e tentar fazer esse mundo existir?"

        A polarizao do eu e os outros ou do eu e o mundo no tem base vlida na realidade. De fato, existe
uma esmagadora evidncia de que quanto maior o nvel da auto-estima do indivduo, mais ele tratar os outros
com respeito, gentileza e generosidade. As pessoas que no vivenciam o amor-prprio tm pouca ou nenhuma
capacidade de amar os outros. As pessoas que vivenciam dvidas e inseguranas profundas tendem a ver os
outros seres humanos como assustadores e hostis. As pessoas que tm pouca ou nenhuma auto-estima nada
tm para contribuir para o mundo.

        A resposta, acredito, est na dificuldade que muitas pessoas tm em livrar-se de uma noo autoritria
de tica como algo FORA DE VOC MESMO. Encontramos esse ponto de vista manifestado de muitas maneiras
diferentes, em famlias, escolas, igrejas e, certamente, nos governos.

        De fato, quase todos os sistemas ticos que chegaram a ter alguma influncia no mundo foram variaes
sobre o tema da auto-renncia e do auto-sacrifcio. Enquanto o desprendimento  igualado  virtude, o egosmo
 considerado sinnimo do mal. Nesses sistemas o indivduo  sempre a vtima, retorcida sobre si mesma e
ordenada a ser "desprendida" e a estar a servio de algum valor supostamente mais elevado  o fara, o
imperador, o rei, a tribo, a nao, a famlia, a verdadeira f, a raa, o Estado, o proletariado ou a sociedade (ou
"o planeta").

        Entenderamos mais prontamente a disposio que tm tantas pessoas de se submeter a um tipo ou
outro de figura autoritria, sob cujo imprio muitas atrocidades so s vezes cometidas, se nos lembrssemos da
forma como quase todos ns fomos introduzidos  palavra "bom". "Ele  um BOM menino  ele se importa
comigo, se comporta." "Ela  uma BOA menina  faz o que lhe mandam." Desde cedo nos ensinam que a virtude
consiste no em honrar as necessidades, os desejos e as mais elevadas possibilidades do ser, mas em satisfazer
as expectativas dos outros. O "viver para os outros"  interpretado como a essncia da moralidade, e aqueles
que o pregam esto mais interessados na obedincia do que na auto-estima. Como psiclogo, no consigo
lembrar um momento em que no tenha percebido essa doutrina como desastrosa para o bem-estar mental e
emocional.

        Hoje, com o advento do feminismo, as mulheres esto comeando a despertar para o fato de que essa
doutrina  manipuladora e exploradora. Imagine qual seria a reao se um orador dissesse a um grupo de
mulheres modernas: "No pensem em suas prprias necessidades e vontades  pensem apenas nas
necessidades e vontades daqueles a quem servem. O auto-sacrifcio  a maior das virtudes". Os homens tambm
precisam reexaminar essa doutrina no que ela afeta suas vidas. Ela no respeita sexos. O assunto  global.

        O problema  que muitos homens e mulheres que lutam com questes de auto-realizao sentem-se
impotentes e intimidados com as acusaes de egosmo. Bem, se "egosmo" significa "estar preocupado com
interesses particulares",  CLARO que a busca da auto-estima e do desenvolvimento pessoal  egosta. Assim
como a busca da sade fsica. Assim como a busca da sanidade. Assim como a busca da felicidade. Assim como a
busca do ar que respiramos.

        Se isso  mau, COMO VAMOS EXISTIR? No podemos repudiar o eu sem repudiar a vida.

        Portanto, para ter uma vida bem-sucedida, precisamos de uma tica de auto-interesse racional, at que
estejamos preparados para respeitar o direito do indivduo  sua prpria vida. At que entendamos que cada
pessoa, inclusive ns mesmos,  um fim em si e no um meio para os fins dos outros, no poderemos pensar
com clareza sobre a nossa prpria existncia ou sobre os requisitos para a felicidade humana.

       At que estejamos dispostos a honrar o eu e a orgulhosamente proclamar nosso direito de faz-lo, no
poderemos lutar pela auto-estima  e no poderemos atingi-la.




                            Captulo 11  O impacto da auto-estima

       Como aumentamos nossa auto-estima? Vamos resumir alguns pontos-chave.

          Devemos lembrar que a auto-estima no  determinada pelo sucesso no mundo, pela aparncia
           fsica, pela popularidade ou por qualquer outro valor que no esteja diretamente sob o controle de
           nossa vontade. Antes,  uma funo da nossa racionalidade, honestidade e integridade, de todos os
           processos de nossa vontade, de todas as operaes mentais pelas quais somos responsveis.

         Eis um exerccio de concluso de sentenas que o ajudar a enfocar como voc est em relao a esse
assunto no presente. Sem dvida, este exerccio e os que se seguem diro muito a voc sobre o que absorveu do
livro at agora  e podero indicar o caminho para um trabalho posterior que eventualmente precise ser feito.

       Se eu examinasse os critrios pelos quais julgo a mim mesmo...
       Se ningum pode me dar uma boa auto-estima a no ser eu...
       Se eu optar por entender do que depende a auto-estima...
       Uma das coisas que posso fazer para elevar a minha auto-estima ...



          Uma vez que a auto-estima positiva  o sentimento, a experincia e a convico de ser adequado 
           vida e aos seus desafios, e que a nossa mente  a ferramenta bsica da sobrevivncia, o pilar central
           da auto-estima saudvel  a poltica de viver conscientemente (o que ACARRETA racionalidade,
           honestidade e integridade). Viver conscientemente  viver de maneira responsvel em relao 
           realidade, com respeito por fatos, conhecimento e verdade - , e uma poltica de GERAR UM NVEL DE
           CONSCINCIA APROPRIADO AOS NOSSOS ATOS.

       Se eu me permitisse entender o sentido de viver conscientemente...
       Se eu ainda no estiver totalmente pronto para viver conscientemente...
       Se eu estivesse disposto a saber o que estou fazendo quando ajo...
       Se eu estivese disposto a ver o que vejo e saber o que sei...



          A auto-aceitao  uma recusa em negar ou rejeitar qualquer aspecto do eu: pensamentos,
           emoes, lembranas, atributos fsicos, subpersonalidades ou aes. A auto-aceitao  a recusa de
           manter uma relao de animosidade com nossa prpria experincia.  o fundamento de todo
           crescimento e mudana.  a coragem, em ltima instncia, de estar DO NOSSO LADO. O nvel da
           nossa auto-estima no pode ser mais alto que o nvel da nossa auto-aceitao.

       Na medida em que aprendo a me aceitar...
       Uma das coisas que preciso aprender a aceitar ...
       Na medida em que desisto de lutar comigo mesmo...
       Na medida em que acolho meus sentimentos ao invs de resistir a eles...
       Na medida em que aprendo a assumir meus atos...
Estou me tornando consciente...


   Se queremos proteger nossa auto-estima, precisamos saber como avaliar de maneira adequada o
    nosso prprio comportamento. Isso inclui, primeiro, a certeza de que os padres pelos quais
    julgamos so verdadeiramente nossos e no meros valores de outros que nos sentimos obrigados a
    seguir sem convico. Segundo, precisamos conduzir nossas avaliaes com uma atitude no apenas
    de honestidade, mas de simpatia  uma disposio de considerar o contexto e as circunstncias dos
    nossos atos, bem como as opes ou as alternativas que percebemos estar disponveis para ns. Em
    assuntos nos quais nos sentimos verdadeira e apropriadamente culpados, precisamos tomar
    MEDIDAS ESPECFICAS para resolver a culpa, em vez de apenas sofrer de forma passiva.

Se acaso viver com culpa  uma fuga...
Se eu estivesse disposto a me perdoar...
Uma vez que procuro entender por que ajo como ajo...
Conforme eu for aprendendo a viver segundo os meus prprios padres...


   Precisamos aprender a NUNCA nos desculpar ou nos repreender por nossos valores ou tentar rejeit-
    los. Precisamos ter a coragem de assumir nossas foras e nossas vantagens. De outra forma,
    inevitavelmente trairemos a auto-estima.

Se eu me recusar a pedir desculpas por minhas virtudes...
Se eu for honesto quanto a minhas vantagens...
Se eu tiver prazer por mim mesmo...
Se eu admitir que gosto de mim...


   Precisamos reconhecer, fazer amizade, dialogar e afinal abraar nossos sub-eus,               ou
    subpersonalidades, para que possamos nos sentir inteiros, sem divises, INTEGRADOS.

Na medida em que aprendo a abraar o meu eu-criana...
Na medida em que aprendo a abraar o meu eu-adolescente...
Se eu rejeitar a pessoa que um dia fui...
Se eu fizer amizade com todas as partes de mim...
Estou comeando a ver que...



   Precisamos viver de maneira ativa e no passiva, para assumir responsabilidade por nossas opes,
    sentimentos, atos e bem-estar, pela realizao de nossos prprios desejos, por nossa prpria
    existncia. Como a independncia, a produtividade  uma virtude bsica da auto-estima, sendo o
    trabalho uma das formas prticas de manifestar a auto-responsabilidade.

Se eu assumir plena responsabilidade por meus atos...
Se eu assumir plena responsabilidade pelas coisas que digo...
Se eu persistir em culpar os outros...
Se eu insistir em me ver como vtima...
Se eu aceitar que minha felicidade s depende de mim...


   Autoconfiana e auto-respeito so sustentados por uma vida conduzida com autenticidade. Essa  a
    coragem de ser quem somos, preservar a congruncia entre o nosso eu interior e o eu que
    apresentamos ao mundo. Num sentido literal, isso significa viver com assertividade; aquilo que
    pensamos, valorizamos e sentimos manifestamos no mundo. No nos relegamos aos subterrneos do
    no-expresso e do no-vivido.
       Na medida em que aprendo a ser mais honesto com o que penso e sinto...
       Na medida em que aprendo a ser honesto com meus desejos...
       Quando penso em algumas das mentiras pelas quais vivi...
       Quando eu estiver pronto para abrir mo dessas mentiras...
       Se eu precisar de tempo para viver com integridade...
       Se eu estivesse disposto a me dar o tempo de que preciso para aprender...
       Se eu estivesse disposto a deixar as pessoas ouvirem a msica que toca dentro de mim...
       Se eu estivesse disposto a mostrar s pessoas quem eu sou...
        medida que vou aprendendo a ser simplesmente eu mesmo...


          Ao apoiar a auto-estima dos outros, apoiamos a nossa prpria. Assim, a auto-estima  beneficiada
           quando vivemos com benevolncia.

       Se eu lidar com as outras pessoas com respeito e benevolncia...
       Se eu der aos outros a boa vontade que desejo que dem a mim...
       Se eu me permitir entender o que estive lendo...
       Se eu aceitar que posso ainda no estar pronto para absorver todo esse conhecimento...
       Se eu me der permisso para crescer no meu prprio ritmo...
       Se este  o comeo de uma grande aventura...


          Precisamos entender que, como um ideal tico-psicolgico, a auto-estima implica e pressupoe o
           valor supremo de uma vida individual. Ela repousa em uma viso moral que v cada pessoa com um
           fim em si e  em oposio  doutrina da auto-renncia e do auto-sacrifcio  sustenta o auto-
           interesse racional como princpio orientador.

       Se eu no existo para servir os outros...
       Se as outras pessoas no existem para me servir...
       Se a minha vida pertence a mim...
       Se eu realmente tenho direito  existncia...
       Se o auto-sacrifcio no vai me comprar auto-estima...
       Se  preciso coragem para ser honrosamente egosta...
       Estou ficando consciente...


      No incio do livro, vimos que cada um dos comportamentos que resumi acima  tanto uma fonte como
uma manifestao de boa auto-estima  causa e consequncia  o princpio da causalidade recproca.

        Como podemos aumentar a nossa auto-estima? Praticando esses comportamentos. Vivendo
conscientemente, com auto-aceitao, responsabilidade, autenticidade, benevolncia e integridade.

        H grandes recompensas por isso, mas tambm h desafios. Seja qual for o seu nvel atual de auto-
estima e a vida que voc criou para refleti-la, agora mesmo voc pode estar vivenciando o conforto do familiar 
o conforto do conhecido  e intuitivamente pode sentir que crescer em auto-estima  abandonar aquela zona de
segurana e entrar no desconhecido.

        "Se eu aumentar a minha auto-estima", dizem-me os clientes, "como vou saber commo sero as coisas
para mim? Ainda estarei amando minha esposa, ou meu marido? Meu trabalho ainda ser suportvel? Meus
interesses se modificaro? Meus amigos ficaro ressentidos comigo? Serei solitrio?".

        "Posso nem sempre gostar de como me sinto", afirmam eles, "mas  familiar. Estou acostumado com
isso, mesmo com as crises de ansiedade e depresso. De uma certa forma, mantenho o controle. Porm, com
uma auto-estima significativamente mais alta, no vou me reconhecer. Vou me sentir seguro?".
        Ao fazer os exerccios deste livro e depois de praticar na vida os comportamentos indicados pelos
exerccios e pela discusso, voc vivenciar um aumento de autoconfiana e de auto-respeito, mas tambm
poder vivenciar uma certa desorientao. Na transio de um velho autoconceito para um novo  mesmo
melhorado e mais feliz  h s vezes uma certa ansiedade. Se voc perseverar em seus novos aprendizados e
comportamentos e no recair nos velhos padres, logo se sentir  vontade com o seu novo senso de ser e a
ansiedade desaparecer.

        Esse processo aplica-se  auto-estima em geral e tambm a qualquer um das prticas especficas que
melhoram a auto-estima. Por exemplo, quando aprendemos a viver mais conscientemente, ou com maior auto-
aceitao, podmos ao meso tempo desfrutar a experincia e consider-la estranha  como se estissemosvivendo
em nosso corpo com uma pessoa que no estamos certos de conhecer. Conseguir aceitar alguma desorientao
como aspect inevitvel do crescimento e estar dispoto a toler-la at que cheguemos a um novo sendo de
"normal"  essencial para uma mudana bem-sucedida.

        Talvez a declarao mais eloquente sobre esse problema tenha sido a que fez um cliente de terapia
muitos anos atrs: "Nathaniel, no sinto ansiedade h uma semana, E ISTO EST ME DEIXANDO NERVOSO!

          Tenho visto clientes praticarem o tipo de procedimento que apresento neste livro, perderem toda ou
grande parte de sua depresso e ento literalmente se atirar de volta  autotortura, porque ainda estavam
ligados a um autoconceito superado, que estava por trs de sua verdadeira experincia. Durante anos, eles
viram-se como sofredores. Suas vidas eram organizadas em volta desse autoconceito, inclusive seus
relacionamentos. "Qual  o sentido da minha vida, se no estou sofrendo?", ouvi-os comentar. "Se no estou
infeliz, como vou agir com as pessoas? O que vou falar, ou fazer? No tenho experincia em ser feliz! Alm disso,
se estou infeliz, no posso perder esse sentimento, ele no pode ser tirado de mim, enquanto, se estou feliz..."

       Esse  um exemplo do "desconhecido", o qual mencionei linhas atrs  o territrio pouco familiar em que
pisamos quando crescemos em auto-estima.

        E ainda h mais  as reaes das outras pessoas quando testemunham nossas mudanas. Se estamos
mais seguros do que antes, se transmitimos um maior auto-respeito  ou se estamos mais abertos, espontneos,
alegres ou menos defensivos -, a maneira de as outras pessoas lidarem conosco pode no ser mais adequada,
pode no ser mais apropriada para quem somos, e ento ELAS ficam desorientadas. Ou elas ajustam seus
comportamentos para combinar com o novo autoconceito que projetamos, ou (intencionalmente ou no)
tentaro nos manobrar de volta ao nosso antigo autoconceito. De um modo ou de outro, a vida no ser mais
como era. Mais uma vez, estaremos confrontando o no-familiar, o desconhecido.

        Nossa resistncia a essas mudanas pode fazer-nos relutantes em participar dos exerccios, ou em
praticar os comportamentos descritos nos captulos anteriores. Precisamos combater tanto a inrcia como o
medo. Se aceitarmos esses sentimentos e, no entanto, no cedermos a eles  mas em vez disso nos
mantivermos determinados a avanar em autoconfiana, auto-respeito e desfrute da vida, quais sero as
recompensas?

        No nvel da experincia interna direta, a resposta agora  clara: maior autoconfiana e amor-prprio,
maior alegria em nosso ser e maior orgulho pelo que conseguimos de ns mesmos.

       Alm disso, quando voc cresce em auto-estima:

          Seu rosto, suas maneiras, seu jeito de falar e de se mover tendero naturalmente a projetar o prazer
           que voc sente em estar vivo.
          A uma certa altura, voc notar que  mais capaz de falar de suas realizaes ou defeitos de maneira
           direta e honesta, pois estar numa relao amistosa com os fatos.
          Voc provavelmente descobrir que se sente mais  vontade em oferecer e receber elogios,
           expresses de afeto, apreciao etc.
          Voc tender a estar mais aberto s crticas e mais  vontade para reconhecer enganos, porque a
           sua auto-estima no estar presa a uma imagem de "perfeio".
          Suas palavras e seus movimentos tendero a possuir uma qualidade de desenvoltura e
           espontaneidade, pois no estar em guerra consigo mesmo.
          Haver cada vez mais harmonia entre o que voc diz e como se parece e se movimenta.
          Voc descobrir que cada vez mais tem uma atitude aberta e curiosa diante de novas idias,
           experincias e possibilidades de vida, pois sua existncia se tornou uma aventura.
          Os sentimentos de ansiedade e de insegurana, se aparecerem, tero menos possibilidades de
           intimid-lo ou domin-lo, pois ser muito mais fcil administr-los e super-los.
          Voc muito provavelmente descobrir que aprecia os aspectos humorsticos da vida, em si mesmo e
           nos outros.
          Voc ser mais flexvel ao reagir a situaes e desafios, motivado por um esprito de inventividade e
           mesmo ludicidade, pois confia em sua mente e no v a vida como "sina ou runa".
          Voc estar mais  vontade com o comportamento assertivo (no-belicoso), ser mais rpido em se
           dar apoio e a falar por si mesmo.
          Voc tender a conservar uma qualidade de harmonia e dignidade em situaes de tenso, uma vez
           que se torna cada vez mais natural sentir-se centrado.

         Voc passaria por algumas mudanas de valores em termos de pessoas, trabalho e atividades de lazer?
Quase inevitavelmente. Voc ainda conheceria momentos de conflito, crise e decises difceis?  claro, eles so
intrnsecos  vida. Voc se vivenciaria como possuidor de recursos muito maiores para responder a esses
desafios? Um sonoro SIM!

        Mesmo no nvel fsico poder haver mudanas visveis  medida que voc crescer em autoconfiana e
auto-respeito:

              Seus olhos podem ficar mais alertas, brilhantes e vivos.
              Seu rosto, a uma certa altura, ficar mais relaxado e (salvo por doena) tender a demonstrar
               uma cor natural e um bom tnus muscular.
              Seu queixo provavelmente ficar em posio mais natural e mais alinhada com o corpo.
              Seu maxilar tender a ficar mais relaxado.
              Seus ombros ficaro mais relaxados e, no entanto, retos.
              Suas mos tendero a ficar relaxadas e graciosas.
              Seus braos tendero a pender de uma maneira relaxada e natural.
              Sua postura tender a estar relaxada, ereta e bem balanceada.
              Seu caminhar tender a ser determinado (sem ser agressivo e arrogante).
              Sua voz tender a se modular com a intensidade apropriada  situao, com a pronncia clara.

        A probabilidade  que voc demonstre essas caractersticas cada vez mais, pois muitos observadores j
notaram a presena desses traos fsicos, bem como dos psiclogos j citados, em homens e mulheres que
desfrutam uma auto-estima saudvel.

        Voc notar que o tema do relaxamento aparece seguidamente. O relaxamento implica voc no estar se
escondendo de si mesmo e no estar em guerra com quem voc , enquanto a tenso crnica transmite a
mensagem de algum tipo de diviso interna, algum tipo de auto-evitao ou auto-repdio, algum aspecto do ser
que  rejeitado ou reprimido.

       Pergunte-se que diferena faria em sua experincia de estar vivo se os traos psicolgicos e fsicos que
mencionei se tornassem parte natural de voc. Pergunte-se como voc seria afetado em sua capacidade de amar
e ser amado. Pergunte-se como voc seria afetado em sua maneira de encarar o trabalho, em seu nvel de
ambio, nas metas que almeja atingir.

        Um aumento de auto-estima faz diferena. Quando voc enxergar com clareza essa diferena, saber
que a luta vale a pena.

       Ao comprometer-se com essa jornada, voc descobrir que ela j comeou.
